O Clostridioides difficile (CDI) é uma das principais causas de diarreia associada ao uso de antibióticos, com impacto clínico significativo nas hospitalizações. Embora o transplante de microbiota fecal (TxMF) seja uma estratégia consolidada para casos recorrentes da infecção, seu papel no tratamento da infecção primária ainda é controverso.
Com o objetivo de esclarecer essa questão, Juul e colaboradores (2025) conduziram um ensaio clínico randomizado para avaliar a eficácia e a segurança do TxMF como terapia de primeira linha na CDI primária.
O estudo foi conduzido como um ensaio aberto, multicêntrico e de não inferioridade, realizado em hospitais e unidades de atenção primária na Noruega. Foram incluídos adultos com diagnóstico de infecção primária por Clostridioides difficile, definido pela presença de toxina nas fezes e pelo relato de três ou mais evacuações amolecidas por dia, sem episódios prévios de CDI nos 12 meses anteriores. No total, 104 participantes foram randomizados para receberem TxMF, sem antibiótico prévio, ou vancomicina oral (125 mg, quatro vezes ao dia por 10 dias).
No total, foram analisados 100 pacientes. A taxa de cura clínica no 14º dia, sem recorrência em até 60 dias e sem necessidade de tratamento adicional, foi de 66,7% no grupo TxMF e 61,2% no grupo vancomicina, com uma diferença de 5,4 pontos percentuais. Quando considerados os pacientes que alcançaram cura clínica com ou sem tratamento adicional, as taxas foram de 78,4% no grupo TxMF e 61,2% no grupo vancomicina, com uma diferença de 17,2 pontos percentuais. Em relação à segurança, não foram observadas diferenças significativas na ocorrência de eventos adversos entre os grupos.
Em resumo, o estudo demonstrou que o TxMF é uma alternativa eficaz e segura à vancomicina no tratamento da infecção primária por CDI. A estratégia mostrou não inferioridade em relação à cura clínica e tendência a melhores desfechos quando considerado o uso de tratamento adicional. Além disso, a ausência de diferenças significativas nos eventos adversos reforçou seu perfil de segurança. A ausência do uso de antibióticos no protocolo do transplante pode representar uma vantagem adicional, especialmente em contextos clínicos que priorizam a preservação da microbiota intestinal e a redução do risco de recorrência e de resistência bacteriana.