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/ Published on September 25, 2025

Saúde cardiovascular

Os probióticos são úteis para a saúde cardiovascular?

Evidências científicas e aplicações clínicas do uso de probióticos na modulação da saúde cardiovascular.

Author: Pavlidou E, Fasoulas A, Mantzorou M, Giaginis C.

Fuente: Int J Mol Sci., V. 247, N. 23, 2022. doi: 10.3390/ijms232415898 Clinical Evidence on the Potential Beneficial Effects of Probiotics and Prebiotics in Cardiovascular Disease

Introdução

A microbiota intestinal é um complexo ecossistema que desempenha diversas funções vitais, incluindo a digestão de alimentos, a produção de nutrientes como as vitaminas B12 e K e aminoácidos, e o apoio à barreira intestinal, ao sistema imunológico e ao metabolismo. Embora algumas bactérias possam causar doenças, outras são essenciais para a saúde, protegendo o corpo contra patógenos e prevenindo o crescimento excessivo de bactérias nocivas.

Estudos têm demonstrado uma forte correlação entre a disbiose intestinal e diversas condições, como obesidade, resistência à insulina, depressão e fatores de risco cardiometabólicos. Em particular, há uma ligação clara entre a microbiota e o desenvolvimento de doenças cardiovasculares (DCVs). Certas bactérias intestinais podem converter colina e carnitina em N-trimetilamina óxido (TMAO), que pode aumentar os fatores de risco para doenças cardíacas. Níveis elevados de TMAO no sangue estão diretamente associados a desfechos adversos em pacientes com DCVs preexistentes, como doença arterial coronariana e insuficiência cardíaca, pois contribuem para a inflamação, estresse oxidativo e disfunção arterial.

Ademais, a microbiota mantém a integridade da barreira intestinal através de enterócitos revestidos por muco e junções estreitas impenetráveis. Essa barreira controla a absorção e o metabolismo, além de estimular o sistema imunológico, desempenhando um papel crucial na defesa contra patógenos. A comunicação bidirecional entre a microbiota intestinal e outros órgãos do corpo é mediada por sinais gerados pelas bactérias que viajam através do epitélio intestinal.

Dada a influência da microbiota intestinal na saúde, especialmente na cardiovascular, Pavlidou e colaboradores (2022) examinaram os benefícios potenciais de probióticos e prebióticos na saúde cardiovascular.

Redução de fatores de risco DCVs

Tanto os probióticos quanto os prebióticos podem atuar na diminuição dos riscos associados a DCVs. Uma meta-análise, realizada por Mo et al. (2019), concluiu que os probióticos foram eficazes na redução significativa do colesterol total e do LDL em indivíduos com hipercolesterolemia.

A inflamação sistêmica é uma característica comum das DCVs e de fatores de risco como a hipertensão, e o estresse oxidativo também contribuem para a progressão dessas doenças. Nesse contexto, cepas de bactérias como Lactobacillus e Bifidobacterium demonstraram a capacidade de inibir a peroxidação lipídica e a produção de Espécies Reativas de Oxigênio (ROS), o que sugere um potencial para retardar ou até prevenir o desenvolvimento de DCVs e outras condições relacionadas ao estresse oxidativo.

Estudos clínicos específicos reforçaram esses achados. Tenorio-Jimenez et al. (2018) observaram que a administração diária de Lactobacillus reuteri V3401 por 12 semanas em adultos obesos com síndrome metabólica resultou em níveis mais baixos de biomarcadores de inflamação, como TNF-α, IL-6, IL-8 e sICAM-1, além de uma redução no risco de DCV. Da mesma forma, Szulinska et al. (2018), descobriram que o tratamento com o probiótico multiespécie Ecologic® Barrier em mulheres obesas pós-menopausa caucasianas modificou favoravelmente marcadores funcionais e bioquímicos de disfunção vascular. Tanto doses baixas quanto altas deste suplemento, administradas por dozes semanas, reduziram a pressão arterial sistólica, o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), TNF-α e IL-6. Outros estudos clínicos também associaram o uso de probióticos a uma redução moderada ou substancial da pressão arterial em indivíduos saudáveis e obesos.

Doença cardiovascular

Globalmente, as DCVs representam uma ameaça significativa à saúde. A aterosclerose é a causa mais comum de doenças cardíacas. Outras incluem pressão alta, diabetes, estresse, danos cardíacos, bactérias, vírus, parasitas (para infecções cardíacas), tabagismo, álcool e dieta.

Evidências crescentes sugeriram que tanto os probióticos quanto os prebióticos podem melhorar distúrbios metabólicos, como obesidade, diabetes e, notavelmente, DCVs. Eles demonstraram proteger contra DCVs ao reduzir os níveis de colesterol, diminuir o estresse oxidativo, equilibrar as alterações funcionais e estruturais da microbiota intestinal e aumentar as respostas imunes.

