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/ Publicado em 19 de novembro de 2025

Lipedema

Pycnogenol® mostra eficácia inédita no manejo do lipedema

Pesquisa revelou que o extrato de Pinus pinaster atua em mecanismos centrais da doença, com benefícios na qualidade de vida e nos parâmetros antropométricos.

Autor/a: Mello Netto B S, Corassa J, Barros F S, et al.

Fuente: Cureus, V. 17, N. 11, 2025. Impact of Pycnogenol® Use in the Treatment of Patients With Lipedema: A Randomized Controlled Trial

Introdução

O lipedema é uma condição crônica e progressiva caracterizada pelo acúmulo anormal de gordura, que pode impactar significativamente a qualidade de vida das mulheres. Essa manifestação é desproporcional e nodular, afetando principalmente os membros inferiores, embora também possa atingir o abdômen inferior, quadris, nádegas e membros superiores.

Ainda existem muitas lacunas no conhecimento sobre a sua verdadeira prevalência, os fatores de risco e a fisiopatologia. No entanto, evidências sugeriram que fatores genéticos e hormonais desempenham um papel crucial no seu desenvolvimento. A condição tem maior incidência durante períodos de alterações hormonais, como puberdade, gravidez, indução da gravidez e menopausa. Estes gatilhos são frequentemente associados à predominância de estrogênio, que pode influenciar a distribuição de gordura e a retenção de fluidos. Além disso, estudos têm explorado a associação do lipedema com fatores de estilo de vida, como dieta e atividade física.

O diagnóstico da doença é complexo devido à sua fisiopatologia intrincada e à falta de marcadores genéticos específicos. A avaliação se baseia predominantemente na história clínica e no exame físico da paciente. A sobreposição de sinais e sintomas com outras condições, como sobrepeso, obesidade, linfedema e doença venosa crônica, contribui para a dificuldade na distinção clínica e leva ao subdiagnóstico, resultando na subestimação da prevalência real do lipedema na prática médica.

Para um manejo adequado, é essencial o entendimento dos principais sinais e sintomas, que incluem dor, hipersensibilidade nas áreas afetadas, edema persistente, fadiga crônica, hematomas espontâneos e hipermobilidade. A classificação clínica baseia-se na avaliação morfológica dos membros inferiores. Os critérios diagnósticos abrangem o acúmulo de tecido adiposo subcutâneo com um padrão ginecoide, resistência à perda de peso, edema bilateral persistente nas pernas e a presença de nódulos subcutâneos palpáveis.

Estudos destacaram a importância de uma abordagem multidisciplinar e do tratamento cirúrgico. Contudo, há uma necessidade urgente de investigar opções menos invasivas. Agentes que influenciam positivamente a microcirculação sanguínea e linfática surgiram como opções eficazes para aliviar sintomas comuns, como dor e edema. Neste contexto, o Pycnogenol® é um candidato relevante, pois atua em mecanismos fisiopatológicos centrais da doença, como inflamação, estresse oxidativo e fragilidade vascular. Este extrato padronizado da casca de Pinus pinaster é rico em polifenóis, proantocianidinas, ácidos fenólicos e seus derivados, conferindo-lhe efeitos anti-inflamatórios, antioxidantes, lipolíticos e venotônicos.

Por isso, Netto e colaboradores (2025) investigaram a eficácia do Pycnogenol® na melhora da qualidade de vida e dos parâmetros antropométricos em mulheres com lipedema.

Métodos

Os pesquisadores delinearam o estudo como um ensaio clínico duplo-cego, randomizado e controlado por placebo, com um período de acompanhamento de 60 dias. Para este, dois grupos foram utilizados: o intervenção, que recebeu Pycnogenol® na dose de 50 mg  de 8 em 8 horas (comercializado sob o nome comercial Flebon®), e o placebo.

A amostra final foi composta por 100 mulheres com idades entre 18 e 40 anos, residentes em Vitória, Espírito Santo, que tinham diagnóstico clínico de lipedema confirmado por dois angiologistas, independentemente do estágio da doença. Foram excluídas pacientes grávidas, lactantes, usuárias de esteroides anabolizantes ou inibidores de apetite, ou aquelas em tratamento para lipedema.

