A ciência tem um problema de confiança — pelo menos, essa é a percepção comum. Se ao menos pudéssemos fazer com que as pessoas ‘confiassem’ ou ‘seguissem’ a ciência, nós, como sociedade, estaríamos fazendo mais sobre a mudança climática, as taxas de vacinação infantil estariam aumentando em vez de diminuir, e menos pessoas teriam morrido durante a pandemia da COVID-19. Caracterizar o problema como ‘negacionismo científico’, no entanto, é enganoso e sugere erroneamente que a solução é construir uma maior confiança entre cientistas e o público.
De fato, diversos estudos demonstraram que a confiança na ciência e nos cientistas permanece alta globalmente. Mas esses existem em um ecossistema complexo, no qual a percepção das pessoas sobre o que conta como evidência ou prova confiável é influenciada por uma miríade de outras pessoas e fatores, incluindo política, religião, cultura e crenças pessoais. Diante dessa complexidade, o público está recorrendo a amigos, familiares, jornalistas e outros para ajudá-los a filtrar e interpretar a vasta quantidade de informações disponíveis.
Sendo assim, o cerne do desafio atual da ciência não é a perda de confiança, mas sim a confiança mal colocada em fontes não confiáveis. Altos níveis de confiança podem ser perigosos quando são investidos em instituições e indivíduos desinformados ou mal-intencionados. Nesse sentido, é especialmente problemático quando as instituições sociais se tornam politizadas e defendem políticas e comportamentos que estão em desacordo com o consenso científico.
Por exemplo, durante a pandemia da COVID-19, os casos e as mortes foram maiores em nações, como os Estados Unidos e o Brasil, que tiveram líderes políticos que descartaram a gravidade ou mesmo a existência da pandemia, minimizaram a necessidade de máscaras e questionaram a segurança das vacinas.
| Desvendando os verdadeiros desafios |
A confiança na ciência é geralmente alta. Uma pesquisa, realizada em 68 países entre novembro de 2022 e agosto de 2023, descobriu que 75% dos entrevistados disseram que confiavam nos cientistas. Em outro estudo em 70 países, 71% dos entrevistados disseram que tinham alta confiança na ciência.
Em contrapartida, estudos revelaram a preocupação com a integridade e a independência da ciência, especialmente para certos tópicos, como COVID-19 e mudanças climáticas. Mais da metade dos entrevistados do Trust Barometer (53%) disseram que a ciência se tornou politizada em seu país, e 59% afirmaram que governos e outras grandes organizações financiadoras têm muita influência sobre como a ciência é feita. Um subproduto dessas percepções tem sido um aumento na agressão contra cientistas.
Outra consequência prejudicial dessa politização é que ela torna as pessoas mais abertas a narrativas alternativas que podem não ser baseadas em evidências e, muitas vezes, estão enraizadas em ideologias políticas. Essa cisma ideológica não é definida por uma antipatia pró- versus anti-ciência, mas por uma polarização de ‘minhas evidências’ versus ‘suas evidências’
Frequentemente, essa tensão decorre do fato de que os cientistas buscam a verdade em experimentos e análises de dados, e se concentram em efeitos que se manifestam em um grande número de pessoas. Por outro lado, o público geralmente se concentra e é movido pelas experiências de pessoas que conhecem pessoalmente ou por experiência indireta. Essas são tomadas como evidência e, muitas vezes, têm mais peso do que pesquisas revisadas por pares.
Todos os lados afirmam respeito pela ciência e pelas evidências, daí os números geralmente altos de confiança nos cientistas, mas cada lado tem sua própria versão da ‘verdade’. Por exemplo, as preocupações dos pais sobre o potencial das vacinas para causar autismo foram refutadas por muitos estudos científicos. No entanto, a experiência de um pai com seu próprio filho ou dele testemunhar o que aconteceu com outros pode ser tomada como evidência direta e convincente, em vez de uma ligação coincidente. Às vezes, uma amostra de um, quando conhece essa pessoa, é mais poderosa emocionalmente, senão estatisticamente, do que uma amostra de 10.000.
Narrativas concorrentes sobre tópicos como vacinas ou mudanças climáticas também podem gerar confusão, que se manifesta como dúvida ou crenças equivocadas sobre as melhores ações a serem tomadas, para si e para a sociedade em geral. A dúvida pode enfraquecer a determinação das pessoas em apoiar e seguir o conselho científico, especialmente quando fazê-lo exige esforço, risco e sacrifício. Crenças equivocadas, enquanto isso, podem levar as pessoas a agir contra seus próprios interesses ou os interesses da sociedade.
Outro desafio é que muitas pessoas confiam em não cientistas para lhes dizer a verdade sobre assuntos científicos. De acordo com o relatório Edelman Trust Barometer de 2024, aqueles com mais influência incluem ‘alguém como eu’ (74%) e ‘amigos e familiares’ (78%). Até mesmo celebridades (39%) e líderes religiosos (43%) desfrutam de quantidades substanciais de confiança. Os participantes do estudo Global Listening Project classificaram os membros da família como mais importantes do que os cientistas quando se tratava de a quem eles recorreriam para obter informações verdadeiras em uma crise.
Embora essas outras fontes geralmente careçam de credenciais científicas, elas exibem outras características que as pessoas associam à legitimidade. Em particular, os entrevistados na pesquisa Edelman Trust Barometer indicaram que a experiência pessoal relevante (70%) está mais fortemente associada à legitimidade da fonte do que o treinamento formal e as credenciais acadêmicas.
