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Publicado el 18 de mayo de 2026

Multimorbidade cardiometabólica

Efeito protetor da cafeína na multimorbidade cardiometabólica

Estudo prospectivo com dados do UK Biobank revelou que o consumo moderado de café e cafeína reduziu significativamente o risco de multimorbidade cardiometabólica, influenciando positivamente biomarcadores inflamatórios e o perfil lipídico em quase todas as fases de progressão da doença.

Autor/a: Xujia Lu, et al.

Fuente: The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, V. 110, N. 6, pg. e1845-e1855, 2025. Habitual Coffee, Tea, and Caffeine Consumption, Circulating Metabolites, and the Risk of Cardiometabolic Multimorbidity

As doenças cardiometabólicas, que compreendem principalmente o diabetes tipo 2 (DM2), a doença coronária (DC) e o acidente vascular cerebral (AVC), impõem um fardo substancial aos indivíduos e aos sistemas de saúde em escala global. Com o envelhecimento da população, a multimorbidade cardiometabólica (MC), caracterizada pela coexistência de pelo menos duas dessas condições, tornou-se uma preocupação crescente de saúde pública.

Apesar de seu impacto clínico negativo, poucas pesquisas identificaram os fatores preditivos da progressão para a multimorbidade. Portanto, fazer esse reconhecimento é imperativo para estratégias de prevenção. Devido a sua popularidade e por serem as principais fontes de cafeína, o café e o chá surgem como candidatos relevantes para serem correlacionados com a MC. Embora estudos epidemiológicos tenham sugerido associações inversas entre o consumo dessas bebidas e o risco de doenças cardiometabólicas individuais, os seus efeitos no desenvolvimento da multimorbidade permanecem, em grande parte, desconhecidos.

Sendo assim, Lu e colaboradores (2025) realizaram um estudo com o objetivo de investigar a associação do consumo de café, chá e cafeína com a incidência de MC em indivíduos inicialmente saudáveis. Ademais, eles examinaram o papel dessas substâncias na trajetória longitudinal da doença e identificaram metabólitos plasmáticos que possam mediar essa relação.

Para isso, os pesquisadores se basearam em dados do UK Biobank, uma coorte prospectiva que recrutou mais de 500.000 participantes, com idades entre 37 e 73 anos, no período de 2006 a 2010. Foram excluídos aqueles com doenças cardiometabólicas preexistentes no início do estudo, dados incompletos sobre o consumo de café ou chá, ou ingestão calórica total considerada anormal. Após a exclusão, a amostra final compreendeu 172.315 e 188.091 participantes para a análise de cafeína e de café e chá, respectivamente. Para a investigação metabolômica, utilizou-se um subgrupo de aproximadamente 88 mil a 96 mil participantes com dados disponíveis.

A avaliação da exposição alimentar foi feita através do Oxford WebQ, um instrumento online validado que coletou informações sobre o consumo de bebidas e nutrientes nas 24 horas anteriores. O consumo habitual foi determinado pela média de até cinco recordatórios realizados em diferentes ocasiões. Para o cálculo da ingestão total de cafeína, os pesquisadores atribuíram valores padrão de 75 mg por xícara de café regular e 40 mg por xícara de chá (considerando chás preto e verde). Os desfechos clínicos, DM2, DC e AVC, foram monitorados por meio de registros médicos eletrônicos, dados hospitalares e registros de óbito, utilizando códigos da CID-10. A MC foi definida operacionalmente como a presença simultânea de duas ou mais dessas condições.

A análise de biomarcadores metabólicos utilizou amostras de plasma submetidas a uma plataforma de perfil de Ressonância Magnética Nuclear (RMN) de alto rendimento, quantificando diretamente 168 metabólitos, incluindo subclasses de lipoproteínas, ácidos graxos e aminoácidos.

Durante um período mediano de acompanhamento de 11,68 anos, foram registrados 1.311 e 1.385 casos de MC no grupo de análise de cafeína e de café e chá, respectivamente. As análises revelaram associações inversas não lineares significativas entre o consumo dessas bebidas e o risco de desenvolvimento de novas doenças cardiometabólicas coexistentes.

Em relação ao café, os participantes que consumiam uma quantidade moderada (3 xícaras por dia) apresentaram a maior redução de risco para MC em comparação com os não consumidores. De forma análoga, o consumo moderado de cafeína total, situando-se entre 200 e 300 mg/dia, foi associado a um risco 40,7% menor de desenvolver MC quando comparado a indivíduos com ingestão inferior a 100 mg/dia. Quanto ao chá, observou-se que o risco de MC diminuía significativamente com o consumo de até 3 xícaras por dia, apresentando uma redução mais lenta em níveis superiores de ingestão.

Além, disso, os pesquisadores demonstraram o consumo moderado de café ou cafeína atuou de forma protetora em praticamente todas as etapas da trajetória da MC. Isso incluiu desde a transição de um estado saudável para uma patologia isolada até a progressão subsequente dessas condições para a multimorbidade. Por exemplo, consumidores de 3 xícaras de café/dia tiveram um risco reduzido tanto da transição inicial para o DM2 quanto da progressão do DM2 para a MC.

No âmbito molecular, a análise metabolômica identificou entre 80 a 97 metabólitos plasmáticos que estavam associados simultaneamente ao consumo das bebidas e à incidência de MC. O aumento dessa ingestão correlacionou-se positivamente com diversas subclasses de lipoproteínas de alta densidade (HDL), com o aminoácido histidina e com a albumina. Em contrapartida, observou-se uma correlação negativa com subclasses de lipoproteínas de densidade muito baixa (VLDL) e com os acetis de glicoproteína (GlycA), um marcador de inflamação sistêmica. Esses achados sugeriram que os benefícios observados podem ser mediados pela melhora do perfil lipídico e pela atenuação de processos inflamatórios crônicos de baixo grau.

Por fim, análises de subgrupos demonstraram que essas associações protetoras foram consistentes independentemente da idade, sexo ou status de tabagismo dos participantes. Análises de sensibilidade também confirmaram que os resultados permaneceram estatisticamente significativos mesmo após a exclusão de participantes que desenvolveram a doença nos primeiros dois anos de estudo e após ajustes para o uso de medicamentos hipolipemiantes, reforçando a validade clínica das observações.

Em conclusão, o estudo evidenciou que o consumo habitual e moderado de café (aproximadamente 3 xícaras/dia) ou de cafeína (200-300 mg/dia) foi associado a uma redução significativa no risco de desenvolvimento de MC, exercendo um papel protetor em quase todas as fases de transição da doença. Essa relação foi corroborada por alterações em diversos metabólitos plasmáticos, destacando-se a melhora no perfil de subclasses de lipoproteínas (redução de VLDL e aumento de HDL), o incremento de aminoácidos como a histidina e a atenuação de marcadores inflamatórios sistêmicos, como o GlycA. Portanto, a recomendação do consumo moderado de café ou cafeína como um hábito dietético para indivíduos saudáveis pode representar uma estratégia preventiva eficaz e de grande alcance para mitigar o fardo clínico da MC.