Os efeitos protetores desses suplementos também podem ser atribuídos à modulação do sistema imunológico do hospedeiro, envolvendo células dendríticas, epiteliais, B, T reguladoras, T natural killer e linfócitos efetores. As DCVs estão associadas à inflamação de baixo grau, e os probióticos e prebióticos podem influenciar os níveis de fatores pró-inflamatórios.

Doença arterial coronariana

Estudos mostraram que a disbiose contribui para o desenvolvimento da DAC por meio de mecanismos como o aumento da permeabilidade intestinal e a endotoxemia metabólica. Esse processo pode ser explicado pelo lipopolissacarídeo (LPS) derivado da microbiota, que atravessa a mucosa intestinal e entra na corrente sanguínea, atuando como um modulador importante da inflamação crônica. As endotoxinas também podem causar o desenvolvimento de placas e a progressão de lesões ateroscleróticas, bem como a liberação de outras substâncias implicadas no processo pró-inflamatório pelas células endoteliais. Níveis sanguíneos elevados de N-trimetilamina óxido (TMAO) também foram diretamente ligados a resultados adversos em pacientes com condições cardiovasculares preexistentes, como a DAC.

Em termos de intervenções, os probióticos têm sido propostos como um tratamento viável para a DAC. Pesquisas clínicas demonstraram que a suplementação com Lactobacillus plantarum 299v (Lp299v) melhorou a função endotelial vascular e reduziu a inflamação sistêmica em homens com DAC. Além disso, o consumo de Lactobacillus rhamnosus GG foi associado a uma redução da endotoxemia metabólica e da mega-inflamação em pacientes com DAC. A co-suplementação de probióticos e inulina em pacientes com DAC por oito semanas também demonstrou efeitos favoráveis em biomarcadores de depressão, ansiedade e inflamação. Os probióticos também atuam na redução dos níveis de endotoxinas, mantendo a integridade da função da barreira intestinal e diminuindo a permeabilidade intestinal. No entanto, os resultados sobre o impacto dos probióticos nos níveis sistêmicos de endotoxinas e doenças metabólicas associadas foram contraditórios em alguns estudos.

Acidente vascular encefálico

O acidente vascular encefálico (AVE) é a segunda maior causa de morte, sendo responsável por quase 5,5 milhões de óbitos em 2016. A hipertensão arterial é um fator de risco primordial para o seu desenvolvimento.

O AVE pode causar danos nervosos que alteram a liberação de hormônios digestivos e neurotransmissores, levando à disfunção da mucosa intestinal e dificultando a digestão e absorção de nutrientes. Para garantir uma nutrição adequada, é frequentemente necessária a instalação de uma sonda nasogástrica para nutrição enteral (NE). Embora esse método seja preferido, pacientes com AVE grave podem desenvolver disfunção gastrointestinal considerável, como diarreia, constipação e infecções, nas primeiras semanas de terapia com NE. A nutrição parenteral (NP) pode levar a complicações com o cateter e danos à mucosa intestinal se administrada por um longo período.

A relação entre probióticos e AVE é complexa. Estudos indicaram um aumento na disbiose intestinal em pacientes idosos com AVE, e em pacientes isquêmico, foi observada um aumento de bactérias nocivas na flora intestinal. Pesquisas recentes sugeriram que um desequilíbrio na flora intestinal pode influenciar a incidência de AVE através de uma via de sinalização "de baixo para cima", o que pode estar ligado à inflamação intestinal e à resposta imunológica. Probióticos e seus metabólitos, como os ácidos graxos de cadeia curta, podem melhorar significativamente a síndrome de resposta inflamatória sistêmica em pacientes gravemente enfermos. A sua suplementação pode reduzir a incidência de complicações e limitar o crescimento de bactérias patogênicas no intestino. Se ocorrer imediatamente após o AVE, ela pode minimizar a permeabilidade intestinal, reduzir a produção de toxinas e gases patogênicos, diminuir a distensão abdominal, neutralizar alergias alimentares, aliviar a gravidade dos sintomas da síndrome do intestino irritável e aumentar a tolerância à NE.

Hipertensão

A hipertensão arterial é um fator de risco primordial para o desenvolvimento de várias condições graves, como infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral e insuficiência renal. A hipertensão primária, ou essencial, é uma doença complexa influenciada por múltiplos fatores como a genética, a demografia, doenças concomitantes e o ambiente. Cerca de 8% dos casos são de hipertensão secundária, com etiologia conhecida, incluindo distúrbios endócrinos, medicamentos, tumores malignos ou hiperativação do sistema renina-angiotensina.

