Uma análise publicada no BMJ em 2025 argumentou que a responsabilidade pela prevenção primária de doenças deveria retornar ao campo da saúde pública. Em meio a esse debate, Thorne e Welfordsson (2026) defenderam que a promoção da saúde deve permanecer como uma das funções centrais da atenção primária. Para eles, embora intervenções populacionais, como tributação e regulamentação, exerçam papel fundamental no enfrentamento de problemas como a obesidade, conversas rotineiras sobre hábitos de vida saudáveis durante as consultas podem ampliar o acesso a ações preventivas, reduzir o estigma relacionado ao peso e produzir benefícios relevantes para a saúde da população.
Os autores contextualizaram essa discussão em um momento de crescente atenção ao excesso de peso no Reino Unido, impulsionada tanto por iniciativas de saúde pública quanto pela expansão do uso de medicamentos agonistas dos receptores de GLP-1 e GIP. Apesar dos benefícios dessas terapias, especialistas alertaram que o enfrentamento da obesidade não pode depender exclusivamente do tratamento farmacológico, reforçando a importância de que profissionais da atenção primária incorporem de forma mais sistemática a promoção de hábitos saudáveis à prática clínica, estratégia com potencial para promover mudanças significativas no peso corporal e nos níveis de atividade física de adultos.
Para crianças e adolescentes, por sua vez, o rastreamento e o encaminhamento para programas especializados permanecem estratégias fundamentais. Muitos profissionais utilizam abordagens como a entrevista motivacional, mas nem sempre se sentem confortáveis para conduzir conversas sobre peso e estilo de vida em consultas frequentemente limitadas pelo tempo. Uma das preocupações é o estigma relacionado ao peso, definido como o preconceito e a discriminação enfrentados por pessoas com sobrepeso ou obesidade. Além de estar associado a sofrimento psicológico e menor procura por cuidados de saúde, esse estigma pode fazer com que profissionais evitem abordar o tema por receio de constranger pacientes ou prejudicar a relação clínica.
Segundo os autores, essas conversas podem ser realizadas de forma segura e construtiva quando conduzidas com sensibilidade, priorizando saúde, crescimento e bem-estar em vez do peso corporal isoladamente. Essa abordagem ajuda a reduzir sentimentos de culpa e vergonha, favorece discussões mais abertas sobre hábitos saudáveis e pode contribuir para diminuir preconceitos relacionados ao peso.
Todavia, a obesidade é um problema complexo, influenciado não apenas por comportamentos individuais, mas também por fatores sociais e ambientais. Entre eles, destacou-se a exposição a ambientes obesogênicos, caracterizados por condições que favorecem alimentação inadequada e sedentarismo. Embora esses determinantes sejam difíceis de modificar por meio de intervenções clínicas isoladas, o contato frequente dos serviços de saúde com a população oferece oportunidades importantes para ações de prevenção e cuidado longitudinal. Evidências indicaram que indivíduos de menor nível socioeconômico tendem a aceitar apoio para controle do peso quando esse suporte é oferecido. Dessa forma, incorporar rastreamento e intervenções breves à prática clínica de rotina pode representar uma oportunidade valiosa para ampliar o alcance das ações preventivas.
Outro conceito destacado foi o da difusão social, segundo o qual conhecimentos e mudanças de comportamento podem se disseminar para familiares, amigos e membros da comunidade, ampliando o impacto das intervenções para além dos indivíduos diretamente atendidos pelos serviços de saúde. Ao longo do tempo, esse processo pode favorecer o engajamento com cuidados preventivos e melhorar o letramento em saúde.
Os autores também chamaram atenção para o fato de que profissionais de saúde tendem a abordar questões relacionadas ao peso principalmente em pacientes com obesidade. Entretanto, essa estratégia pode não ser a mais eficiente do ponto de vista populacional. O chamado “paradoxo da prevenção” sugere que intervenções direcionadas apenas aos indivíduos de maior risco geram impacto coletivo menor do que abordagens que também alcancem pessoas com risco moderado, que representam uma parcela muito maior da população.
Assim, tornar as conversas sobre estilo de vida uma prática mais rotineira na atenção primária pode ampliar os benefícios em saúde para toda a comunidade. Embora políticas públicas continuem sendo fundamentais para enfrentar a obesidade e suas causas estruturais, Thorne e Welfordsson (2026) defenderam que a atenção primária mantém um papel único na promoção da saúde e do bem-estar. Os esforços não devem se restringir apenas aos pacientes com maior risco de adoecimento, mas alcançar um número mais amplo de indivíduos, seguindo o princípio de realizar intervenções simples, eficazes e acessíveis para grandes parcelas da população.
Publicado el 30 de octubre de 2026
Atenção primária
O papel da atenção primária na promoção da saúde
Thorne e Welfordsson (2026) defenderam que a promoção da saúde deve continuar sendo uma função central da atenção primária e analisaram como conversas sobre hábitos de vida podem contribuir para reduzir o estigma relacionado ao peso e ampliar o alcance das ações preventivas.
