O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) ainda ocorre tardiamente para muitas crianças brasileiras. Uma revisão de escopo publicada na revista Children identificou que, em diversos estudos nacionais, a idade média de diagnóstico frequentemente ultrapassa os 48 a 60 meses de vida. Em alguns serviços especializados de nível terciário, a confirmação diagnóstica pode ocorrer por volta dos 79 meses, evidenciando uma trajetória marcada por atrasos e oportunidades perdidas de identificação precoce.
O estudo analisou oito pesquisas envolvendo mais de 24 mil participantes e buscou compreender como ocorre o percurso até o diagnóstico do autismo no país. Os resultados mostraram que o intervalo entre as primeiras preocupações dos cuidadores e a confirmação diagnóstica pode variar de dois a três anos, período considerado crítico para o desenvolvimento infantil e para o acesso oportuno a intervenções e apoios especializados.
Segundo os autores, o atraso não decorre de um único fator, mas do acúmulo de barreiras em diferentes etapas da jornada de cuidado. Muitas famílias identificam sinais precoces relacionados à comunicação, interação social ou comportamento e procuram atendimento médico, porém essas preocupações nem sempre resultam em uma avaliação estruturada do desenvolvimento. Em diversos casos, os sinais são interpretados como variações normais do desenvolvimento infantil, retardando o encaminhamento para investigação especializada.
A revisão também apontou que a atenção primária à saúde ainda desempenha um papel limitado na identificação inicial do TEA. O diagnóstico permanece fortemente concentrado em especialistas, como neuropediatras e psiquiatras infantis, o que contribui para a sobrecarga dos serviços de referência e para o prolongamento das filas de espera. Além disso, a ausência de fluxos assistenciais bem definidos dificulta a coordenação entre os diferentes níveis de atenção.
Outro aspecto destacado pelos pesquisadores é a desigualdade no acesso aos serviços especializados. A maior parte dos estudos analisados foi realizada na região Sudeste, refletindo a concentração geográfica dos centros de diagnóstico e acompanhamento. Essa distribuição desigual pode representar um desafio adicional para famílias residentes em regiões com menor oferta de profissionais e serviços especializados.
Fatores socioeconômicos também parecem influenciar a trajetória diagnóstica. Em uma análise multinacional incluída na revisão, a dependência exclusiva do sistema público de saúde esteve associada a diagnósticos mais tardios. Para os autores, esse achado reforça a importância de fortalecer a capacidade da rede pública para identificar precocemente sinais de desenvolvimento atípico e garantir encaminhamentos oportunos.
A revisão ainda chamou atenção para importantes lacunas na produção científica brasileira sobre autismo. Informações relacionadas à raça, etnia e condições sociais foram raramente reportadas pelos estudos incluídos. Além disso, as amostras analisadas apresentaram predominância expressiva de participantes do sexo masculino, limitando a compreensão sobre possíveis diferenças na identificação e no diagnóstico de meninas com TEA.
De acordo com os pesquisadores, a escassez desses dados dificulta a avaliação do impacto das desigualdades sociais e raciais sobre o acesso ao diagnóstico e aos serviços de saúde. Também impede uma compreensão mais ampla das particularidades da trajetória diagnóstica em diferentes populações e contextos regionais.
Os autores concluíram que o atraso no diagnóstico do autismo no Brasil reflete, sobretudo, fragilidades na organização da rede assistencial. Entre as estratégias apontadas para reduzir esses atrasos estão o fortalecimento da vigilância do desenvolvimento infantil na atenção primária, a utilização de ferramentas estruturadas de rastreamento durante as consultas pediátricas, a capacitação dos profissionais de saúde para reconhecer sinais precoces e a melhoria da coordenação dos encaminhamentos entre os diferentes níveis de atenção.
Para os pesquisadores, ampliar a capacidade de identificação precoce do TEA representa um passo fundamental para garantir acesso mais oportuno às intervenções e promover maior equidade no cuidado às crianças brasileiras e suas famílias.
Publicado el 24 de septiembre de 2026
Saúde
Diagnóstico de autismo pode atrasar até quatro anos no Brasil
Estudo apontou que crianças com autismo ainda enfrentam atrasos significativos no diagnóstico no Brasil, refletindo desafios na atenção primária e na coordenação do cuidado.
