A asma é caracterizada como uma doença inflamatória crônica das vias aéreas. Esse processo está associado à hiperresponsividade e pode levar ao remodelamento brônquico, resultando em sintomas como sibilância, falta de ar, aperto no peito e tosse. Tais manifestações clínicas frequentemente ocorrem em períodos específicos, como à noite ou pela manhã, ou após a realização de exercícios, podendo ser resolvidas de forma espontânea ou mediante tratamento.
Embora o diagnóstico seja mais comum em pacientes jovens, a asma pode ser identificada em indivíduos com mais de 60 anos. No entanto, a sua prevalência varia entre regiões: nos Estados Unidos, cerca de 7,2% dos adultos com mais de 60 anos possuem diagnóstico da doença, enquanto na União Europeia a prevalência em pessoas de 65 anos ou mais varia de 1,8% a 10,9% entre os países.
Existem diversas razões para a dificuldade no diagnóstico e tratamento em pacientes idosos, incluindo o sub-relato de sintomas e a similaridade da doença com outras condições, como a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) ou a insuficiência cardíaca congestiva. Além disso, a recorrência da asma em idades mais avançadas após estarem presentes na juventude são mal classificadas. No diagnóstico diferencial, é crucial considerar a asma de início tardio (LOA), que apresenta início súbito e declínio rápido da função pulmonar.
O subdiagnóstico acarreta tratamentos inadequados, sendo especialmente crítico em idosos com múltiplas condições crônicas e regimes de polifarmácia. A falha no tratamento leva ao insucesso terapêutico e à redução da qualidade de vida. Atualmente, observa-se uma carência de estudos que avaliem as diferenças no curso clínico da asma entre subgrupos específicos (60–70, 70–80 e acima de 80 anos). Por isso, Miodońska et al., (2026) realizaram um estudo clínico com objetivo de analisar as particularidades da asma em pacientes com mais de 60 anos.
O estudo observacional, multicêntrico e prospectivo foi conduzido em clínicas ambulatoriais de alergia, geriatria e pneumologia no sul da Polônia. A população do estudo foi composta por indivíduos com mais de 60 anos, identificados em bases de dados médicos através de códigos da CID-10 relacionados à asma (J45, J45.1, J45.8 e J45.13). Os critérios de inclusão exigiram um diagnóstico confirmado de asma brônquica de acordo com os critérios da Global Initiative for Asthma (GINA), com pelo menos um ano de tratamento documentado e evidência de reversibilidade brônquica em testes funcionais. Essa reversibilidade foi definida como um aumento de pelo menos 12% ou 200 mL no Volume Expiratório Forçado no primeiro segundo (VEF1) ou uma redução de no mínimo 40% na resistência R19 por meio da Técnica de Oscilação Forçada (FOT). Pacientes com asma grave e reversibilidade parcial também foram elegíveis.
O processo de triagem resultou na seleção de 345 pacientes com asma, além da formação de um grupo controle paralelo composto por 410 participantes sem doenças obstrutivas, pareados por idade e recrutados nos mesmos centros. Revisões dos registros médicos dos 12 meses anteriores foram realizadas para avaliar a multimorbidade, o regime de tratamento da asma e os resultados de diagnósticos de alergia, como testes cutâneos e níveis de IgE total e específica. Para a avaliação subjetiva do controle da doença e do bem-estar, foram utilizados instrumentos validados: o Teste de Controle da Asma (ACT), o Questionário de Qualidade de Vida na Asma (AQLQ) e a Pesquisa de Saúde SF-36.
As avaliações da função respiratória incluíram a espirometria, realizada conforme as diretrizes da ATS/ERS após a suspensão de medicações broncodilatadoras específicas, e o emprego da técnica de oscilação forçada (FOT) para medir a impedância respiratória (resistência e reatância) por meio de ondas de pressão externas. O teste de reversibilidade broncodilatadora foi executado com a administração de 400 μg de salbutamol via spray com espaçador. Além disso, os pacientes foram classificados em fenótipos: T2-alto (baseado em eosinofilia >150/μL, FeNO >20 ppb, níveis de IgE e resposta a esteroides), T2-baixo ou fenótipo misto.
Os resultados revelaram que o fenótipo T2 foi o mais prevalente, correspondendo a 48% da amostra, seguido pelo T2-baixo (33%) e pelo misto (19%). Entre os indivíduos com asma grave, a distribuição fenotípica seguiu uma tendência similar. Na comparação com o grupo controle, os pacientes asmáticos apresentaram taxas significativamente mais elevadas de multimorbidade, com destaque para a prevalência de depressão, comprometimento cognitivo, obesidade e desnutrição. A presença de mais de duas doenças coexistentes também foi notavelmente superior nesse grupo.
No que tange à função respiratória, a mediana do VEF1 para a população asmática geral foi de 81% do previsto. Contudo, observou-se que os pacientes com mais de 80 anos atingiram a norma esperada para sua idade com menos frequência do que os grupos mais jovens. Em contrapartida, as medidas de resistência R5 obtidas pela FOT não demonstraram variações estatisticamente significativas entre os diferentes subgrupos etários. Quanto ao perfil terapêutico, os dados indicaram uma redução progressiva e significativa nas doses diárias de corticosteroides inalatórios nos subgrupos de idade mais avançada. Além disso, verificou-se uma utilização frequente de corticosteroides orais (tanto de forma temporária quanto contínua) e um uso extremamente limitado de terapias biológicas, que foram aplicadas em apenas 5% dos casos.
O controle clínico da doença e a percepção de bem-estar também apresentaram disparidades importantes entre as faixas etárias. A asma não controlada foi significativamente mais comum nos idosos mais velhos, enquanto o controle adequado foi mais prevalente no subgrupo entre 60 e 70 anos. A qualidade de vida, mensurada pelos instrumentos AQLQ e SF-36, foi consistentemente inferior no grupo asmático em todos os domínios avaliados quando comparado ao grupo controle. Especificamente no subgrupo com mais de 80 anos, os escores de percepção geral de saúde no SF-36 foram significativamente piores do que nos grupos mais jovens, reforçando o impacto negativo da asma não controlada e das comorbidades na qualidade de vida da população com mais idade.
Em suma, Miodońska et al., (2026) demonstraram que asmáticos com mais de 60 anos apresentaram altas taxas de multimorbidade, incluindo depressão e declínio cognitivo, além de um controle clínico da doença significativamente inferior, especialmente no subgrupo com mais de 80 anos.
Observou-se uma tendência preocupante de subutilização de corticosteroides inalatórios e um uso excessivo de corticosteroides orais, acompanhados por um acesso extremamente limitado a terapias biológicas avançadas. Diante desse cenário, os autores ressaltaram a necessidade imperativa de estratégias terapêuticas personalizadas e ajustadas à idade, que considerem as complexidades diagnósticas e as comorbidades específicas da população idosa para melhorar os desfechos clínicos e o bem-estar desses pacientes.