A legitimidade baseada na experiência pessoal é algo que as pessoas estendem a si mesmas. O relatório descobriu que 65% das pessoas confiam em seu próprio julgamento quando se trata de questões de saúde. A alta autoconfiança em saúde, juntamente com a confiança nos sistemas de saúde, geralmente leva a melhores resultados de saúde, mas quando há um alto nível de autoconfiança acompanhado de baixos níveis de confiança na ciência, as coisas podem ser problemáticas.
Isso é especialmente verdadeiro quando se trata de cumprir as determinações de saúde pública, aceitar inovações em cuidados médicos e ser uma influência positiva nas decisões de saúde de outras pessoas. No caso das vacinas, aqueles que se declararam autoconfiantes e com alta confiança no sistema de saúde tinham maior probabilidade de estarem totalmente vacinados do que aqueles que se sentiam igualmente autoconfiantes, mas tinham menor confiança (40%).
A ameaça representada por altos níveis de confiança em fontes não credenciadas é exacerbada por onde e como as pessoas obtêm suas informações científicas. Na maioria das vezes, é através de pesquisas online, que retornam uma mistura de informações credenciadas e não credenciadas. Devido à forma como as pessoas julgam a credibilidade, não se pode presumir que elas descartarão informações não credenciadas em favor de descobertas baseadas em evidências. Na verdade, aqueles com alta autoconfiança e pouca confiança em fontes oficiais são frequentemente atraídos por vozes e fontes não credenciadas.
Como o ecossistema de informações contém desinformação disseminada por fontes que carecem de treinamento científico, mas são confiáveis em níveis semelhantes aos daqueles que tiveram treinamento, os cientistas precisam se comunicar melhor — com mais relevância, ressonância emocional e empatia — se quiserem competir com outras fontes que são cada vez mais influentes.
| Três estratégias para construir confiança |
Para que os cientistas aumentem a influência das informações, foram recomendadas três estratégias:
Primeiro, trabalhe com fontes de confiança local para disseminar informações. Além de sua credibilidade, indivíduos respeitados, como médicos e líderes religiosos, geralmente estão na melhor posição para tornar as informações relevantes para a vida e os valores das pessoas. As autoridades de saúde pública que divulgam informações científicas, bem como as instituições acadêmicas e de pesquisa, devem identificar e trabalhar com esses parceiros, e fornecer-lhes treinamento para se tornarem fontes de informação confiáveis, munidas de argumentos precisos e convincentes para abordar equívocos.
Segundo, cultivar maior alfabetização científica e midiática. No ano passado, quase um terço (32%) dos entrevistados do Trust Barometer disseram que, quando os cientistas ou especialistas mudam suas recomendações, as pessoas começam a duvidar se esses realmente sabiam o que fazer. Por exemplo, durante a pandemia da COVID-19, essa falta de compreensão sobre como o conhecimento científico evolui minou a confiança das pessoas em algumas políticas e determinações de controle da pandemia.
Corrigir tais mal-entendidos sobre o processo científico significa fortalecer e ampliar o alcance da educação científica e dos programas de pensamento crítico. Tais programas podem aumentar a alfabetização midiática de forma mais ampla, ensinando as pessoas a identificar desinformação e notícias falsas.
Terceiro, tornar as comunicações científicas mais ressonantes com o público leigo. As pessoas estão predispostas a se concentrar em informações viscerais e emocionalmente estimulantes, em vez de abstratas e emocionalmente empobrecidas.
Os pesquisadores precisam dar vida aos seus dados — tornando-os mais atraentes. Existem muitas diretrizes disponíveis, como as Melhores Práticas em Comunicação Científica da Sociedade Americana de Biologia Celular.
Também é importante que as recomendações e determinações baseadas na ciência sejam comunicadas com uma compreensão da vida cotidiana das pessoas. Uma das principais razões pelas quais as pessoas disseram seguir o conselho médico de um amigo ou familiar, ou informações que encontraram nas redes sociais, em vez de seguir o conselho de seu profissional de saúde, foi porque essa era mais fácil de encaixar em seu estilo de vida.
Se o inconveniente não puder ser evitado, então os representantes científicos devem falar com empatia, reconhecendo os sacrifícios que estão pedindo às pessoas para fazer, e vinculando esses sacrifícios a coisas que as pessoas valorizam. Por exemplo, os cientistas deveriam ter dado maior consideração às interrupções causadas pelo distanciamento social e quarentena durante a pandemia da COVID-19. Em vez de usar dados ou mesmo responsabilidade social para motivar a adesão, uma abordagem emocionalmente mais convincente teria sido falar sobre manter os entes queridos seguros da COVID-19 e, finalmente, chegar ao outro lado da pandemia e retornar ao normal o mais rápido possível.
A comunidade científica não pode impedir a disseminação e amplificação da desinformação, mas isso não significa que seja impotente. Ela pode melhorar o ecossistema de informações, tornando as fontes confiáveis mais fáceis de encontrar e reconhecer. Ao colaborar com vozes e influenciadores locais de confiança, ela pode ajudar as pessoas a evitar serem vítimas da desinformação, especialmente aquela difundida por autoridades institucionais e líderes governamentais. A comunidade pode elevar a percepção da ciência como um esforço não partidário, não impulsionado por ideologia política. E tem a capacidade de melhorar a eficácia das comunicações científicas, especialmente ao dizer ao público coisas que eles podem não querer ouvir.
A resposta ao problema de influência da ciência não é a construção de confiança, mas sim ajudar a colocar a confiança em lugares melhores e comunicar a verdade de uma forma mais convincente, que não presuma uma falta de fontes concorrentes ou que todos estejam jogando pelas mesmas regras de evidência.