Em 2010, a American Heart Association (AHA) estabeleceu o Life’s Simple 7 como uma métrica quantitativa para monitorar a saúde cardiovascular (SCV). Os seus componentes incluíam indicadores de qualidade da dieta, participação em atividade física, exposição ao tabagismo e medidas de índice de massa corporal (IMC), glicemia de jejum, colesterol total e pressão arterial. Cada métrica foi classificada como ruim, intermediária ou ideal com base em limiares clínicos aceitos. De forma geral, a SCV ideal foi definida como aquela em que todas as sete métricas estavam em níveis ideais. Em 2022, essa ferramenta foi atualizada para o Life’s Essential 8 (LE8), que passou a incluir a duração do sono e um sistema de pontuação de 100 pontos, permitindo uma maior granularidade na detecção de variações individuais na saúde cardiovascular. Evidências associaram pontuações mais altas no LE8 a menores taxas de doenças cardiovasculares (DCV), outras patologias crônicas e mortalidade.
Diversos estudos demonstraram que os níveis de SCV são frequentemente subótimos no início da idade adulta e tendem a declinar com o envelhecimento, o que reforça a importância de manter níveis elevados o mais cedo possível. Entretanto, a maior parte da literatura foca em medições realizadas em um único ponto no tempo. Sendo assim, existe uma lacuna no entendimento de como a SCV cumulativa correlaciona-se com o risco de eventos clínicos. Por isso, Lloyd-Jones e colaboradores (2022) investigaram as associações entre a SCV cumulativa durante o início da vida adulta (dos 18 aos 45 anos) e o risco subsequente de desenvolvimento de DCV e mortalidade posteriormente.
A metodologia baseou-se em dados do estudo Coronary Artery Risk Development in Young Adults (CARDIA), uma coorte longitudinal e comunitária iniciada em 1985. Inicialmente, foram recrutados 5.115 participantes com idades entre 18 e 30 anos em quatro centros nos Estados Unidos. Para a análise específica, foram incluídos 4.832 participantes que possuíam dados de acompanhamento após os 45 anos, excluindo-se aqueles que apresentaram eventos cardiovasculares ou foram a óbito antes dessa idade.
A SCV foi quantificada através do escore LE8. Cada métrica foi avaliada em uma escala de 0 a 100, e a pontuação global foi calculada como a média não ponderada de todos os componentes. Como os dados sobre o sono começaram a ser coletados apenas a partir do 15º ano de acompanhamento, os valores para os anos anteriores foram estimados por meio de uma metodologia de imputação validada.
O desfecho primário foi a incidência de DCV até o ano de 2022, o que incluiu infarto do miocárdio (fatal ou não), revascularização coronariana não eletiva, insuficiência cardíaca, acidente vascular encefálico (AVE), ataque isquêmico transitório e outras doenças ateroscleróticas fatais. O desfecho secundário foi a mortalidade por todas as causas.
Os resultados do estudo, que incluiu 4.832 participantes (55,7% mulheres e 44,3% homens), revelaram uma pontuação média acumulada do LE8 de 2018,8 pontos-ano entre os 18 e 45 anos de idade. Observou-se que os indivíduos situados no quartil superior (Q4) apresentavam perfis clínicos significativamente mais favoráveis em todos os componentes avaliados, incluindo menor IMC, pressão arterial mais baixa, melhores níveis lipídicos e glicêmicos, além de menor exposição ao tabagismo e melhores índices de atividade física e dieta. Durante um período médio de acompanhamento de 14,2 anos após os participantes atingirem os 45 anos, foram registrados 285 eventos cardiovasculares e 323 óbitos por todas as causas.
As análises demonstraram uma relação dose-resposta clara: quanto menor o quartil de SCV cumulativa, maior o risco de eventos clínicos e mortalidade. A probabilidade de sobrevida livre de eventos cardiovasculares aos 20 anos de acompanhamento foi de 95% para o quartil superior (Q4) em comparação com 80% para o quartil inferior (Q1).
Além disso, entre os participantes com saúde cardiovascular abaixo da mediana, aqueles que apresentaram uma melhora nos índices ao longo do tempo tiveram menor incidência de DCV e mortalidade em comparação com aqueles que tiveram a piora do índice, sugerindo que a recuperação da SCV tem um impacto protetor relevante.
Nos modelos multivariados, pertencer aos quartis Q2, Q3 ou Q4 foi associado a riscos substancialmente menores de DCV e mortalidade quando comparados ao Q1. Na análise contínua, os pesquisadores demonstraram que cada aumento de 20 pontos-ano no LE8 cumulativo foi associado a uma redução de 3% no risco de DCV e de 4% na mortalidade. Além disso, uma trajetória de melhora (aumento da pontuação) associou-se a um risco 35% menor de DCV.
Um achado de grande relevância foi que o ajuste pela saúde cardiovascular cumulativa eliminou as disparidades raciais observadas nos desfechos. Por fim, a análise estratificada indicou que a SCV cumulativa no período dos 32 aos 45 anos teve uma associação mais forte e significativa com o risco de eventos futuros do que a SCV medida no período dos 18 aos 31 anos.
Em suma, uma maior exposição cumulativa a uma SCV ideal durante os primeiros 45 anos de vida correlacionou-se diretamente com um menor risco subsequente de desenvolvimento de DCV posteriormente. Os autores enfatizaram que a trajetória de mudança é um fator determinante: mesmo entre indivíduos que apresentam a mesma carga de SCV cumulativa, aqueles que conseguiram implementar melhorias em seus índices de saúde ao longo do tempo demonstraram uma redução adicional e significativa no risco de eventos clínicos.
Esses achados destacaram a importância crítica de não apenas manter níveis saudáveis, mas de buscar ativamente a melhora dos parâmetros cardiovasculares ao longo de toda a vida.