Autor/a: Thorne T, Welfordsson P
Fuente: The Lancet Primary Care, 2026; 2 The weight of words: embracing effective health promotion in primary care
Uma análise publicada no BMJ em 2025 argumentou que a responsabilidade pela prevenção primária de doenças deveria retornar ao campo da saúde pública. Em meio a esse debate, Thorne e Welfordsson (2026) defenderam que a promoção da saúde deve permanecer como uma das funções centrais da atenção primária. Para eles, embora intervenções populacionais, como tributação e regulamentação, exerçam papel fundamental no enfrentamento de problemas como a obesidade, conversas rotineiras sobre hábitos de vida saudáveis durante as consultas podem ampliar o acesso a ações preventivas, reduzir o estigma relacionado ao peso e produzir benefícios relevantes para a saúde da população.
Os autores contextualizaram essa discussão em um momento de crescente atenção ao excesso de peso no Reino Unido, impulsionada tanto por iniciativas de saúde pública quanto pela expansão do uso de medicamentos agonistas dos receptores de GLP-1 e GIP. Apesar dos benefícios dessas terapias, especialistas alertaram que o enfrentamento da obesidade não pode depender exclusivamente do tratamento farmacológico, reforçando a importância de que profissionais da atenção primária incorporem de forma mais sistemática a promoção de hábitos saudáveis à prática clínica, estratégia com potencial para promover mudanças significativas no peso corporal e nos níveis de atividade física de adultos.
Para crianças e adolescentes, por sua vez, o rastreamento e o encaminhamento para programas especializados permanecem estratégias fundamentais. Muitos profissionais utilizam abordagens como a entrevista motivacional, mas nem sempre se sentem confortáveis para conduzir conversas sobre peso e estilo de vida em consultas frequentemente limitadas pelo tempo. Uma das preocupações é o estigma relacionado ao peso, definido como o preconceito e a discriminação enfrentados por pessoas com sobrepeso ou obesidade. Além de estar associado a sofrimento psicológico e menor procura por cuidados de saúde, esse estigma pode fazer com que profissionais evitem abordar o tema por receio de constranger pacientes ou prejudicar a relação clínica.
Segundo os autores, essas conversas podem ser realizadas de forma segura e construtiva quando conduzidas com sensibilidade, priorizando saúde, crescimento e bem-estar em vez do peso corporal isoladamente. Essa abordagem ajuda a reduzir sentimentos de culpa e vergonha, favorece discussões mais abertas sobre hábitos saudáveis e pode contribuir para diminuir preconceitos relacionados ao peso.
Todavia, a obesidade é um problema complexo, influenciado não apenas por comportamentos individuais, mas também por fatores sociais e ambientais. Entre eles, destacou-se a exposição a ambientes obesogênicos, caracterizados por condições que favorecem alimentação inadequada e sedentarismo. Embora esses determinantes sejam difíceis de modificar por meio de intervenções clínicas isoladas, o contato frequente dos serviços de saúde com a população oferece oportunidades importantes para ações de prevenção e cuidado longitudinal. Evidências indicaram que indivíduos de menor nível socioeconômico tendem a aceitar apoio para controle do peso quando esse suporte é oferecido. Dessa forma, incorporar rastreamento e intervenções breves à prática clínica de rotina pode representar uma oportunidade valiosa para ampliar o alcance das ações preventivas.
Outro conceito destacado foi o da difusão social, segundo o qual conhecimentos e mudanças de comportamento podem se disseminar para familiares, amigos e membros da comunidade, ampliando o impacto das intervenções para além dos indivíduos diretamente atendidos pelos serviços de saúde. Ao longo do tempo, esse processo pode favorecer o engajamento com cuidados preventivos e melhorar o letramento em saúde.
Os autores também chamaram atenção para o fato de que profissionais de saúde tendem a abordar questões relacionadas ao peso principalmente em pacientes com obesidade. Entretanto, essa estratégia pode não ser a mais eficiente do ponto de vista populacional. O chamado “paradoxo da prevenção” sugere que intervenções direcionadas apenas aos indivíduos de maior risco geram impacto coletivo menor do que abordagens que também alcancem pessoas com risco moderado, que representam uma parcela muito maior da população.
Assim, tornar as conversas sobre estilo de vida uma prática mais rotineira na atenção primária pode ampliar os benefícios em saúde para toda a comunidade. Embora políticas públicas continuem sendo fundamentais para enfrentar a obesidade e suas causas estruturais, Thorne e Welfordsson (2026) defenderam que a atenção primária mantém um papel único na promoção da saúde e do bem-estar. Os esforços não devem se restringir apenas aos pacientes com maior risco de adoecimento, mas alcançar um número mais amplo de indivíduos, seguindo o princípio de realizar intervenções simples, eficazes e acessíveis para grandes parcelas da população.