| Introdução |
Os sistemas esqueléticos e musculares são altamente interconectados. Evidências emergentes demonstraram uma relação bidirecional entre osteoporose e sarcopenia, na qual a perda da massa óssea pode contribuir ao declínio muscular e vice-versa.
Nesse contexto, emergiu o conceito de osteossarcopenia, uma síndrome geriátrica caracterizada pela coexistência de baixa densidade mineral óssea e redução da massa e/ou da função muscular, associada a maior risco de quedas, fraturas, incapacidade funcional e mortalidade. Com o objetivo de manter os profissionais de saúde atualizados, Pu e colaboradores (2026) realizaram uma revisão abordando os principais mecanismos fisiopatológicos envolvidos nessa interação.
| Mecanismos moleculares de interação |
Tanto o desenvolvimento quanto a progressão da osteossarcopenia decorre da desregulação de redes moleculares em múltiplos níveis, envolvendo sinalização e comunicação intercelular e sistemas integrados de regulação neuroendócrino-metabólica.
Entre os mecanismos intracelulares, a via de sinalização Wnt/β-catenina se configura como um dos principais reguladores da homeostase óssea e muscular, promovendo osteogênese, equilíbrio da remodelação óssea e regeneração muscular em condições fisiológicas. No envelhecimento, alterações nessa via contribuem para a perda óssea e a disfunção muscular, enquanto sua ativação descontrolada pode gerar efeitos maladaptativos. A esclerostina (SOST) atua como um importante regulador negativo da via, com impacto tanto no metabolismo ósseo quanto muscular.
A comunicação intercelular entre os tecidos ósseo e muscular ocorre por meio de mediadores proteicos, microRNAs e fatores inflamatórios. Mioquinas e osteocinas exercem regulação bidirecional, influenciando o metabolismo de ambos os tecidos, com destaque para a miostatina, que atua como um regulador negativo central ao inibir a formação muscular e favorecer a reabsorção óssea.
Os microRNAs também desempenham papel relevante nessa interação, modulando vias osteogênicas e miogênicas e integrando-se a eixos centrais como Wnt/β-catenina e miostatina, embora limitações metodológicas ainda restrinjam sua aplicação clínica como biomarcadores.
A inflamação crônica de baixo grau contribui significativamente para a desregulação da unidade osso–músculo, ao ativar vias associadas à reabsorção óssea e à atrofia muscular. Por fim, a regulação sistêmica, mediada pelos sistemas nervoso, endócrino e metabólico, integra esses processos locais. O eixo hipotálamo–simpático influencia o metabolismo ósseo e muscular, enquanto o eixo intestino–osso–músculo destaca o papel da microbiota intestinal na modulação da homeostase metabólica e da manutenção da massa óssea e muscular.
| Diagnóstico clínico e tratamento |
O diagnóstico clínico baseia-se na integração dos critérios de sarcopenia e osteoporose. O modelo proposto por Duque e colaboradores (2020b) combina o consenso do European Working Group on Sarcopenia in Older People (EWGSOP2) com os critérios da Organização Mundial da Saúde, utilizando a densitometria por dupla energia de raios X (DXA).
Essa técnica avalia de forma integrada a função muscular, a massa magra apendicular e a densidade mineral óssea, permitindo a confirmação simultânea de ambas as condições com baixo custo e mínima exposição à radiação. Contudo, apresenta limitações, como a incapacidade de avaliar a qualidade muscular e a influência do estado de hidratação.
As estratégias terapêuticas incluem intervenções não farmacológicas e farmacológicas. Entre as primeiras, o treinamento resistido progressivo apresenta evidências consistentes de melhora da massa e da força muscular, da função física e da microarquitetura óssea. O suporte nutricional adequado também é fundamental, com destaque para a ingestão de proteínas de alta qualidade e a suplementação de cálcio e vitamina D.
Até o momento, não existem medicamentos aprovados especificamente para o tratamento da osteossarcopenia. Assim, o manejo farmacológico concentra-se principalmente no tratamento da osteoporose, por meio de agentes anti-reabsortivos e terapias osteoanabólicas eficazes na melhora da densidade mineral óssea e na redução do risco de fraturas. No contexto da sarcopenia, apesar da ausência de terapias farmacológicas aprovadas, abordagens hormonais têm mostrado benefícios em populações específicas, exigindo criteriosa seleção clínica.
| Caminhos de pesquisa translacional |
Entre as abordagens voltadas ao reparo ósseo, destaca-se o uso de nanocarreadores para entrega direcionada de fármacos, com potencial para promover regeneração óssea de forma mais precisa. No entanto, essas estratégias ainda se restringem, em sua maioria, a modelos in vitro e animais. Além disso, o risco de ativação descontrolada de vias como a Wnt em tecidos envelhecidos ressalta a necessidade de sistemas de liberação com controle temporal rigoroso.
As estratégias anti-miostatina representam uma das frentes mais avançadas, com o bimagrumabe demonstrando aumento da massa magra em populações específicas, apesar das incertezas quanto à segurança a longo prazo e à consistência dos ganhos funcionais. Produtos naturais e terapias baseadas em ácidos nucleicos surgem como alternativas promissoras, mas ainda carecem de evidências clínicas robustas.
Intervenções metabólicas e microbianas buscam modular indiretamente a homeostase osso–músculo por meio da melhora do ambiente metabólico sistêmico. Embora compostos como o resveratrol e estratégias focadas no eixo intestino–osso–músculo tenham mostrado benefícios em modelos experimentais, sua aplicação clínica permanece limitada.
| Conclusão |
A osteossarcopenia caracteriza-se pela degeneração simultânea do osso e do músculo esquelético, decorrente de complexas interações moleculares na unidade osso–músculo. Sua fisiopatologia envolve mecanismos integrados de regulação intracelular, comunicação local e controle neuroendócrino-metabólico. Apesar dos avanços no conhecimento desses processos, permanecem desafios clínicos relevantes, como a ausência de critérios diagnósticos padronizados e de terapias capazes de atuar simultaneamente sobre ambos os tecidos, reforçando a necessidade de abordagens integradas e translacionais para estratégias mais precisas e individualizadas.
Fonte: Frontiers | Osteosarcopenia: key molecular mechanisms and translational perspectives