O melanoma cutâneo apresenta padrões consistentes de incidência e mortalidade que variam significativamente entre homens e mulheres. Em geral, mulheres têm maior incidência até os 45 anos, especialmente em membros inferiores e superiores, enquanto homens passam a apresentar taxas mais elevadas a partir dos 65 anos, com predominância em cabeça, pescoço e tronco. Por outro lado, o aumento da incidência com o envelhecimento é mais acentuado entre os homens, sugerindo possíveis diferenças biológicas na história natural da doença, além dos fatores ambientais e comportamentais já conhecidos.
Diante desse cenário, Olsen e colaboradores (2025) analisaram os efeitos de idade, período histórico e coorte de nascimento, buscando distinguir padrões que possam refletir diferenças reais na biologia da doença. A abordagem permitiu controlar fatores de confusão relacionados a exposições ambientais, como a radiação UV, que variam entre gerações e entre homens e mulheres.
O estudo analisou dados de incidência de melanoma invasivo entre 1982 e 2018, estratificados por idade, sexo e localização anatômica (cabeça/pescoço, tronco, membros superiores e inferiores), em três populações brancas com diferentes níveis de exposição solar: Escócia, Estados Unidos (população branca) e Queensland, Austrália. As taxas foram padronizadas por idade e analisadas por meio de modelos estatísticos que consideram os efeitos de idade, período histórico e coorte de nascimento. Foram aplicadas técnicas avançadas de regressão e análise de riscos proporcionais para identificar padrões de variação temporal, diferenças entre os sexos e tendências específicas por faixa etária e localização corporal. A razão de incidência entre homens e mulheres (IRR) foi utilizada como métrica central para comparar a história natural da doença entre os sexos.
Durante o período analisado, observou-se um aumento significativo na incidência de melanoma em homens e mulheres em todas as regiões do corpo nas três populações analisadas, com exceção nos tumores de tronco e de membros inferiores entre mulheres de Queensland. Em 2018, os homens apresentaram maior incidência no tronco, enquanto entre as mulheres, os membros superiores e inferiores foram os locais mais afetados.
Modelos estatísticos ajustados revelaram padrões distintos entre os sexos: Melanomas no tronco e na cabeça/pescoço foram consistentemente mais comuns em homens, enquanto os de membros inferiores predominaram em mulheres. A análise das curvas de incidência mostrou três padrões principais: mudanças proporcionais entre os sexos ao longo do tempo, mudanças proporcionais por idade transversal e mudanças não proporcionais em nenhuma dimensão temporal, sugerindo influências comportamentais e biológicas.
A IRR indicou que os homens apresentaram taxas mais altas de melanoma no tronco em todas as idades, com aumento acentuado após os 80 anos. Enquanto os de membros superiores e inferiores foram mais comuns em mulheres até a meia-idade, com posterior inversão para predominância masculina.
A análise das taxas de variação anual por faixa etária revelou crescimento contínuo de casos entre pessoas acima de 60 anos em todas as populações e regiões do corpo. Entre os jovens (15–39 anos), observou-se queda na incidência em Queensland, enquanto nos EUA e Escócia houve aumento em regiões como cabeça/pescoço e tronco, especialmente entre mulheres.
Os modelos por coorte de nascimento revelaram que as quedas na incidência ocorreram primeiro nas gerações mais recentes. Esse padrão sugeriu que fatores geracionais, como mudanças culturais, maior conscientização sobre exposição solar e intervenções locais de saúde pública, podem ter contribuído para a redução da incidência entre os mais jovens.
Além dos fatores comportamentais, diferenças biológicas entre homens e mulheres também podem influenciar para a distribuição anatômica do tumor. Estudos mostraram que as meninas tendem a apresentar maior número de nevos nos membros inferiores, enquanto meninos concentram essas lesões no tronco e no rosto, padrão que se reflete na distribuição anatômica na vida adulta. Evidências recentes apontaram ainda para possíveis mecanismos genéticos específicos por sexo, como variantes associadas à proteína MDM4, que podem influenciar o risco da neoplasia em mulheres.
Em resumo, o estudo de Olsen e colaboradores (2025) reforçou a importância de considerar o sexo, a idade e a localização anatômica como fatores determinantes na história natural do melanoma cutâneo. As diferenças observadas entre homens e mulheres refletiram não apenas exposições ambientais distintas, como a radiação UV, mas também possíveis mecanismos biológicos e genéticos específicos por sexo. Esses dados destacaram a importância de estratégias personalizadas de prevenção e rastreamento, que favoreçam diagnósticos mais precoces, intervenções mais eficazes e melhores desfechos clínicos.