Doenças cardiovasculares têm persistido como a principal causa de morte nos Estados Unidos por mais de um século. Mas, nas últimas décadas, a natureza dessas mortes evoluiu.
Uma análise recente publicada no Journal of the American Heart Association relatou que a mortalidade nacional por doenças cardíacas diminuiu desde 1970. Nesse ano, mais de 733.000 pessoas morreram de doenças cardíacas, representando 41% de todas as mortes. Em 2022, essas mesmas enfermidades causaram apenas 24% das mortes, vitimando cerca de 701.000 vidas.
O declínio nas mortes foi especialmente acentuado para a doença cardíaca isquêmica, incluindo o infarto agudo do miocárdio (IAM), ou ataque cardíaco. Em 1970, 9 em cada 10 mortes por doenças cardíacas eram isquêmicas, mas apenas cerca de metade o eram em 2022. O relatório descobriu que uma proporção crescente de pessoas nos EUA está morrendo de outras formas de doenças cardíacas, como insuficiência cardíaca, arritmia cardíaca e doença cardíaca hipertensiva, a cada ano.
Sendo assim, com a população envelhecendo e sobrevivendo a esses eventos isquêmicos agudos, parece que o fardo da mortalidade por doenças cardíacas está se transferindo para insuficiência cardíaca e outras condições crônicas de doenças cardíacas.
| O contexto |
Acredita-se que a doença cardíaca era "extremamente rara" nos EUA na virada do século 20, disse David S. Jones, MD, PhD, historiador médico da Universidade de Harvard. A prevalência e as taxas de mortalidade começaram a subir nas décadas seguintes, impulsionadas por novas exposições, como o aumento do tabagismo.
A pesquisa sobre as causas subjacentes da doença cardiovascular acelerou após a Segunda Guerra Mundial, abrindo caminho para esforços de mitigação na década de 1960. Em 1974, o cardiologista Weldon Walker, MD, relatou no JAMA que as mortes por doença cardíaca isquêmica ajustadas por idade haviam diminuído em relação ao seu pico de 1963. De acordo com Jones, isso desencadeou estudos de vigilância e modelagem para descobrir quais intervenções médicas ou preventivas eram mais eficazes na redução de mortes, um debate que, segundo ele, persiste até hoje.
Estimativas do estudo Global Burden of Disease de 2021 sugeriram um progresso recente na prevenção da doença cardíaca isquêmica nos EUA. Entre pessoas com mais de 25 anos, as taxas dessa enfermidade caíram de quase 6% em 1990 para pouco menos de 4% em 2021.
Ainda assim, a prevalência geral de doenças cardíacas nos EUA aumentou ligeiramente nas últimas décadas, mostra o mesmo conjunto de dados. Em 1990, a doença cardiovascular afetava cerca de 16% da população, cerca de 25 milhões de pessoas. Isso aumentou para cerca de 18%, afetando mais de 41 milhões de pessoas em 2021.
| O estudo |
King e colaboradores (2025) analisaram dados de mortalidade de adultos com 25 anos ou mais do Sistema Nacional de Estatísticas Vitais dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, que agrega dados de certidões de óbito em todo o país.
Cada certidão de óbito inclui um código da Classificação Internacional de Doenças (CID) que descreve a causa básica da morte. Os pesquisadores usaram esses códigos para classificar as mortes causadas por IAM, doença cardíaca isquêmica crônica ou outras formas de doença cardíaca, como insuficiência cardíaca, cardiomiopatia, doença cardíaca hipertensiva, arritmia, doença cardíaca valvular, doença cardíaca reumática, doença cardíaca pulmonar ou parada cardíaca.
Os autores calcularam a mortalidade anual absoluta e ajustada por idade para cada causa de morte com base nas estimativas da população nacional.
Os pesquisadores descobriram as seguintes mudanças na mortalidade ajustada por idade entre 1970 e 2022:
· A mortalidade geral por doença cardiovascular diminuiu 66%, de 761 para 258 por 100.000 mortes.
· A mortalidade por todas as doenças cardíacas isquêmicas diminuiu 81%, de 693 para 135 por 100.000 mortes.
· A mortalidade por IAM caiu 89%, de 354 para 40 por 100.000 mortes, enquanto a mortalidade por formas crônicas de doença cardíaca isquêmica diminuiu 71%, de 343 para 98 por 100.000 mortes.
· As taxas de mortalidade para outras formas de doença cardíaca aumentaram 81%, de 68 para 123 por 100.000 mortes. Os maiores saltos foram entre as mortes por insuficiência cardíaca, doença cardíaca hipertensiva e arritmias.
É importante ressaltar que o estudo teve algumas limitações, como por exemplo, os autores analisaram relatórios que registravam uma única causa básica de morte, portanto, seus dados podem não refletir as nuances na mortalidade por doenças cardíacas.
Além disso, as mudanças na forma como as doenças são definidas complicam as causas individuais de morte. Por exemplo, os limiares de pressão arterial para hipertensão diminuíram ao longo do tempo, o que significa que mais pessoas foram propensas a serem diagnosticadas e terem sua morte atribuída à hipertensão.
Em conclusão, King e colaboradores (2025) revelaram um cenário de mudanças na mortalidade por doenças cardíacas. Embora a mortalidade geral tenha diminuído, a natureza das mortes modificou-se. Uma descoberta fundamental foi o declínio substancial na mortalidade por doença cardíaca isquêmica, particularmente infarto agudo do miocárdio (IAM), ou ataque cardíaco. A mortalidade por IAM diminuiu 89% entre 1970 e 2022. Essa melhoria é atribuída a inovações médicas e iniciativas de saúde pública.
No entanto, o estudo também destaca um aumento na mortalidade por outras formas de doenças cardíacas, como insuficiência cardíaca, doença cardíaca hipertensiva e arritmias. Essa mudança sugeriu que, embora as pessoas estejam sobrevivendo a eventos isquêmicos agudos, elas estão vivendo mais com condições cardíacas crônicas.