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Publicado el 29 de junio de 2026

Disbiose cutânea

Microbioma cutâneo e dermatoses inflamatórias: da disbiose à dermatologia de precisão

Explore como a disbiose do microbioma cutâneo impulsiona a dermatite atópica, psoríase e acne. Wilkhoo et al., (2025) detalharam mecanismos moleculares, avanços em metagenômica e as novas terapias personalizadas que estão moldando o futuro da dermatologia de precisão.

Autor/a: Wilkhoo HS, Islam AW, Hussain S, Kadam SR, Rao ZK, Singh B.

Fuente: CosmoDerma. V. 5, N. 107, 2025. DOI: 10.25259/CSDM_99_2025 Skin microbiome and inflammatory dermatoses: A focused review

Introdução

A pele é reconhecida não apenas como uma barreira física passiva, mas como um ecossistema que abriga uma vasta gama de microrganismos. Esse conjunto, denominado microbioma cutâneo, desempenha funções vitais na manutenção da homeostase da pele. A sua disbiose pode ser o gatilho para diversas dermatoses inflamatórias. Condições como dermatite atópica, psoríase, acne vulgar, rosácea, dermatite seborreica e hidradenite supurativa apresentam variações distintas na composição e na diversidade de seus microbiomas.

Com objetivo de entender os padrões de disbiose de cada doença e, com isso, implementar estratégias diagnósticas e terapêuticas, Wilkhoo et al., (2025) realizaram uma revisão narrativa.

Microbioma cutâneo saudável

A pele é o segundo maior reservatório bacteriano do corpo humano, com uma estimativa de densidade bacteriana entre 104 e 106 microrganismos/cm2. A sua composição é predominante dominada por quatro filos: Actinobacteria (51,8%), Firmicutes (24,4%), Proteobacteria (16,5%) e Bacteroidetes (6,3%)

A microbiota residente desempenha um papel fundamental na manutenção da homeostase, pois contribui para a barreira química através da síntese de nutrientes vitais e da inibição do crescimento de patógenos. Além disso, esses microrganismos comensais são essenciais para a educação do sistema imunológico, permitindo a diferenciação entre organismos benéficos e ameaças patogênicas.

Um aspecto central do microbioma cutâneo é a sua especialização regional, moldada pela topografia e pelo ambiente químico de cada nicho ecológico. As comunidades microbianas são espacialmente distintas e influenciadas por fatores como exposição ultravioleta, temperatura, umidade, conteúdo de sebo e pH. Embora a composição seja amplamente conservada em sítios específicos, ela é altamente personalizada e pode ser modificada por variáveis intrínsecas e extrínsecas, incluindo idade, genética, etnia, clima e hábitos de higiene. A compreensão dessas variações e da ocupação microbiana em nichos específicos é crucial para entender a patogênese de doenças cutâneas que apresentam predileção por determinadas localizações anatômicas.

Disbiose do microbioma cutâneo nas doenças inflamatórias da pele

Na psoríase, a pele lesionada exibe uma assinatura microbiana distinta, com um aumento significativo na abundância de gêneros como Streptococcus, Staphylococcus e Corynebacterium (especialmente C. kroppenstedtii e C. simulans), paralelamente a uma redução de Cutibacterium e Lactobacillus. O mecanismo patogênico envolve a interação de comensais com queratinócitos, que produzem o peptídeo antimicrobiano LL-37. Em indivíduos predispostos, o complexo LL-37-DNA ativa células dendríticas plasmocitoides (pDCs), resultando na produção de interferon tipo I e na diferenciação de células Th17. Este eixo Th17, mediado pelas interleucinas IL-17 e IL-22, é o principal responsável pela formação das placas psoriásicas. Além disso, a presença de fungos como Malassezia sympodialis pode exacerbar o quadro ao estimular a proliferação de queratinócitos e a liberação de citocinas pró-inflamatórias como TNF-α e IL-6.

No caso da dermatite atópica, a disbiose é marcada por uma redução drástica na diversidade microbiana e pela sobrecolonização por Staphylococcus aureus, que está presente em até 70% das lesões e correlaciona-se diretamente com a gravidade da doença. Esse microrganismo utiliza padrões moleculares associados a patógenos (PAMPs) para ativar o receptor TLR2 na epiderme, induzindo a liberação de linfopoietina estromal tímica (TSLP) e desencadeando uma resposta inflamatória do tipo Th2. Além disso, toxinas bacterianas como as modulinas solúveis em fenol (PSMα) induzem queratinócitos a liberar IL-1α e IL-36α, recrutando neutrófilos e perpetuando a inflamação via IL-17. O prurido intenso, característica central da dermatite atópica, é mediado pela IL-31 (liberada por células Th2), que ativa canais iônicos nos neurônios sensoriais, exacerbando o ciclo "coceira-arranhadura" e comprometendo ainda mais a barreira cutânea.

