A doença cardiometabólica é a principal causa de morbidade e mortalidade em todo o mundo. O sono é uma atividade vital para o funcionamento adequado do sistema cardiovascular e para a regulação metabólica, estando associado ao desenvolvimento de doenças cardiometabólicas.
A regularidade do sono (também conhecida como consistência, variabilidade ou diferença intraindividual no sono) reflete o grau de variação na situação diária do sono de uma pessoa. Para avaliá-la, a literatura existente propõe vários indicadores, que podem ser medidos por instrumentos (como actigrafia) ou por auto-relato. A heterogeneidade dessas métricas e métodos de medição dificulta a síntese dos achados relevantes, pois cada indicador reflete diferentes aspectos da regularidade do sono.
Existem inúmeros mecanismos potenciais que explicam a associação entre doenças cardiometabólicas e o sono. Por isso, Zhang e Qin (2023) realizaram uma revisão sobre esses possíveis mecanismos.
A disfunção circadiana é considerada o principal mecanismo pelo qual o sono irregular aumenta o risco cardiometabólico. O ritmo circadiano é um mecanismo endógeno fundamental que coordena os processos fisiológicos do corpo com o comportamento biológico, sincronizando-os com as mudanças ambientais diárias. A nível molecular, manifesta-se pela expressão periódica de genes-relógio em todo o corpo, completando um ciclo de aproximadamente 24 horas. Este ritmo é vital para a manutenção da função corporal normal, controlando e regulando parâmetros fisiológicos cardiovasculares, como a pressão arterial, a frequência cardíaca e a função endotelial, bem como parâmetros metabólicos, que flutuam regularmente ao longo do dia.
Os ritmos circadianos são influenciados e regulados por fatores externos, como as alternâncias entre luz e escuridão e os ciclos de alimentação e jejum. No entanto, alterações recorrentes na programação do sono-vigília, juntamente com a exposição irregular à luz e horários de refeições inconsistentes, levam a um desalinhamento entre o relógio circadiano interno do corpo e o ambiente externo.
Um exemplo claro dessa disfunção é observado em trabalhadores por turnos, que experimentam mudanças drásticas nos padrões de sono. Estudos com esses indivíduos demonstraram níveis mais elevados de modificações epigenéticas de metilação nos genes-relógio e um declínio no ritmo de melatonina e cortisol. Mesmo em pessoas que não trabalham por turnos, o estilo de vida frequentemente resulta em sono irregular. Embora a intensidade da irregularidade possa ser menor, a exposição prolongada a um estado de sono irregular pode levar a uma disfunção circadiana crônica.
A interrupção dos ritmos circadianos não só exacerba os distúrbios do sono-vigília, mas também está intrinsecamente ligada a uma série de outros processos fisiopatológicos que aumentam o risco de doenças cardiometabólicas. Estes incluem a disfunção autonômica, o aumento da inflamação e os distúrbios metabólicos. Todos esses fatores contribuem para um risco elevado de eventos cardiovasculares.
A disfunção autonômica é considerada outro mecanismo potencial pelo qual o sono irregular pode contribuir para um aumento no risco de doenças cardiometabólicas. O sistema nervoso autônomo desempenha um papel fundamental na coordenação de processos fisiológicos essenciais, incluindo a regulação da pressão arterial, a função endotelial, e o metabolismo da glicose e dos lipídios. Consequentemente, a ocorrência de disfunção autonômica está intrinsecamente associada à progressão da aterosclerose.
Uma ferramenta comum e não invasiva para avaliar a função autonômica é a variabilidade da frequência cardíaca (VFC). Estudos têm consistentemente demonstrado que uma VFC baixa está associada a uma maior incidência e prevalência de doença arterial coronariana, hipertensão, diabetes e obesidade. Ademais, um estudo com 421 adolescentes saudáveis, onde a duração do sono foi monitorada por actigrafia, observou-se que indivíduos com maior variabilidade na duração do sono exibiram uma VFC mais baixa, o que sugere uma pior função autonômica.
Adicionalmente, o fenômeno do social jetlag (SJL) – o desalinhamento entre o relógio biológico e os horários sociais – também foi associado a valores mais baixos de VFC durante o sono. Curiosamente, essa relação foi observada mesmo na ausência de diferenças significativas na expressão de marcadores circadianos entre grupos com alto e baixo SJL, sugerindo que o SJL elevado pode induzir alterações na função autonômica por mecanismos alternativos.
Em indivíduos com padrões de sono irregulares, a inflamação pode desempenhar um papel intermediário no aumento do risco de doenças cardiometabólicas. Diferentes estudos demonstraram que o sono irregular foi associado a um aumento significativo dos níveis de glóbulos brancos, proteína C-reativa, interleucina-1β, fator de necrose tumoral-α.
