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Publicado el 31 de agosto de 2026

Eixo intestino-osso

Qual papel da microbiota intestinal na saúde óssea?

A microbiota intestinal regula a absorção de nutrientes, a imunidade e o remodelamento ósseo, consolidando o eixo intestino-osso como um importante alvo terapêutico.

Autor/a: Inchingolo F, Inchingolo AM, Piras F, Ferrante L, Mancini A, Palermo A, Inchingolo AD, Dipalma G.

Fuente: Curr Opin Endocrinol Diabetes Obes. 2024 Jun 1;31(3):122-130. doi: 10.1097/MED.0000000000000863. The interaction between gut microbiome and bone health

Pesquisas recentes têm evidenciado a complexa interação entre os microrganismos gastrointestinais (MGs) e a saúde óssea. Além de seu papel estabelecido na manutenção da homeostase intestinal, a microbiota vem sendo reconhecida como um importante regulador de diversos processos fisiológicos que influenciam a integridade do tecido esquelético.

Entre suas funções, destaca-se a participação na absorção de nutrientes essenciais para a saúde óssea, especialmente o cálcio e a vitamina D. Nesse contexto, o chamado eixo intestino-osso emerge como um importante sistema de comunicação biológica, mediado por metabólitos produzidos durante a fermentação bacteriana, como os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC). Esses compostos não apenas contribuem para o metabolismo energético, mas também exercem efeitos diretos sobre osteoblastos e osteoclastos, auxiliando na manutenção da homeostase mineral e do remodelamento ósseo.

Diversos estudos demonstraram que determinados gêneros bacterianos, como Lactobacillus e Bifidobacterium, foram associados a efeitos benéficos sobre a saúde esquelética. Por outro lado, alterações na composição da microbiota, caracterizadas pela disbiose intestinal, têm sido frequentemente relacionadas a estados inflamatórios crônicos, como a doença inflamatória intestinal. Como a microbiota participa ativamente da regulação do sistema imunológico, desequilíbrios nesse ecossistema podem favorecer respostas inflamatórias capazes de contribuir para o desenvolvimento e a progressão de condições como osteoporose e artrite reumatoide.

As evidências sobre a influência da microbiota na densidade e na estrutura óssea são cada vez mais robustas. Modelos experimentais com camundongos germ-free (livres de germes) demonstraram que a ausência de microrganismos altera significativamente a arquitetura esquelética, enquanto estudos de transplante de microbiota mostraram que a introdução de uma microbiota saudável pode promover benefícios ao metabolismo ósseo. Em seres humanos, ensaios clínicos sugeriram que determinadas cepas probióticas podem aumentar a absorção de cálcio e melhorar a densidade mineral óssea. Em contrapartida, o uso de antibióticos, mesmo por períodos relativamente curtos, tem sido associado a reduções na densidade óssea em decorrência de alterações no metabolismo mineral.

Além disso, algumas espécies bacterianas específicas, como Akkermansia muciniphila e bactérias produtoras de butirato, vêm sendo apontadas como potenciais promotoras da saúde óssea por influenciarem positivamente a diferenciação celular. Metabólitos microbianos, como acetato, propionato, butirato e indóis, também desempenham papel relevante no remodelamento ósseo, atuando como moduladores da atividade e da comunicação entre as células ósseas.

A interação entre microbiota e tecido ósseo ocorre por meio de múltiplos mecanismos. Um dos principais envolve a facilitação da absorção de nutrientes indispensáveis à mineralização óssea, como cálcio e vitamina D. Os AGCC, especialmente acetato, propionato e butirato, aumentam a solubilidade do cálcio no lúmen intestinal e influenciam diretamente a atividade celular no tecido ósseo.

Outro mecanismo importante está relacionado à modulação da resposta imunológica. Em situações de disbiose, o aumento da inflamação sistêmica pode desregular o metabolismo ósseo, favorecendo a reabsorção e comprometendo a formação de novo tecido. Além disso, o metabolismo dos ácidos biliares e a comunicação ao longo do eixo intestino-cérebro-osso também participam desse processo. Por meio de vias neurais que conectam o intestino ao sistema nervoso central, sinais fisiológicos podem estimular a liberação de neurotransmissores capazes de influenciar a atividade de osteoblastos e osteoclastos.

A microbiota também exerce efeitos sobre a produção de hormônios e fatores de crescimento sistêmicos, incluindo o fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-1) e o fator de crescimento transformador beta (TGF-β). Adicionalmente, pode modular a via de sinalização Wnt, fundamental para a diferenciação, a sobrevivência e a atividade dos osteoblastos.

É importante destacar que o eixo intestino-osso é altamente dinâmico e sensível a diversos fatores ambientais e fisiológicos. A dieta figura entre os principais determinantes dessa relação, uma vez que fibras e prebióticos favorecem o crescimento de bactérias benéficas, enquanto a ingestão inadequada de cálcio e vitamina D compromete a saúde esquelética. O uso de medicamentos também exerce influência significativa. Antibióticos podem induzir alterações profundas na composição da microbiota, enquanto o uso prolongado de inibidores da bomba de prótons (IBPs) e antiácidos pode reduzir a absorção intestinal de cálcio.

Outros fatores moduladores incluem a prática regular de atividade física, alterações hormonais relacionadas ao envelhecimento, estresse, condições de saúde mental e doenças que afetam diretamente o trato gastrointestinal, como a doença inflamatória intestinal (DII) e a doença celíaca.

A crescente compreensão do eixo intestino-osso abre perspectivas promissoras para a prática clínica. Nesse cenário, o uso de probióticos e prebióticos surge como uma estratégia potencial para modular a microbiota e favorecer o metabolismo ósseo. Recomendações dietéticas que incluam alimentos fermentados, como iogurte e kefir, associadas à prática regular de exercícios físicos, também podem contribuir para a manutenção de uma microbiota mais saudável e, consequentemente, para a preservação da saúde esquelética.

Além disso, a elevada variabilidade individual da composição microbiana reforça a importância da medicina personalizada. Ferramentas como o sequenciamento metagenômico poderão, futuramente, auxiliar na adaptação de intervenções nutricionais e terapêuticas aos perfis genéticos e microbiológicos de cada paciente.

No contexto farmacológico, a utilização criteriosa de antibióticos deve ser priorizada para minimizar impactos negativos sobre a microbiota e o metabolismo ósseo. Em situações específicas, a suplementação com probióticos pode representar uma estratégia complementar para reduzir alterações microbiológicas associadas ao tratamento.

Em conjunto, as evidências disponíveis consolidam a relação entre microbiota intestinal e saúde óssea como uma das áreas mais promissoras da pesquisa biomédica contemporânea. O aprofundamento do conhecimento sobre os mecanismos envolvidos no eixo intestino-osso, bem como sobre as cepas bacterianas e os metabólitos que participam dessa interação, poderá transformar estratégias de prevenção e tratamento de doenças osteometabólicas. Embora os avanços sejam significativos, estudos translacionais e longitudinais continuam sendo necessários para esclarecer relações causais e definir intervenções capazes de otimizar a saúde esquelética ao longo da vida.