Por fim, na acne vulgar, embora o Cutibacterium acnes seja um comensal comum, a predominância de filotipos patogênicos (como o IA1) e a perda de diversidade microbiana são cruciais para a patologia. Em um ambiente rico em sebo, o C. acnes utiliza lipases para hidrolisar triglicerídeos em ácidos graxos livres pró-inflamatórios. Essas cepas também possuem a capacidade de formar biofilmes dentro dos folículos pilossebáceos, o que aumenta sua sobrevivência e resistência aos tratamentos convencionais, além de induzir a liberação de vesículas extracelulares que estimulam citocinas inflamatórias pelos queratinócitos.

Abordagens diagnósticas e terapêuticas baseadas no microbioma

No campo do diagnóstico e tratamento das dermatoses inflamatórias, as abordagens baseadas no microbioma estão transformando a prática clínica ao oferecerem maior precisão e novas rotas terapêuticas. Um dos principais desafios reside no diagnóstico de infecções bacterianas secundárias em pacientes com dermatite atópica, uma vez que os sintomas clínicos (eritema, calor e edema) frequentemente se sobrepõem aos da própria doença, e a alta taxa de colonização por S. aureus torna as culturas de swab tradicionais pouco úteis. Para superar isso, a metagenômica shotgun destaca-se por permitir o perfilamento completo do DNA de todas as espécies em uma amostra, oferecendo uma resolução taxonômica superior para distinguir cepas próximas e possibilitando a análise funcional de genes ligados à virulência e ao metabolismo.

Em termos de intervenção, as estratégias estão migrando da erradicação microbiana indiscriminada para a modulação e o equilíbrio do ecossistema cutâneo. Os probióticos buscam restaurar esse equilíbrio e fortalecer a barreira cutânea através da competição direta com patógenos. Enquanto isso, os prebióticos fornecem compostos não digeríveis que estimulam seletivamente o crescimento de comensais benéficos. Por sua vez, os simbióticos combinam as duas abordagens para melhorar a persistência da colonização. Uma alternativa promissora são os pós-bióticos, compostos por metabólitos bacterianos que exercem efeitos anti-inflamatórios e imunomoduladores sem a necessidade de microrganismos vivos.

Para o futuro, acredita-se em uma mudança no paradigma do manejo: uma transição de tratamentos generalistas para uma abordagem de dermatologia de precisão. Descobertas recentes revelaram que o microbioma cutâneo não é apenas um conjunto de microrganismos, mas uma fonte ativa de peptídeos antimicrobianos, enzimas e moléculas de sinalização que influenciam diretamente a saúde local. Com base nisso, a ciência explora o uso de agentes microbianos vivos, os chamados comensais engenheirados, para prevenir ou tratar doenças como dermatite atópica, acne e hidradenite supurativa.

Atualmente, ensaios clínicos de fase inicial avaliaram a aplicação tópica de bactérias benéficas modificadas, como o Staphylococcus hominis, projetadas para expressar compostos antimicrobianos específicos que restauram o equilíbrio da microbiota e reduzem exacerbações. Diferente de produtos cosméticos "probióticos" convencionais, essas terapias são submetidas a rigorosos testes clínicos, onde fatores como a frequência das doses, o tipo de formulação e o local de administração são determinantes para garantir a eficácia a longo prazo.

A tecnologia desempenha um papel central nessa evolução, com a Inteligência Artificial (IA) e a bioinformática transformando a interpretação de dados complexos. Algoritmos de aprendizado de máquina estão sendo utilizados para mapear perfis microbianos individuais, prever riscos de doenças e identificar "impressões digitais microbianas" que indicam como um paciente responderá a determinado medicamento. Isso permite a criação de planos terapêuticos personalizados e baseados em dados genômicos reais.

Além disso, o futuro da dermatologia foca na resiliência do microbioma, priorizando a conservação de microrganismos benéficos e a redução do uso indiscriminado de antibióticos para mitigar o risco de resistência bacteriana. Estratégias inovadoras, como a terapia fágica (utilizando bacteriófagos para atingir seletivamente linhagens patogênicas de C. acnes) e o uso de pós-bióticos, têm demonstrado resultados promissores na redução da inflamação e na melhora da função de barreira cutânea.

Conclusão

A disbiose é um fator determinante na patogênese de condições como dermatite atópica, psoríase e acne vulgar. O avanço de tecnologias como a metagenômica e o uso de inteligência artificial estão permitindo uma transição de tratamentos de base ampla para uma dermatologia de precisão, focada na caracterização microbiana individual e em intervenções personalizadas. O futuro das terapias dermatológicas reside na modulação seletiva do ecossistema cutâneo por meio de estratégias inovadoras, como comensais engenheirados, pós-bióticos e terapia fágica, que visam restaurar a resiliência da barreira cutânea e garantir o manejo sustentável das dermatoses inflamatórias crônicas.