Há evidências crescentes de que a microbiota intestinal exerce um papel significativo na regulação da pressão arterial, controlando sistemas nervosos central e autonômico e protegendo a função endotelial. Por exemplo, diversos estudos demonstraram que os probióticos podem reduzir os níveis de pressão arterial. Por exemplo, um extrato de Lactobacillus casei diminuiu a pressão arterial sistólica/diastólica e a frequência cardíaca em pacientes com hipertensão espontânea. O uso de Lactobacillus plantarum também foi associado à redução da pressão arterial sistólica. Além disso, o leite de soja contendo Lactobacillus plantarum reduziu significativamente a pressão arterial sistólica/diastólica em pacientes com diabetes mellitus tipo II. Uma meta-análise de 2014 concluiu que o consumo de probióticos resultou em uma pequena redução da pressão arterial, com um impacto mais pronunciado em casos de pressão arterial basal elevada, e que a combinação de diferentes cepas probióticas aumentou sua eficácia.

A inflamação sistêmica é uma característica comum das doenças cardiovasculares, incluindo a hipertensão. Probióticos como Lactobacillus e Bifidobacterium podem inibir a peroxidação lipídica e a produção de espécies reativas de oxigênio (ROS), potencialmente retardando ou prevenindo o desenvolvimento de doenças cardiovasculares relacionadas ao estresse oxidativo. Além disso, o tratamento com um probiótico multiespécie, o Ecologic® Barrier, demonstrou reduzir a pressão arterial sistólica em mulheres obesas pós-menopáusicas.

Processos inflamatórios e estresse oxidativo podem causar disfunção endotelial, levando à redução da atividade da enzima óxido nítrico sintase endotelial (eNOS) e à diminuição da biodisponibilidade de óxido nítrico (NO), contribuindo para a hipertensão. Existe uma associação significativa entre a disbiose e o desenvolvimento da hipertensão, o que pode incluir a diminuição da função endotelial causada por alterações na microbiota intestinal durante o aumento crônico da pressão arterial.

Estudos demonstraram que a terapia probiótica pode melhorar a função endotelial. Por exemplo, leite de soja fermentado com Lactobacillus plantarum ou Streptococcus thermophilus aumentou a produção de NO e a atividade da eNOS em células endoteliais. A suplementação com Lactobacillus plantarum 299v melhorou a função endotelial e reduziu a inflamação sistêmica em homens com doença arterial coronariana. N

Embora ainda haja necessidade de mais pesquisas para esclarecer as interações complexas entre a microbiota intestinal, o sistema neuroimune e o sistema endócrino, o consumo de probióticos representa um complemento promissor às terapias cardiovasculares convencionais e às medidas não farmacológicas para a prevenção e progressão da hipertensão e outras doenças cardiovasculares.

Aterosclerose

A aterosclerose é caracterizada pelo acúmulo de colesterol e pela migração de macrófagos para as paredes arteriais, um processo que contribui para a formação de placas ateroscleróticas. Consequentemente, essas levam ao espessamento das paredes arteriais, o que impede um fluxo sanguíneo adequado.

Estudos recentes indicaram que a disbiose intestinal pode ser um fator contribuinte para o surgimento da aterosclerose. Em pacientes com essa doença, a análise do metagenoma intestinal revelou uma menor abundância das bactérias Roseburia e Eubacterium, e uma maior abundância de Collinsella, em comparação com indivíduos saudáveis.

Além disso, a maior liberação de endotoxinas devido à disbiose pode promover o desenvolvimento de placas e a progressão de lesões ateroscleróticas, bem como estimular a liberação de outras substâncias envolvidas no processo pró-inflamatório pelas células endoteliais.

Por fim, processos inflamatórios e o estresse oxidativo podem causar disfunção endotelial, levando a uma redução na atividade da enzima óxido nítrico sintase endotelial (eNOS) e à diminuição da biodisponibilidade de óxido nítrico (NO), o que contribui para a patogênese da aterosclerose.

Conclusão

A ingestão regular de probióticos pode oferecer benefícios cardiovasculares, baseados, pelo menos em parte, em sua capacidade de reduzir o estresse oxidativo. Embora muitos resultados publicados apresentem contradições e várias questões permaneçam sem resposta, a sua suplementação é considerada um complemento promissor às terapias cardiovasculares convencionais e às medidas não farmacológicas para prevenir o início e a progressão das DCV. Pesquisas futuras são necessárias para elucidar a interação entre a microbiota intestinal, o sistema neuroimune e o sistema endócrino, visando o desenvolvimento de perfis nutrigenéticos que possam auxiliar na obtenção da homeostase. É fundamental também aprofundar o conhecimento sobre as diversas cepas bacterianas presentes nos probióticos e a melhor forma de consumi-las para maximizar seus efeitos benéficos em cada circunstância específica.