A asma e as doenças atópicas demonstraram um aumento significativo na incidência em crianças de regiões desenvolvidas, embora as tendências globais apresentem heterogeneidade. Enquanto a predisposição genética é um determinante bem estabelecido, evidências crescentes apontaram que fatores de estilo de vida, incluindo sedentarismo, exposição ao tabaco e padrões nutricionais, desempenham um papel fundamental no desenvolvimento dessas condições. Estudos indicaram que crianças com dietas saudáveis, caracterizadas por baixo consumo de fast food e alta ingestão de frutas e vegetais, apresentaram menor probabilidade de manifestar sintomas de asma, dermatite atópica e rinite alérgica.
Nesse contexto, o consumo de alimentos ultraprocessados (AUP) na infância surge como um fator de risco potencial para o início e a progressão da asma e de episódios de sibilância. O mecanismo biológico sugerido envolve a promoção de uma inflamação sistêmica de baixo grau desencadeada pelo perfil pró-inflamatório dos AUP, que possuem alto teor de ácidos graxos saturados (SFA) e baixa densidade de fibras. Especificamente, os SFAs ativam o receptor do tipo Toll 4 (TLR4) e a via do NF-κB, resultando na liberação de citocinas como TNF-α, IL-6 e IL-8, que aumentam a hiperresponsividade das vias aéreas. Adicionalmente, o processamento térmico desses alimentos gera produtos finais de glicação avançada (AGEs), que se ligam aos receptores RAGE. A convergência das vias SFA-TLR4 e AGE-RAGE sobre o NF-κB amplifica o estresse oxidativo e a inflamação, promovendo dano epitelial e remodelamento brônquico.
Apesar dessas evidências, a maior parte dos dados sobre a associação entre dieta e doenças atópicas em pediatria baseia-se em estudos transversais ou de caso-controle, que possuem limitações metodológicas para inferir associações biológicas causais. Dada a carência de estudos prospectivos nessa área, Galindo et al., (2026) exploraram a associação entre o consumo de AUP na infância e o risco de surgimento de asma e doenças alérgicas.
A metodologia do estudo baseou-se no Projeto Seguimiento do Niño para un Desarrollo Óptimo (SENDO), uma coorte pediátrica prospectiva e contínua realizada na Espanha que investigou a influência da dieta e do estilo de vida no desenvolvimento infantil. A população inicial consistiu em 1.546 crianças recrutadas entre 2015 e 2024, com idade entre 4 e 5 anos no momento da inclusão. Para garantir a análise de casos incidentes, foram excluídos todos os participantes que apresentavam diagnósticos prévios de asma ou doenças atópicas no início do acompanhamento.
A avaliação do consumo alimentar foi realizada através de um Questionário de Frequência Alimentar (QFA) de 147 itens, previamente validado para a população pediátrica espanhola, aplicado no início do estudo e atualizado após três anos. Os alimentos foram classificados de acordo com o sistema NOVA, que agrupa os produtos pelo nível de processamento industrial, focando-se no Grupo 4 (alimentos ultraprocessados - AUP). O consumo de AUP foi calculado como a porcentagem da ingestão energética total (IET), e os participantes foram divididos em tercis de consumo para fins comparativos, sendo o grupo de alta ingestão definido como aquele que consumia mais de 30% da energia diária proveniente desses produtos.
Os desfechos clínicos foram monitorados anualmente através de questionários respondidos pelos pais. A asma foi definida por diagnóstico médico relatado, uso de medicações específicas (broncodilatadores, corticosteroides inalatórios, antileucotrienos) ou histórico clínico de bronquite recorrente. Enquanto isso, para a asma alérgica, além do diagnóstico de asma, seria necessário a presença concomitante de dermatite atópica ou sensibilização comprovada a aeroalérgenos.
Para a análise estatística, os pesquisadores utilizaram modelos de riscos proporcionais de Cox para estimar a Razão de Risco (Hazard Ratio - HR) ajustada por múltiplos fatores de confusão, incluindo idade, sexo, índice de massa corporal (IMC), atividade física, tempo de tela, amamentação exclusiva, ingestão energética total, tabagismo parental e histórico familiar de atopia.
A análise final incluiu 691 crianças com idade média de 4,86 anos e uma distribuição equilibrada entre os sexos. Os participantes foram estratificados em tercis de acordo com o consumo de AUP, com médias de ingestão correspondentes a 26,96% (T1), 37,01% (T2) e 45,87% (T3) da energia diária total. Observou-se que o grupo com maior consumo de AUP apresentava características basais distintas, como maior ingestão energética total, maior tempo de exposição a telas, menores níveis de atividade física e maiores escores-z de IMC. Além disso, os pais dessas crianças demonstraram menor conhecimento sobre recomendações nutricionais e atitudes menos saudáveis em relação aos hábitos alimentares de seus filhos.
No que tange aos desfechos clínicos após um acompanhamento médio de 3,4 anos, o estudo identificou uma tendência linear significativa entre o consumo de AUP e o risco de asma. Os riscos ajustados para o desenvolvimento da doença respiratória foram de 2,6% no primeiro tercil, elevando-se para 9,9% e 7,6% no segundo e terceiro tercis, respectivamente. Na análise de sobrevida com o modelo multivariado totalmente ajustado, as crianças com alto consumo de AUPs (definido como >30% da ingestão energética total, unindo os tercis T2 e T3) apresentaram um risco 3,76 vezes maior de desenvolver asma incidentes em comparação com aquelas no tercil de menor consumo (HR 3,76; IC 95% 1,15–11,51; p = 0,02). A taxa de incidência de novos casos de asma foi de 25,4 por 1000 pessoas-ano no grupo de alto consumo, contra apenas 6,9 por 1000 pessoas-ano no grupo de referência.
Em contraste com os achados para asma, não foram observadas associações estatisticamente significativas entre o consumo de AUPs e outros desfechos atópicos, como asma alérgica, dermatite atópica, sensibilização a aeroalérgenos ou alergia alimentar. Curiosamente, as taxas de incidência de dermatite atópica e atopia foram numericamente maiores no tercil de menor consumo de AUP, embora sem significância estatística que estabelecesse uma correlação direta.
Em suma, o elevado consumo de AUPs na infância atuou como um importante fator de risco para o desenvolvimento de asma em crianças em idade escolar, evidenciando que participantes com ingestão superior a 30% da energia diária total proveniente desses produtos possuíram um risco 3,76 vezes maior de asma incidente em comparação aos que consumiam menores quantidades. Notavelmente, essa associação não foi verificada para outros desfechos atópicos, como dermatite atópica, alergia alimentar ou sensibilização a aeroalérgenos, sugerindo que a patogênese envolvida pode estar relacionada a uma inflamação sistêmica de baixo grau induzida pela dieta, em vez dos mecanismos imunológicos clássicos dependentes de IgE ou da linhagem Th2. Diante desses achados, os autores reforçaram a relevância de intervenções e políticas de saúde pública focadas na limitação do consumo de ultraprocessados como uma medida preventiva eficaz e modificável para reduzir a incidência de asma na população pediátrica.