Autor/a: Sallum, B.T. et al.
Fuente: Children 2026, 13(8), 1082; Delayed Diagnosis and Missed Opportunities for Early Autism Identification in Brazil: An Exploratory Scoping Review
O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) ainda ocorre tardiamente para muitas crianças brasileiras. Uma revisão de escopo publicada na revista Children identificou que, em diversos estudos nacionais, a idade média de diagnóstico frequentemente ultrapassa os 48 a 60 meses de vida. Em alguns serviços especializados de nível terciário, a confirmação diagnóstica pode ocorrer por volta dos 79 meses, evidenciando uma trajetória marcada por atrasos e oportunidades perdidas de identificação precoce.
O estudo analisou oito pesquisas envolvendo mais de 24 mil participantes e buscou compreender como ocorre o percurso até o diagnóstico do autismo no país. Os resultados mostraram que o intervalo entre as primeiras preocupações dos cuidadores e a confirmação diagnóstica pode variar de dois a três anos, período considerado crítico para o desenvolvimento infantil e para o acesso oportuno a intervenções e apoios especializados.
Segundo os autores, o atraso não decorre de um único fator, mas do acúmulo de barreiras em diferentes etapas da jornada de cuidado. Muitas famílias identificam sinais precoces relacionados à comunicação, interação social ou comportamento e procuram atendimento médico, porém essas preocupações nem sempre resultam em uma avaliação estruturada do desenvolvimento. Em diversos casos, os sinais são interpretados como variações normais do desenvolvimento infantil, retardando o encaminhamento para investigação especializada.
A revisão também apontou que a atenção primária à saúde ainda desempenha um papel limitado na identificação inicial do TEA. O diagnóstico permanece fortemente concentrado em especialistas, como neuropediatras e psiquiatras infantis, o que contribui para a sobrecarga dos serviços de referência e para o prolongamento das filas de espera. Além disso, a ausência de fluxos assistenciais bem definidos dificulta a coordenação entre os diferentes níveis de atenção.
Outro aspecto destacado pelos pesquisadores é a desigualdade no acesso aos serviços especializados. A maior parte dos estudos analisados foi realizada na região Sudeste, refletindo a concentração geográfica dos centros de diagnóstico e acompanhamento. Essa distribuição desigual pode representar um desafio adicional para famílias residentes em regiões com menor oferta de profissionais e serviços especializados.
Fatores socioeconômicos também parecem influenciar a trajetória diagnóstica. Em uma análise multinacional incluída na revisão, a dependência exclusiva do sistema público de saúde esteve associada a diagnósticos mais tardios. Para os autores, esse achado reforça a importância de fortalecer a capacidade da rede pública para identificar precocemente sinais de desenvolvimento atípico e garantir encaminhamentos oportunos.
A revisão ainda chamou atenção para importantes lacunas na produção científica brasileira sobre autismo. Informações relacionadas à raça, etnia e condições sociais foram raramente reportadas pelos estudos incluídos. Além disso, as amostras analisadas apresentaram predominância expressiva de participantes do sexo masculino, limitando a compreensão sobre possíveis diferenças na identificação e no diagnóstico de meninas com TEA.
De acordo com os pesquisadores, a escassez desses dados dificulta a avaliação do impacto das desigualdades sociais e raciais sobre o acesso ao diagnóstico e aos serviços de saúde. Também impede uma compreensão mais ampla das particularidades da trajetória diagnóstica em diferentes populações e contextos regionais.
Os autores concluíram que o atraso no diagnóstico do autismo no Brasil reflete, sobretudo, fragilidades na organização da rede assistencial. Entre as estratégias apontadas para reduzir esses atrasos estão o fortalecimento da vigilância do desenvolvimento infantil na atenção primária, a utilização de ferramentas estruturadas de rastreamento durante as consultas pediátricas, a capacitação dos profissionais de saúde para reconhecer sinais precoces e a melhoria da coordenação dos encaminhamentos entre os diferentes níveis de atenção.
Para os pesquisadores, ampliar a capacidade de identificação precoce do TEA representa um passo fundamental para garantir acesso mais oportuno às intervenções e promover maior equidade no cuidado às crianças brasileiras e suas famílias.