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/ Published on December 16, 2024

Desfechos adversos

Impacto da sífilis pré-natal em gestantes com HIV

Estudo revela a relação entre a sífilis pré-natal e a gravidade dos resultados gestacionais, destacando a necessidade de adequação na triagem e no atendimento pré-natal

Author: Castilho et al.,

Fuente: The Lancet Regional Health – Americas, Volume 39, 100894 Prenatal syphilis and adverse pregnancy outcomes in women with HIV receiving ART in Brazil: a population-based study

A sífilis pré-natal está associada à sífilis congênita, assim como a outros desfechos adversos na gravidez, incluindo perda fetal, natimorto, morte neonatal, e bebês prematuros e de baixo peso ao nascer. Esses podem ser prevenidos com triagem e tratamento oportunos. Apesar das altas taxas gerais de atendimento, as taxas de sífilis adquirida, pré-natal e congênita aumentaram nos últimos anos, com variações entre as regiões do país.

Pouco se sabe sobre a epidemiologia e as consequências da sífilis pré-natal em mulheres com HIV. A infecção pela bactéria Treponema pallidum em gestantes com o vírus da imunodeficiência humana foi associada a idade mais avançada, raça não branca, uso de álcool e falta de atendimento pré-natal. Também foi correlacionada a um risco duas vezes maior de transmissão vertical do HIV. No entanto, faltam informações sobre os efeitos da sífilis pré-natal em outros desfechos adversos na gravidez e os resultados da infecção em mulheres com HIV que recebem terapia antirretroviral (TAR).

Por isso, Castilho e colaboradores (2024) realizaram um estudo com o objetivo de descrever as características demográficas e clínicas de mulheres com HIV e sífilis pré-natal, examinar a realização da triagem e estudar a associação entre a bactéria T. pallidum e os desfechos adversos na gravidez.

Para o estudo, os pesquisadores coletaram dados retrospectivos de uma coorte nacional de mulheres brasileiras com HIV em terapia antirretroviral que engravidaram entre janeiro de 2015 e maio de 2018. A sífilis pré-natal foi definida por diagnósticos clínicos com tratamento ou qualquer resultado positivo em testes laboratoriais entre 30 dias antes da concepção e a conclusão da gravidez. Modelos de regressão logística multivariada examinaram fatores associados ao risco de sífilis pré-natal e desfechos adversos na gravidez (incluindo natimorto, aborto, parto prematuro, pequeno para a idade gestacional e anomalias congênitas).

Entre 2.169 mulheres, 166 apresentaram sífilis pré-natal, das quais 151 tinham tratamento documentado. De modo geral, a prevalência da bactéria T. pallidum foi maior entre as mulheres mais jovens, as de raça negra/parda/indígena e com menos anos de educação formal. Também foi maior entre as diagnosticadas com HIV durante a gravidez em comparação com aquelas que foram antes. Ademais, foi alta nas que usaram tabaco, álcool e substâncias como cocaína antes ou durante a gravidez.

Das 2.169 mulheres inicialmente incluídas, a realização da triagem recomendada para sífilis, considerando o momento de entrada no atendimento pré-natal, pôde ser determinada em 1.374. No total, 73% das mulheres não receberam o número recomendado de testes de triagem para sífilis, com base no momento de entrada no atendimento pré-natal.

De todas as mulheres com adequação do atendimento pré-natal avaliada, 49% atenderam aos critérios de atendimento inadequado. A causa mais frequente foi o início tardio do pré-natal, com 42% mulheres o iniciando na 14ª semana ou depois. A triagem e diagnóstico de sífilis pré-natal e a adequação do atendimento pré-natal estavam disponíveis simultaneamente em 1.042 mulheres. A realização da triagem recomendada para sífilis pré-natal foi mais frequente entre mulheres com atendimento pré-natal inadequado. Da mesma forma, o diagnóstico de sífilis pré-natal foi mais frequente entre mulheres com atendimento pré-natal inadequado.

Houve 2.207 desfechos gestacionais entre as 2.169 mulheres, No total, houve 2.131 nascimentos vivos, 22 natimortos e 54 abortos. A frequência de nascimentos vivos, natimortos e abortos entre mulheres com ou sem sífilis pré-natal foi semelhante. Entre os nascimentos vivos, a idade gestacional e o peso ao nascer foram semelhantes. Entre os desfechos adversos de gravidez observados entre os nascimentos vivos, o parto prematuro, seguido por bebê pequeno para a idade gestacional e presença de qualquer anomalia congênita. As frequências desses desfechos adversos foram semelhantes entre aquelas com sífilis pré-natal.

Assim, a sífilis pré-natal não foi associada a uma maior chance de desfecho adverso na gravidez.

Em conclusão, o estudo de Castilho e colaboradores (2024) contribuiu significativamente para a compreensão da sífilis pré-natal em mulheres com HIV, mostrando que, apesar das altas taxas de diagnóstico e tratamento, essa infecção não foi associada a um aumento de desfechos adversos na gravidez, como esperado. No entanto, o estudo evidenciou a importância de uma triagem e atendimento pré-natal adequados para prevenir complicações, pois a sua inadequação continua sendo uma questão crítica.