| Introdução |
A doença renal crônica (DRC) emergiu como uma das principais causas de morte e incapacidade no século XXI. Essa doença representa uma epidemia progressiva em diferentes regiões do mundo e um importante problema de saúde pública. Entre 1990 e 2017, a taxa padronizada de mortalidade, para todas as idades, aumentou em 2,8%.
Na América Latina, essa doença foi a décima segunda causa de morte em 1990 e a quarta em 2019. Isso resultou em uma carga excessiva devido a mortes prematuras e anos vividos com incapacidade. No entanto, é uma das regiões mais desiguais do mundo, tanto em termos sociais quanto de saúde. Diversas medições sobre desigualdades na região mostraram que as lacunas são amplas para quase todas as causas de doenças, mas são mais acentuadas nas consideradas de alto custo, como a DRC.
Pela DRC ser um importante marcador das desigualdades em saúde, Rosas-Valdez e colaboradores (2024) desenvolveram um estudo com objetivo de descrever a carga da doença na América Latina entre 1990 e 2019. Além disso, estimaram a correlação entre os anos de vida saudáveis perdidos (DALYs) com o índice sociodemográfico (ISD) e o índice de acesso e qualidade da saúde (IQS).
| Métodos |
Rosas-Valdez e colaboradores (2024) realizaram uma análise secundária e ecológica baseada no Estudo da Carga Global de Doenças, Lesões e Fatores de Risco (GBD) 2019. Esse estudo tem como principal objetivo quantificar a magnitude das perdas de saúde em níveis global, regional, nacional e local.
Foram reportadas as taxas padronizadas de mortalidade, anos perdidos por mortes prematuras (APMP), anos de vida ajustados por incapacidade (AVAI) e anos de vida saudáveis perdidos (DALYs) devido à doença renal crônica para os anos de 1990, 2005 e 2019. As informações foram desagregadas por países, sexo, faixas etárias e subcausas (diabetes tipo 1 [DT1], diabetes tipo 2 [DT2], hipertensão arterial sistêmica [HAS], glomerulonefrite [GNF] e outras causas [OTR]).
| Métodos |
Nos últimos 30 anos, a DRC foi ganhando posições como uma das principais causas de mortalidade e de DALYs em todos os países da América Latina. Em termos de mortalidade, destacam-se o Equador, onde a DRC subiu 11 posições entre 1990 e 2019, além do Chile, El Salvador e Venezuela, onde subiu 10 posições.
Para homens, a Nicarágua teve a maior taxa padronizada de mortalidade (TPM) de mortalidade nos três anos avaliados. No entanto, El Salvador apresentou o maior aumento nessa taxa durante todo o período, com um crescimento de 301,4%. Embora a TPM tenha aumentado progressivamente, no Brasil e na Colômbia houve uma redução.
Para mulheres, o panorama foi diferente. O México teve a maior TPM por DRC em 2005 e 2019, com 56,1 e 56,8 por 100 mil mulheres, respectivamente. Bolívia, Guatemala, Honduras e Nicarágua também tiveram uma TPM superior a 50 por 100 mil mulheres. Entre 1990 e 2005, a taxa diminuiu no Brasil e na Colômbia, e entre 2005 e 2019, essa redução foi observada em oito países (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Paraguai e Peru).
Quanto aos DALYs, a situação também foi preocupante. Exceto por cinco países (Argentina, Brasil, Colômbia, Nicarágua e Peru), o aumento de posições foi de 10 ou mais lugares, com o Equador subindo 21 posições. Em 2019, as maiores taxas padronizadas de mortalidade e de DALYs foram observadas em El Salvador, Guatemala, México e Nicarágua. Por outro lado, Brasil, Chile, Colômbia e Uruguai apresentaram as menores taxas nesses dois indicadores.
Quando analisadas as subcausas, o DT2 e a HAS foram associadas às taxas de mortalidade e DALYS mais elevados em todos os países, exceto no panamá. No entanto, há uma ampla heterogeneidade. O Brasil apresentou taxas de mortalidade alta para todas as subcausas, especialmente DT2, DT1 e HAS. Por outro lado, o Uruguai teve taxas mais baixas para DT1, DT2 e GNF.
Na distribuição pela faixa etária, as taxas de mortalidade e DALYs aumentaram progressivamente com a idade, sendo mais altas no grupo etário de 55 anos e mais em todos os países. No grupo abaixo de 20 anos, as taxas de DALYs foram superiores a 100 por 100 mil pessoas em Bolívia, Equador, El Salvador, Guatemala, México, Nicarágua, Panamá e Peru.
Quando comparada a taxa de APMP versus ADAI, em geral primeira foi superior tanto para a população total quanto para homens e mulheres. Em 2019, quase 91 de cada 100 pessoas com DRC morreram devido à doença na Bolívia, enquanto na Colômbia, 29 de cada 100 pessoas viveram com deficiência. Nicaragua teve a maior taxa de APMP durante os três anos analisados, quase dobrando a taxa entre 1990 e 2019. Outros países com grande aumento foram El Salvador, México, Honduras, Guatemala e Equador.
| Conclusão |
A DRC é uma epidemia invisível e silenciosa que representa uma carga excessiva nos anos de vida saudáveis perdidos para os países da América Latina, devido principalmente ao impacto das mortes prematuras. A magnitude da doença é heterogênea, não só entre os países, mas também dentro deles (por sexo, grupos etários e subcausas). É imprescindível unir esforços na região para enfrentar a DRC. É urgente frear e mitigar os fatores de risco que levam à enfermidade, mas também é imperativo garantir o acesso efetivo e à qualidade dos serviços de saúde para todos.