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Publicado el 19 de mayo de 2026

Envelhecimento

Osteossarcopenia e a interação osso–músculo

Uma revisão abrangente sobre os mecanismos moleculares, diagnóstico e estratégias atuais de manejo.

Autor/a: Pu, Y. et al.

Fuente: Front. Physiol. 16:1723522.

Introdução

Os sistemas esqueléticos e musculares são altamente interconectados. Evidências emergentes demonstraram uma relação bidirecional entre osteoporose e sarcopenia, na qual a perda da massa óssea pode contribuir ao declínio muscular e vice-versa.

Nesse contexto, emergiu o conceito de osteossarcopenia, uma síndrome geriátrica caracterizada pela coexistência de baixa densidade mineral óssea e redução da massa e/ou da função muscular, associada a maior risco de quedas, fraturas, incapacidade funcional e mortalidade. Com o objetivo de manter os profissionais de saúde atualizados, Pu e colaboradores (2026) realizaram uma revisão abordando os principais mecanismos fisiopatológicos envolvidos nessa interação.

Mecanismos moleculares de interação

Tanto o desenvolvimento quanto a progressão da osteossarcopenia decorre da desregulação de redes moleculares em múltiplos níveis, envolvendo sinalização e comunicação intercelular e sistemas integrados de regulação neuroendócrino-metabólica.

Entre os mecanismos intracelulares, a via de sinalização Wnt/β-catenina se configura como um dos principais reguladores da homeostase óssea e muscular, promovendo osteogênese, equilíbrio da remodelação óssea e regeneração muscular em condições fisiológicas. No envelhecimento, alterações nessa via contribuem para a perda óssea e a disfunção muscular, enquanto sua ativação descontrolada pode gerar efeitos maladaptativos. A esclerostina (SOST) atua como um importante regulador negativo da via, com impacto tanto no metabolismo ósseo quanto muscular.

A comunicação intercelular entre os tecidos ósseo e muscular ocorre por meio de mediadores proteicos, microRNAs e fatores inflamatórios. Mioquinas e osteocinas exercem regulação bidirecional, influenciando o metabolismo de ambos os tecidos, com destaque para a miostatina, que atua como um regulador negativo central ao inibir a formação muscular e favorecer a reabsorção óssea.
Os microRNAs também desempenham papel relevante nessa interação, modulando vias osteogênicas e miogênicas e integrando-se a eixos centrais como Wnt/β-catenina e miostatina, embora limitações metodológicas ainda restrinjam sua aplicação clínica como biomarcadores.

A inflamação crônica de baixo grau contribui significativamente para a desregulação da unidade osso–músculo, ao ativar vias associadas à reabsorção óssea e à atrofia muscular. Por fim, a regulação sistêmica, mediada pelos sistemas nervoso, endócrino e metabólico, integra esses processos locais. O eixo hipotálamo–simpático influencia o metabolismo ósseo e muscular, enquanto o eixo intestino–osso–músculo destaca o papel da microbiota intestinal na modulação da homeostase metabólica e da manutenção da massa óssea e muscular.

Diagnóstico clínico e tratamento

O diagnóstico clínico baseia-se na integração dos critérios de sarcopenia e osteoporose. O modelo proposto por Duque e colaboradores (2020b) combina o consenso do European Working Group on Sarcopenia in Older People (EWGSOP2) com os critérios da Organização Mundial da Saúde, utilizando a densitometria por dupla energia de raios X (DXA).

Essa técnica avalia de forma integrada a função muscular, a massa magra apendicular e a densidade mineral óssea, permitindo a confirmação simultânea de ambas as condições com baixo custo e mínima exposição à radiação. Contudo, apresenta limitações, como a incapacidade de avaliar a qualidade muscular e a influência do estado de hidratação.

As estratégias terapêuticas incluem intervenções não farmacológicas e farmacológicas. Entre as primeiras, o treinamento resistido progressivo apresenta evidências consistentes de melhora da massa e da força muscular, da função física e da microarquitetura óssea. O suporte nutricional adequado também é fundamental, com destaque para a ingestão de proteínas de alta qualidade e a suplementação de cálcio e vitamina D.

Até o momento, não existem medicamentos aprovados especificamente para o tratamento da osteossarcopenia. Assim, o manejo farmacológico concentra-se principalmente no tratamento da osteoporose, por meio de agentes anti-reabsortivos e terapias osteoanabólicas eficazes na melhora da densidade mineral óssea e na redução do risco de fraturas. No contexto da sarcopenia, apesar da ausência de terapias farmacológicas aprovadas, abordagens hormonais têm mostrado benefícios em populações específicas, exigindo criteriosa seleção clínica.

Caminhos de pesquisa translacional

 Entre as abordagens voltadas ao reparo ósseo, destaca-se o uso de nanocarreadores para entrega direcionada de fármacos, com potencial para promover regeneração óssea de forma mais precisa. No entanto, essas estratégias ainda se restringem, em sua maioria, a modelos in vitro e animais. Além disso, o risco de ativação descontrolada de vias como a Wnt em tecidos envelhecidos ressalta a necessidade de sistemas de liberação com controle temporal rigoroso.

As estratégias anti-miostatina representam uma das frentes mais avançadas, com o bimagrumabe demonstrando aumento da massa magra em populações específicas, apesar das incertezas quanto à segurança a longo prazo e à consistência dos ganhos funcionais. Produtos naturais e terapias baseadas em ácidos nucleicos surgem como alternativas promissoras, mas ainda carecem de evidências clínicas robustas.

Intervenções metabólicas e microbianas buscam modular indiretamente a homeostase osso–músculo por meio da melhora do ambiente metabólico sistêmico. Embora compostos como o resveratrol e estratégias focadas no eixo intestino–osso–músculo tenham mostrado benefícios em modelos experimentais, sua aplicação clínica permanece limitada.

Conclusão

A osteossarcopenia caracteriza-se pela degeneração simultânea do osso e do músculo esquelético, decorrente de complexas interações moleculares na unidade osso–músculo. Sua fisiopatologia envolve mecanismos integrados de regulação intracelular, comunicação local e controle neuroendócrino-metabólico. Apesar dos avanços no conhecimento desses processos, permanecem desafios clínicos relevantes, como a ausência de critérios diagnósticos padronizados e de terapias capazes de atuar simultaneamente sobre ambos os tecidos, reforçando a necessidade de abordagens integradas e translacionais para estratégias mais precisas e individualizadas.


Fonte: Frontiers | Osteosarcopenia: key molecular mechanisms and translational perspectives