A irregularidade menstrual durante a adolescência é uma ocorrência comum, podendo apresentar uma falta de padrão entre os ciclos menstruais nos dois primeiros anos da menarca (nome dado à primeira menstruação da mulher). Uma pesquisa desenvolvida por Lea Suzuki, pós-doutoranda do departamento de ginecologia da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), identificou uma relação entre a amenorreia – ausência de menstruação – e a síndrome do ovário policístico (SOP), uma alteração crônica que afeta a saúde de forma sistêmica. Por ser baseado apenas em sinais e sintomas de pacientes, a síndrome é um diagnóstico clínico que pode se confundir com outras altrerações nos hormônios reprodutivos.
A amenorreia é a ausência de menstruação por, no mínimo, 3 meses. Apesar de soar como um alarme para muitas mulheres, no início da adolescência a irregularidade menstrual é algo comum. “A gente fez essa pesquisa para identificar o padrão menstrual dessas mulheres. A gente viu é que a própria adolescência traz esse padrão irregular. Mas o que mais comprometia era a amenorreia, nessa diferenciação da SOP para a imaturidade do eixo hipotálamo-hipófise-ovariano (HHO) da adolescente”, explica Suzuki sobre o eixo que regula o aparelho reprodutor feminino em suas inúmeras funções.
Para analisar essas diferenças no padrão menstrual em adolescentes, o trabalho realizou uma análise de nove estudos, com mais de 1.700 pacientes participantes entre 10 e 19 anos. O estudo dividiu a amostra em dois grupos: adolescentes diagnosticadas com SOP e adolescentes com imaturidade do eixo HHO, depois os comparou.
O artigo que relata a pesquisa informa que as variações nesse eixo HHO durante a puberdade levam a alterações nos hormônios reprodutivos e nos padrões menstruais que “imitam” algumas das características da síndrome dos ovários policísticos (SOP), dificultando seu diagnóstico em adolescentes. O trabalho concluiu ainda que o Índice de Massa Corporal de pacientes com SOP foi quase um terço maior do que o de adolescentes com imaturidade do eixo HHO – outro fator de diferenciação.
Cérebro e útero
A menstruação resulta de uma interação complexa entre cérebro e útero, envolvendo o hipotálamo, a hipófise, o ovário e o endométrio. Neste sistema, o hipotálamo produz hormônios que estimulam a hipófise a produzir outros hormônios: o folículo-estimulante (FSH) e o hormônio luteinizante (LH), que atuam no desenvolvimento, crescimento e liberação de óvulos. Eles agem juntamente com hormônios produzidos nos ovários – o estrogênio e a progesterona – que, ao serem produzidos, estimulam ou inibem o hipotálamo, e assim o ciclo recomeça.
A imaturidade do eixo HHO acontece porque, no início, essa “conversa” não é tão harmônica. A desregulação resulta em uma menstruação irregular, podendo durar entre um e três anos, mas que tende a se estabilizar.
A SOP, por sua vez, é uma afecção crônica em que o eixo HHO não consegue chegar ao equilíbrio, produzindo sempre mais LH – responsável pela liberação do óvulo – que FSH – que estimula o crescimento e desenvolvimento do óvulo. Por isso, não há ovulação nem menstruação.
“A amenorreia seria pelo menos um parâmetro, apesar de não ser perfeito, que há algo, para os pesquisadores e médicos, em que eles podem se apoiar”, completa José Maria Soares Júnior, chefe do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da FMUSP e orientador da pesquisa.
Diagnóstico difícil
A síndrome dos ovários policísticos é a doença que afeta o sistema endócrino mais frequente entre mulheres em idade reprodutiva, atingindo de 6 a 19% desta população, segundo o Ministério da Saúde. No entanto, de acordo com o professor da USP, alguns trabalhos indicam que entre 50 até 70% das adolescentes têm imaturidade do eixo HHO.
“Existe um grande dilema quando há menstruação irregular. É uma preocupação dela [da adolescente] e dos pais”, afirma Soares Júnior. “Eles nos procuram inclusive para tirar essa dúvida, porque vão na internet e, em termos de menstruação irregular, a primeira coisa que chega é a síndrome dos ovários policísticos”, explica.
