| Introdução |
A população da Europa está envelhecendo. A multimorbidade, isto é, a coexistência de duas ou mais condições crônicas de saúde no mesmo indivíduo, é comum nessa faixa etária e está associada à polifarmácia. A sua prevalência, definida como o uso de ≥5 medicamentos, variou entre 26% e 40% em idosos (≥65 anos) em um estudo realizado em 17 países europeus e Israel, mas a sua prevalência depende de fatores socioeconômicas, comorbidades e faixa etária.
A polifarmácia muitas vezes é benéfica e apropriada, pois muitas condições crônicas, como doenças cardiovasculares ou diabetes mellitus, requerem o uso de múltiplos medicamentos para melhor manejo. Porém, especialmente em pessoas idosas, isso tem sido associado a efeitos negativos, como eventos adversos, morbidades e mortalidade. A polifarmácia aumenta a probabilidade de uso de medicamentos potencialmente inapropriados (MPIs), bem como o seu subuso.
Como os dados são divergentes, Bennie e colaboradores (2024) desenvolveram um estudo para medir a prevalência da polifarmácia descrevendo o uso de medicamentos em idosos na atenção primária. Além disso, descreveram as características dos pacientes e o uso de opioides, antipsicóticos, benzodiazepínicos e inibidores da bomba de prótons (IBPs) entre eles.
| Métodos |
Um estudo de coorte retrospectivo multinacional foi conduzido com dados obtidos dos bancos de dados de registros médicos eletrônicos (EMR) da IQVIA em seis países europeus (Bélgica, França, Alemanha, Itália, Espanha e Reino Unido). Esse banco de dados compreende informações anônimas em nível de paciente, coletadas longitudinalmente em cada país por um painel de médicos generalistas (GPs) voluntários.
Os pacientes incluídos tinham pelo menos 65 anos de idade na data de início e precisavam estar registrados na sua prática médica por pelo menos 12 meses antes, com no mínimo duas consultas registradas. Todos os medicamentos prescritos foram registrados com base nas prescrições emitidas na data inicial e durante os 6 meses anteriores, enquanto as comorbidades foram capturadas na consulta inicial e durante os 12 meses anteriores, aplicando o Índice de Comorbidades de Charlson (CCI).
| Resultados |
A distribuição por idade e gênero foi semelhante entre os seis países (idade média de 75 anos; 54 a 56% de mulheres). A prevalência de polifarmácia com 5–9 medicamentos variou de 22,8% (Reino Unido) a 58,3% (Alemanha); para ≥10, variou de 11,3% (Reino Unido) a 28,5% (Alemanha).
Na população com polifarmácia e prescrição de ≥5 medicamentos, a prescrição de opioides variou de 11,5% (França) a 27,5% (Espanha). A de IBPs foi mais alta, com quase metade dos pacientes recebendo algum medicamento da classe, variando de 42,3% (Alemanha) a 65,5% (Espanha). A prescrição de benzodiazepínicos mostrou uma variação acentuada entre os países, de 2,7% (Reino Unido) a 34,9% (Espanha). A de opioides, que é uma crescente preocupação global, variou de 7,7% a 17,1% na população de estudo.
Dentre as comorbidades que fizeram maior polifarmácia, destacaram-se o diabetes sem complicações e a doença pulmonar crônica, com mais de 25% dos pacientes em uso de ≥10 medicamentos tendo um diagnóstico de alguma das duas enfermidades.
| Conclusão |
Em quatro dos seis países estudados, mais da metade dos idosos estavam com prescrição de cinco ou mais medicamentos em um período de 6 meses por seu clínico geral. As comorbidades mais comuns foram doença pulmonar crônica e diabetes. Os IBPs estavam entre os medicamentos mais frequentemente utilizados pelos pacientes. Embora a polifarmácia possa ser adequada em muitos dos pacientes, o uso preocupantemente elevado de medicamentos potencialmente inadequados reforça todos os esforços atuais para melhorar a gestão da polifarmácia em toda a Europa.