A pesquisa foi realizada entre abril e junho de 2024, em uma clínica especializada. As pacientes compareceram a três visitas presenciais: uma inicial para triagem e inclusão, e as subsequentes após 4 e 8 semanas. Além disso, foram realizadas chamadas telefônicas semanais para garantir a adesão e esclarecer dúvidas. As avaliações foram conduzidas por uma equipe multidisciplinar, incluindo médicos e uma nutricionista.

A avaliação inicial incluiu um questionário estruturado que abrangia dados pessoais, perfil sociodemográfico, hábitos de vida, condições de saúde, uso de medicamentos, histórico familiar de lipedema, qualidade do sono e o impacto da doença na autoestima e nos relacionamentos conjugais.

O desfecho primário foi o impacto do Pycnogenol® na qualidade de vida das mulheres com lipedema, medido pelo Questionário de Avaliação de Sintomas do Lipedema (QuASiL). Esse é composto por 15 perguntas de autorrelato com pontuações de 0 a 10, totalizando um escore de 0 a 150, onde valores mais altos indicam maior impacto dos sintomas.

O desfecho secundário foi a avaliação da composição corporal total e segmentar. Isso foi feito por meio de bioimpedância tetrapolar (InBody120), que mensurou peso corporal, percentual total de gordura corporal e a distribuição de gordura nos membros superiores e inferiores.

Resultados

Das 100 participantes incialmente recrutadas, 93 completaram o estudo. Na linha de base, as características sociodemográficas e de hábitos de vida eram majoritariamente semelhantes entre os grupos. A idade mediana da amostra foi de 35 anos, e a maioria era casada, de cor branca ou parda, e 57% relataram ter tido pelo menos uma gravidez. Verificou-se que 73% das mulheres praticavam atividade física regular, e 69% relataram história familiar de sinais ou sintomas consistentes com lipedema. Em relação às queixas, a sensação de peso nos membros inferiores foi a mais prevalente, seguida pela insatisfação estética.

Os grupos foram considerados similares em todos os aspectos na linha de base, exceto pelo peso corporal inicial, que foi menor no grupo intervenção em comparação com o controle.

Os resultados demonstram que o Pycnogenol® teve um impacto significativo no alívio dos sintomas. Após 60 dias de tratamento, o grupo intervenção apresentou uma redução substancial no escore médio total do questionário QuASiL, enquanto o placebo demonstrou até um agravamento dos sintomas ao longo do tempo.

A análise individualizada dos itens do QuASiL revelou melhorias significativas no grupo Pycnogenol® nos primeiros 30 dias de uso, abrangendo a redução de queixas como dor e sensibilidade nas áreas afetadas, hematomas, sensação de tensão/pressão, sensação de queimação nas pernas, pernas frias, cãibras, sensação de peso e fadiga, edema, irritação da pele e dificuldade para caminhar. Após 60 dias, a melhora foi ainda mais significativa. Essa resultou em um aprimoramento substancial na qualidade de vida das pacientes, com reflexos positivos no bem-estar geral e na autoestima.

Em relação aos parâmetros antropométricos, observou-se que as participantes de ambos os grupos tinham altas porcentagens de gordura corporal, especialmente nos membros. As pacientes que receberam o Pycnogenol® experimentaram uma redução significativa no peso corporal, juntamente com uma ligeira diminuição no IMC e na porcentagem de gordura corporal ao longo do tempo. Esses achados sugeriram que o Flebon® pode oferecer efeitos benéficos adicionais no controle de peso e na composição corporal.

Em conclusão, os resultados de Netto e colaboradores (2025) indicaram que o Pycnogenol® pode ser uma alternativa terapêutica adjuvante eficaz e segura no manejo do lipedema, contribuindo para o alívio de sintomas como dor, edema e cãibras, e para mudanças positivas na composição corporal e na qualidade de vida das participantes. Entretanto, são necessários ensaios clínicos multicêntricos mais robustos e com períodos de acompanhamento mais longos para confirmar e expandir esses achados.


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