| Introdução |
Os nevos melanocíticos são fatores de risco bem estabelecidos e podem simular o melanoma. Com a introdução da dermatoscopia na prática clínica, houve um aumento significativo na descrição das características dermatoscópicas dos nevos durante a infância e a adolescência, contribuindo para a construção de um conhecimento mais aprofundado sobre o tema. A familiaridade com padrões dermatoscópicos auxilia no manejo clínico adequado dessas lesões, permitindo um diagnóstico precoce do melanoma e evitando biópsias desnecessárias para descartar malignidade.
Nesse contexto, Keskinkaya e colaboradores (2024) investigaram as características clínicas e dermatoscópicas dos nevos melanocíticos adquiridos em crianças e adolescentes, com o objetivo de avaliar a influência de fatores demográficos, constitucionais e ambientais na formação dessas lesões.
| Métodos |
Foi realizado um estudo transversal, com participantes menores de 18 anos que foram examinados para avaliação de nevos melanocíticos adquiridos entre janeiro e junho de 2023. Os pacientes foram divididos em dois grupos etários: crianças (≤ 10 anos) e adolescentes (>10 anos). Os nevos foram analisados quanto ao número, tamanho (diâmetro) e localização anatômica. Além disso, os padrões dermatoscópicos foram classificados em quatro categorias principais: globular, reticular, homogêneo e complexo.

Imagem 1. Nevos melanocíticos dos participantes exibindo quatro padrões dermatoscópicos principais: (A) Globular, (B) Reticular, (C) Homogêneo e (D) Complexo. Imagem retirada de Keskinkaya, Z. et al., (2024).
| Resultados |
Foram incluídos 100 participantes (50 mulheres e 50 homens), totalizando 574 nevos melanocíticos avaliados. A mediana de idade, bem como a distribuição de gênero e fototipo, foi semelhante entre os indivíduos que utilizavam protetor solar e aqueles que não o utilizavam regularmente. Observou-se um número significativamente maior de nevos melanocíticos em adolescentes em comparação com crianças (6 vs. 4; p<0,05). No entanto, não houve diferença estatisticamente significativa na quantidade entre os gêneros (feminino: 4,5 vs. masculino: 4; p=0,424), fototipos (tipo I–II: 5 vs. tipo III–IV: 4; p=0,155) ou em relação ao uso de protetor solar (usuários: 4 vs. não usuários: 5; p=0,345).
As extremidades superiores foram a região anatômica mais acometida, com nevos identificados em 68 participantes, seguidas pelo tronco (n=67) e pela face (n=50). A prevalência nas extremidades superiores foi significativamente maior no gênero feminino em comparação ao masculino [80% (40/50) vs. 56% (28/50); p<0,05], enquanto o tronco foi mais acometido em homens, embora sem significância estatística.
Em relação aos padrões dermatoscópicos, o globular foi o mais predominante (n=57). No entanto, embora ambas as faixas etárias tenham apresentado esse padrão com maior frequência, os adolescentes demonstraram uma taxa significativamente menor de nevos globulares em comparação com as crianças, com um aumento expressivo da frequência do padrão reticular nessa faixa etária.

Imagem 2. Comparação das taxas de padrões dermatoscópicos predominantes em crianças e adolescentes (teste de qui‐quadrado). Imagem adaptada de Keskinkaya, Z. et al. (2024).
| Conclusão |
Sabe-se que a nevogênese é um processo multifatorial que envolve a interação entre fatores genéticos e ambientais. Neste estudo, Keskinkaya e colaboradores (2024) identificaram a idade e a localização anatômica como os fatores mais influentes na distribuição e nos padrões dermatoscópicos dos nevos melanocíticos. A predominância do padrão globular na infância e o aumento progressivo do padrão reticular na adolescência reforçam o conceito da nevogênese em dois estágios.
Além disso, a variação dos padrões dermatoscópicos conforme a região anatômica sugeriu vias distintas de desenvolvimento dos nevos. Por fim, a distribuição dos nevos entre os gêneros, aliada à ausência de influência significativa do uso de protetor solar no número ou no padrão dermatoscópico das lesões, sugeriu uma forte predisposição genética no desenvolvimento dessas alterações cutâneas.