“Nos três primeiros anos, é melhor falar que existe o risco para ovário policístico, do que dar um diagnóstico errôneo. O mais surpreendente é que existem poucos parâmetros em termos de padrão menstrual para realmente fechar o diagnóstico de SOP”, destaca.
Ainda não se sabe a origem da SOP, mas algumas teorias apontam para uma interação com a insulina, hormônio responsável pela regulação do açúcar no sangue. A SOP afeta a saúde reprodutiva e psicológica de mulheres. Além de causar alterações hepáticas e do sono, os principais sinais da síndrome são o ganho de peso, predisposição à diabetes e aumento excessivo de pelos no rosto e corpo.
Padrão menstrual da mulher paulista
O trabalho é uma revisão sistemática, tipo de pesquisa em que se investiga estudos relevantes para reunir e analisar informações sobre uma questão. Daqui para frente, o objetivo dos pesquisadores é analisar o padrão menstrual das mulheres na prática. Suzuki e Soares Júnior pretendem fazer essa avaliação por meio de dados colhidos em um questionário desenvolvido em parceria com a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, a Febrasgo.
As mulheres paulistas serão o foco dessa nova fase da pesquisa. “[O artigo foi] baseado em estudos de outras populações. Então, o próximo passo é fazer algo nosso, da população de São Paulo, e entender a nossa população, como ela está se comportando. Fazer, na prática, o que a gente viu na teoria através dos estudos”, finaliza Suzuki.
O artigo Menstrual pattern in polycystic ovary syndrome and hypothalamic-pituitary-ovarian axis immaturity in adolescents: a systematic review and meta-analysis pode ser lido aqui.
Publicado el 11 de octubre de 2024
Pesquisa
Padrão menstrual permite diferenciar síndrome do ovário policístico de outras condições em adolescentes
Pesquisa analisou padrão menstrual de adolescentes, identificando a amenorreia como um marcador para síndrome do ovário policístico
Autor/a: Mello, G.
Fuente: Jornal da USP Padrão menstrual permite diferenciar síndrome do ovário policístico de outras condições em adolescentes
A irregularidade menstrual durante a adolescência é uma ocorrência comum, podendo apresentar uma falta de padrão entre os ciclos menstruais nos dois primeiros anos da menarca (nome dado à primeira menstruação da mulher). Uma pesquisa desenvolvida por Lea Suzuki, pós-doutoranda do departamento de ginecologia da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), identificou uma relação entre a amenorreia – ausência de menstruação – e a síndrome do ovário policístico (SOP), uma alteração crônica que afeta a saúde de forma sistêmica. Por ser baseado apenas em sinais e sintomas de pacientes, a síndrome é um diagnóstico clínico que pode se confundir com outras altrerações nos hormônios reprodutivos.
A amenorreia é a ausência de menstruação por, no mínimo, 3 meses. Apesar de soar como um alarme para muitas mulheres, no início da adolescência a irregularidade menstrual é algo comum. “A gente fez essa pesquisa para identificar o padrão menstrual dessas mulheres. A gente viu é que a própria adolescência traz esse padrão irregular. Mas o que mais comprometia era a amenorreia, nessa diferenciação da SOP para a imaturidade do eixo hipotálamo-hipófise-ovariano (HHO) da adolescente”, explica Suzuki sobre o eixo que regula o aparelho reprodutor feminino em suas inúmeras funções.
Para analisar essas diferenças no padrão menstrual em adolescentes, o trabalho realizou uma análise de nove estudos, com mais de 1.700 pacientes participantes entre 10 e 19 anos. O estudo dividiu a amostra em dois grupos: adolescentes diagnosticadas com SOP e adolescentes com imaturidade do eixo HHO, depois os comparou.