Além disso, a interrupção dos ritmos circadianos em si é associada a muitos processos fisiopatológicos, incluindo o aumento da inflamação, o que contribui para o risco de eventos cardiovasculares. A disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), resultando em um ritmo de cortisol comprometido, também pode enfraquecer o efeito anti-inflamatório do cortisol, promovendo uma super-reação inflamatória e o desenvolvimento de doenças cardiometabólicas. A disbiose intestinal, por sua vez, pode levar à infiltração de substâncias pró-inflamatórias na circulação, resultando em inflamação sistêmica e aumentando o risco de obesidade e resistência à insulina.
A disfunção do eixo HPA é considerada um dos mecanismos potenciais através dos quais o sono irregular pode aumentar o risco de doenças cardiometabólicas. Esse eixo é responsável pela regulação da secreção de cortisol. Em condições normais, esse hormônio apresenta um ritmo diário característico, com secreção que atinge o pico pela manhã e diminui gradualmente. No entanto, padrões de sono irregulares e prolongados podem atuar como um estressor contínuo para o corpo, comprometendo o ritmo normal de cortisol
A diminuição do hormônio cortisol durante a vigília não só dificulta a recuperação rápida do sono, mas também está associada a uma maior incidência de distúrbios de humor. Além disso, uma inclinação mais plana do cortisol tem sido relacionada a níveis mais elevados de calcificação da artéria coronária e a um aumento da mortalidade cardiovascular. Em pacientes submetidos à cirurgia de revascularização do miocárdio, as inclinações circadianas decrescentes de cortisol também foram associadas a maiores eventos cardíacos futuros e mortalidade. A interrupção do ritmo circadiano do cortisol também enfraqueceu o seu efeito anti-inflamatório, o que pode levar a uma super-reação inflamatória e, consequentemente, promover o surgimento e desenvolvimento de doenças cardiometabólicas.
Os maus hábitos alimentares são reconhecidos como um dos mecanismos pelos quais o sono irregular pode contribuir para o aumento do risco de doenças cardiometabólicas. Diversos estudos demonstraram que o sono irregular está associado a um aumento da ingestão calórica total. Por exemplo, uma pesquisa com adolescentes revelou que uma maior variabilidade na duração do sono (HSV) estava ligada a hábitos alimentares mais precários, com um aumento de 170 kcal na ingestão diária de energia para cada hora de aumento na HSV.
Além do aumento calórico, o sono irregular também foi associado a uma ingestão alimentar indesejável. Um estudo com estudantes universitários mostrou que um maior social jetlag (SJL) objetivo estava relacionado a um menor consumo de grãos e um maior consumo de açúcar e doces. Da mesma forma, adolescentes com um SJL mais acentuado apresentaram uma maior frequência de consumo de bebidas açucaradas.
É importante notar que o sono irregular pode também interferir com os ritmos alimentares normais. Essa perturbação contribui para a desregulação do ritmo circadiano, o que, por sua vez, desencadeia uma série de reações fisiopatológicas que promovem o surgimento de doenças cardiovasculares e metabólicas.
Por fim, o último fator que elucida a conexão entre a regularidade do sono e o risco cardiometabólico é a disbiose intestinal. A composição e função da microbiota intestinal exibem flutuações rítmicas ao longo do dia, as quais são compatíveis com os biorritmos das células epiteliais da mucosa intestinal e os ciclos de alimentação/jejum, promovendo assim a saúde metabólica. No entanto, alterações frequentes nos padrões de sono podem perturbar esses ritmos biológicos. Essas são frequentemente acompanhadas pela interrupção dos ritmos alimentares e uma preferência por dietas ricas em gordura, o que pode interferir na estrutura e no ritmo dinamicamente estável da microbiota intestinal, resultando em efeitos adversos para o corpo.
Estudos em ratos demonstraram que distúrbios do ritmo circadiano simulados por uma mudança de 8 horas a cada 3 dias podem levar a desequilíbrios na composição e nos ritmos da microbiota intestinal. Observou-se uma redução na família Christensenellaceae, que desempenha um papel na supressão do ganho de peso corporal após uma dieta rica em gordura. Além disso, em indivíduos com sono irregular, foram notados um aumento no número de Firmicutes e uma diminuição no número de Bacteroidetes, o que foi associado à obesidade.
Adicionalmente, a desregulação do ritmo circadiano e a fragmentação do sono podem causar a ruptura das junções estreitas nas células epiteliais intestinais, levando a um aumento da permeabilidade da barreira intestinal. Isso permite que substâncias pró-inflamatórias, como lipopolissacarídeos, se infiltrem na circulação, resultando em inflamação sistêmica. Essa inflamação, por sua vez, aumenta o risco de obesidade e resistência à insulina.
Em suma, o sono irregular pode aumentar o risco de várias doenças cardiometabólicas, e múltiplos mecanismos potenciais explicam essa associação. Com o aumento dessas doenças, dedicar atenção à saúde geral do sono pode ser um meio vital para conter a tendência epidêmica. Clínicos e pacientes devem estar mais atentos ao papel do sono regular na saúde cardiometabólica.