A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é reconhecida como um distúrbio endócrino e reprodutivo de alta prevalência, afetando aproximadamente entre 6% e 10% das mulheres em idade reprodutiva. Clinicamente, a condição é caracterizada pela presença de hiperandrogenismo, morfologia ovariana policística e disfunção ovulatória. Além dos sintomas reprodutivos, a SOP é frequentemente acompanhada por um espectro de distúrbios metabólicos, incluindo resistência à insulina, obesidade, dislipidemia e um risco aumentado de doenças cardiovasculares. Embora a sua patogênese exata ainda não seja totalmente compreendida, estudos detalharam o papel dos fatores genéticos, dos mediadores inflamatórios e das disfunções em adipocinas no desenvolvimento da síndrome.
Devido à complexidade e natureza multifacetada da SOP, o manejo da condição exige uma estratégia terapêutica abrangente. Nesse contexto, as intervenções no estilo de vida são consolidadas como componentes fundamentais do tratamento. Tais abordagens têm demonstrado potencial para melhorar a saúde reprodutiva, a sensibilidade à insulina e a qualidade de vida geral. Entretanto, a literatura ainda apresenta variabilidades quanto à eficácia de protocolos específicos ou de combinações de intervenções, especialmente no que diz respeito aos desfechos de longo prazo. Diante desse cenário, Mohamed e colaboradores (2025) realizaram uma revisão sistemática com o objetivo de avaliar os dados sobre intervenções dietéticas, de exercícios e comportamentais, focando especificamente em desfechos reprodutivos, psicológicos e de qualidade de vida de mulheres com SOP.
A revisão sistemática foi conduzida seguindo as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), utilizando a estrutura PICO. A população de interesse compreendeu mulheres em idade reprodutiva diagnosticadas com SOP. Foram incluídos estudos observacionais e de intervenção que avaliaram o impacto de mudanças na dieta, programas de exercícios e terapia comportamental nos desfechos reprodutivos, bem-estar psicológico e qualidade de vida. A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados MEDLINE, EMBASE, Cochrane Library e Web of Science, abrangendo publicações em inglês até dezembro de 2022.
Foram incluídos 24 estudos, que abrangeram um total de 1.373 participantes com idade entre 21,7 e 36,5 anos. A análise das intervenções dietéticas revelou que modificações na composição da dieta, especialmente em protocolos hipocalóricos ou com ajuste de macronutrientes (como dietas ricas em proteínas), foram eficazes na melhora da regularidade menstrual, da taxa de ovulação e do equilíbrio hormonal. O sucesso dessas intervenções foi intrinsecamente ligado à perda ponderal de peso. Evidências indicaram que a melhora na função reprodutiva em mulheres com sobrepeso ou obesidade ocorreu primordialmente pelo aumento da sensibilidade à insulina, sendo que reduções modestas de apenas 5% do peso corporal inicial foram capazes de promover melhorias clínicas na ciclicidade menstrual e na fertilidade. Para o manejo ponderal, recomendou-se um déficit calórico de 500 a 750 kcal/dia, sendo as dietas hipocalóricas eficazes na rápida melhora do fenótipo da síndrome e do controle glicêmico.
No que se refere à prática de exercícios físicos, os programas estruturados de treino aeróbico ou de resistência apresentaram benefícios robustos na função reprodutiva e na redução do volume ovariano. Treinamentos estruturados de três meses resultaram na normalização do ciclo menstrual em 60% das participantes, acompanhada por uma redução expressiva no IMC e nos níveis de testosterona. Modalidades de alta intensidade (HIIT) e treinamentos de força também se mostraram promissores. Recomendações internacionais preconizam ao menos 150 minutos semanais de exercícios, com pelo menos 90 minutos de intensidade moderada. O exercício regular auxilia no manejo da SOP por dois mecanismos principais: a redução da gordura visceral e a otimização da sinalização da insulina no músculo esquelético.
As abordagens comportamentais e integradas demonstraram ser essenciais para o manejo dos aspectos psicológicos da síndrome. Intervenções baseadas em mindfulness e gerenciamento de estresse reduziram significativamente as pontuações de depressão e estresse, promovendo uma melhora na qualidade de vida geral.
Embora estratégias que combinem dieta, exercício e suporte comportamental ofereçam os resultados mais abrangentes em diversos domínios metabólicos e reprodutivos, elas enfrentam desafios significativos de adesão. Uma revisão apontou que oito estudos tiveram taxas de abandono superiores a 25%, com um estudo relatando até 66% de não conformidade em protocolos mais intensos.
Em suma, Mohamed e colaboradores (2025) demonstraram a eficácia das intervenções no estilo de vida na melhoria da saúde reprodutiva, dos desfechos metabólicos, do bem-estar psicológico e da qualidade de vida de mulheres com SOP. Embora os estudos apresentem significativa heterogeneidade metodológica, os dados demonstram consistentemente que a perda ponderal de peso e o aumento da sensibilidade à insulina foram os principais preditores de resultados positivos. As intervenções dietéticas, particularmente as hipocalóricas e ricas em proteínas, mostraram-se eficazes na regulação do ciclo menstrual, no aumento das taxas de ovulação e no equilíbrio hormonal, enquanto programas de exercícios estruturados contribuíram de forma robusta para a redução do IMC e dos níveis de andrógenos. As terapias revelaram-se fundamentais ao abordar as dimensões psicológicas da síndrome, como o estresse e a depressão, consolidando uma abordagem de manejo mais holística e abrangente.
Diante da natureza multifatorial e da diversidade clínica da SOP, é importante que as pacientes com a síndrome adotem abordagens terapêuticas personalizadas e integrativas. A combinação sinérgica de dieta, exercício e suporte comportamental oferece o maior potencial para mitigar as manifestações complexas e heterogêneas da patologia. Para o avanço da área, pesquisas futuras devem priorizar estudos de longo prazo com protocolos padronizados e ferramentas validadas, visando avaliar a sustentabilidade dos benefícios, os desafios de adesão e a relação custo-benefício das intervenções.