O artigo que relata a pesquisa informa que as variações nesse eixo HHO durante a puberdade levam a alterações nos hormônios reprodutivos e nos padrões menstruais que “imitam” algumas das características da síndrome dos ovários policísticos (SOP), dificultando seu diagnóstico em adolescentes. O trabalho concluiu ainda que o Índice de Massa Corporal de pacientes com SOP foi quase um terço maior do que o de adolescentes com imaturidade do eixo HHO – outro fator de diferenciação.
Cérebro e útero
A menstruação resulta de uma interação complexa entre cérebro e útero, envolvendo o hipotálamo, a hipófise, o ovário e o endométrio. Neste sistema, o hipotálamo produz hormônios que estimulam a hipófise a produzir outros hormônios: o folículo-estimulante (FSH) e o hormônio luteinizante (LH), que atuam no desenvolvimento, crescimento e liberação de óvulos. Eles agem juntamente com hormônios produzidos nos ovários – o estrogênio e a progesterona – que, ao serem produzidos, estimulam ou inibem o hipotálamo, e assim o ciclo recomeça.
A imaturidade do eixo HHO acontece porque, no início, essa “conversa” não é tão harmônica. A desregulação resulta em uma menstruação irregular, podendo durar entre um e três anos, mas que tende a se estabilizar.
A SOP, por sua vez, é uma afecção crônica em que o eixo HHO não consegue chegar ao equilíbrio, produzindo sempre mais LH – responsável pela liberação do óvulo – que FSH – que estimula o crescimento e desenvolvimento do óvulo. Por isso, não há ovulação nem menstruação.
“A amenorreia seria pelo menos um parâmetro, apesar de não ser perfeito, que há algo, para os pesquisadores e médicos, em que eles podem se apoiar”, completa José Maria Soares Júnior, chefe do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da FMUSP e orientador da pesquisa.
Diagnóstico difícil
A síndrome dos ovários policísticos é a doença que afeta o sistema endócrino mais frequente entre mulheres em idade reprodutiva, atingindo de 6 a 19% desta população, segundo o Ministério da Saúde. No entanto, de acordo com o professor da USP, alguns trabalhos indicam que entre 50 até 70% das adolescentes têm imaturidade do eixo HHO.
“Existe um grande dilema quando há menstruação irregular. É uma preocupação dela [da adolescente] e dos pais”, afirma Soares Júnior. “Eles nos procuram inclusive para tirar essa dúvida, porque vão na internet e, em termos de menstruação irregular, a primeira coisa que chega é a síndrome dos ovários policísticos”, explica.
“Nos três primeiros anos, é melhor falar que existe o risco para ovário policístico, do que dar um diagnóstico errôneo. O mais surpreendente é que existem poucos parâmetros em termos de padrão menstrual para realmente fechar o diagnóstico de SOP”, destaca.
Ainda não se sabe a origem da SOP, mas algumas teorias apontam para uma interação com a insulina, hormônio responsável pela regulação do açúcar no sangue. A SOP afeta a saúde reprodutiva e psicológica de mulheres. Além de causar alterações hepáticas e do sono, os principais sinais da síndrome são o ganho de peso, predisposição à diabetes e aumento excessivo de pelos no rosto e corpo.
Padrão menstrual da mulher paulista
O trabalho é uma revisão sistemática, tipo de pesquisa em que se investiga estudos relevantes para reunir e analisar informações sobre uma questão. Daqui para frente, o objetivo dos pesquisadores é analisar o padrão menstrual das mulheres na prática. Suzuki e Soares Júnior pretendem fazer essa avaliação por meio de dados colhidos em um questionário desenvolvido em parceria com a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, a Febrasgo.
As mulheres paulistas serão o foco dessa nova fase da pesquisa. “[O artigo foi] baseado em estudos de outras populações. Então, o próximo passo é fazer algo nosso, da população de São Paulo, e entender a nossa população, como ela está se comportando. Fazer, na prática, o que a gente viu na teoria através dos estudos”, finaliza Suzuki.
O artigo Menstrual pattern in polycystic ovary syndrome and hypothalamic-pituitary-ovarian axis immaturity in adolescents: a systematic review and meta-analysis pode ser lido aqui.