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Publicado el 23 de enero de 2026

Novo estudo identificou gene em leucócitos como possível biomarcador de depressão

Estudo em roedores, a partir de dados de transcriptoma e genoma humano, mostrou que gene normalmente associado ao neurodesenvolvimento está superexpresso nos glóbulos brancos de indivíduos com depressão maior.

Autor/a: Maria Fernanda Ziegler

Fuente: Agência FAPESP Biomarcador em leucócitos é potencial preditor de depressão

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em colaboração com a Universidade Harvard, identificaram um conjunto de genes normalmente restritos ao sistema nervoso que aparece superativado em leucócitos de indivíduos com depressão maior. O achado, obtido por meio de análises de dados humanos e experimentos em camundongos, reforçou a complexa relação entre o sistema imune e alterações neuropsiquiátricas, além de apontar potenciais caminhos para o desenvolvimento de novos biomarcadores do transtorno.

Embora já se saiba que estresse psicológico pode influenciar diretamente o funcionamento do sistema imunológico, o novo estudo sugeriu que essa comunicação é mais ampla do que se imaginava. Os pesquisadores observaram que genes tipicamente associados ao neurodesenvolvimento podem ser ativados também em células de defesa em situações de estresse prolongado ou depressão.

Um dos principais pontos revelados pela investigação é a superexpressão do gene PAX6, conhecido por seu papel crucial na formação de novos neurônios, sobretudo em fases iniciais da vida. Além dele, outros três genes ligados a circuitos neuronais também apresentaram aumento de expressão em leucócitos. Essa ativação incomum foi observada tanto em dados de transcriptoma humano quanto em modelos animais submetidos a estresse crônico.

A equipe utilizou dados públicos de transcriptoma e genoma para investigar diferenças de expressão gênica em indivíduos com depressão maior. Em paralelo, camundongos foram expostos a um modelo de estresse prolongado utilizado na pesquisa comportamental em neurociências. Encontradas as mesmas assinaturas genéticas nos animais, os resultados fortaleceram a hipótese de que o sistema imune peripheral espelha certas alterações típicas do sistema nervoso durante episódios depressivos.

Para integrar essas camadas de informação, foram aplicadas estratégias combinadas de análise genômica (GWAS) e sequenciamento de RNA, permitindo identificar padrões de ativação gênica associados ao risco ou presença de transtornos mentais.

Por que o PAX6 se destacou?

O comportamento do gene PAX6 nos leucócitos chamou atenção pela dinâmica observada: sua expressão aumenta nos primeiros dias após a exposição ao estresse e tende a se estabilizar no período em que os animais começam a manifestar sinais comportamentais compatíveis com depressão. Isso sugeriu que o gene pode atuar como marcador precoce de alterações sistêmicas induzidas pelo estresse.

No entanto, os autores destacaram que ainda não é possível afirmar se o PAX6 tem efeito causal direto na fisiologia do estresse ou se sua ativação é uma resposta adaptativa do sistema imune — possibilidade que abre novas linhas de investigação.

Embora os resultados tenham sido observados principalmente em indivíduos com depressão maior e em animais sob o mesmo modelo experimental, os pesquisadores destacaram que alterações semelhantes podem ocorrer em outros transtornos psiquiátricos. Isso inclui condições como ansiedade, transtorno bipolar e esquizofrenia, todos já associados a alterações imunológicas e inflamação.

A identificação de genes típicos de neurônios atuando nas células de defesa indica que o sistema imune pode carregar assinaturas importantes para o diagnóstico, o acompanhamento e até o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas em saúde mental.

O artigo Integrative neuroimmunology reveals leukocyte-expressing PAX6 as a critical predictor of major depressive disorder pode ser lido em www.nature.com/articles/s41398-025-03776-8.