| Introdução |
A carga de transtornos mentais está em constante aumento global, sem sinais de redução desde 1990. Diversos fatores contribuem para esse quadro, especialmente em países de baixa e média renda (PBMR), onde investimentos em serviços de saúde mental e o acesso a tratamentos farmacológicos adequados são frequentemente limitados. No Brasil, fatores como a intensificação da urbanização, o aumento da população em áreas periféricas e carentes, sucessivas crises econômicas, desregulamentação das condições de trabalho e o enfraquecimento das leis trabalhistas são amplamente associados ao crescimento dos índices de adoecimento mental. Adicionalmente, fatores socioeconômicos, comportamentais e condições individuais de saúde agravam a situação.
Para tratar essas condições, antidepressivos são amplamente prescritos. Embora existam dados sobre as tendências de vendas desses medicamentos, estimativas recentes sobre a proporção da população brasileira em tratamento com antidepressivos ainda são escassas. A análise da prevalência do uso de antidepressivos no ambiente comunitário pode oferecer um indicador essencial do acesso aos cuidados de saúde mental, especialmente em contextos vulneráveis. Nesse contexto, Tiguman e colaboradores (2023) realizaram uma revisão sistemática com o objetivo de estimar a prevalência do uso de antidepressivos na população brasileira.
| Métodos |
Para esta revisão, foram realizadas buscas em bases de dados como MedLine, Embase, Scopus, LILACS e SciELO até maio de 2023. Os pesquisadores selecionaram os estudos de forma independente, extraíram os dados e avaliaram a qualidade metodológica de cada um. As prevalências de uso de antidepressivos foram reunidas por meio de metanálises de proporções, utilizando a transformação de Freeman-Tukey para maior precisão, e a heterogeneidade dos estudos foi estimada estatisticamente. Além disso, foram calculadas metanálises de razão de chances (OR) para o uso de antidepressivos segundo o sexo, considerando os homens como grupo de referência, e a variação entre os estudos foi explorada por meio de meta-regressões.
| Resultados |
Na revisão, foram incluídos 23 estudos publicados em 28 relatórios, totalizando 75.061 participantes. A prevalência geral do uso de antidepressivos foi de 4,0% (IC95% 2,7-5,6%; I² = 98,5%). Foi significativamente maior em mulheres (12,0%; IC95% 9,5-15,1%; I² = 0%) do que em homens (4,6%; IC95% 3,1-6,8%; I² = 0%) (p < 0,001; OR = 2,82; IC95% 1,72-4,62). As diferenças de gênero foram ainda mais acentuadas para o uso de antidepressivos no último ano (mulheres: 2,3%; IC95% 1,6-3,1; I² = 37,6% versus homens: 0,5%; IC95% 0,2-1,0%; I² = 0%; p < 0,001; OR = 4,18; IC95% 2,10-8,30). A variação entre os estudos na prevalência geral do uso de antidepressivos aumentou significativamente com a idade média dos participantes (p = 0,035; I² residual = 0%; coeficiente de regressão = 0,003).
| Conclusão |
Em conclusão, aproximadamente quatro em cada 100 brasileiros utilizaram antidepressivos ao longo de três décadas, com uma prevalência maior entre mulheres em comparação aos homens. Além disso, observou-se que o seu uso tende a aumentar com a idade. Fica evidente a necessidade de investimentos em serviços farmacêuticos para monitorar o uso racional de antidepressivos na população brasileira, especialmente entre indivíduos vulneráveis, como idosos. Por fim, estudos futuros podem contribuir para esclarecer quais subgrupos terapêuticos de antidepressivos são mais utilizados no Brasil e suas correlações com diagnósticos psiquiátricos.