| Introdução |
A infecção por dengue é uma das doenças virais mais disseminadas no mundo, sendo transmitida por mosquitos e configurando-se como um relevante problema de saúde pública em mais de 100 países de regiões tropicais. Essa condição pode apresentar uma ampla gama de manifestações clínicas, desde casos assintomáticos ou febre leve e inespecífica até a febre clássica da dengue (FD) e formas graves, como a febre hemorrágica. Os sinais e sintomas típicos incluem febre alta, mialgia, artralgia, cefaleia intensa, dor retro-orbital e erupções cutâneas maculopapulares. Em alguns casos, os pacientes também podem apresentar sintomas inespecíficos, como náuseas, vômitos, tosse, tontura e diarreia.
Um achado laboratorial frequente na dengue é a imunossupressão, que pode predispor ao desenvolvimento de infecções secundárias, como a candidíase pseudomembranosa oral. Esta infecção fúngica é caracterizada pela presença de um revestimento branco pseudomembranoso ou placas isoladas, facilmente removíveis, que deixam áreas eritematosas expostas. Neste contexto, Fernandes e colaboradores (2020) publicaram um relatório que abordou manifestações orais incomuns observadas em um paciente com dengue, contribuindo para a ampliação do conhecimento sobre as possíveis complicações associadas à doença.
| Relato de caso |
Paciente do sexo feminino, 29 anos, foi encaminhada para avaliação de lesões orais com histórico de um dia de evolução. A paciente relatava dor intensa ao mastigar. Diagnosticada previamente com dengue, apresentava sinais e sintomas típicos da doença, como febre alta, cefaleia, mialgia e erupção cutânea. O exame clínico intraoral revelou múltiplas placas brancas localizadas no palato mole. As lesões apresentavam consistência macia e eram facilmente removíveis por raspagem, expondo mucosa eritematosa subjacente. Com base nesses achados, o diagnóstico foi de candidíase pseudomembranosa. Além disso, observou-se hiperplasia das papilas fungiformes, caracterizadas por edema e eritema, configurando papilite lingual transitória.
O tratamento para candidíase oral consistiu na administração de 5 mL de suspensão oral de nistatina (100.000 UI), quatro vezes ao dia, durante uma semana. Após três dias do início do tratamento, houve melhora significativa das lesões orais. Ao final de uma semana, não foram observados sinais de placas orais, e as papilas fungiformes retornaram ao aspecto normal. A paciente também relatou alívio completo da dor.

Figura. A: Pseudoplacas brancas no palato mole. B: Hiperplasia das papilas fungiformes (setas), com aspecto edematoso e eritematoso, caracterizando uma papilite lingual transitória. Imagem adaptada de Fernandes e colaboradores (2024).
| Discussão |
Os sinais relacionados à cavidade oral durante a infecção por dengue carecem de uma investigação mais aprofundada. Estima-se que o envolvimento da mucosa oral ocorra em cerca de 10% dos casos, sendo mais frequente em pacientes com dengue hemorrágica. Um estudo no sul da Ásia revelou candidíase orofaríngea em 18,2% de crianças com dengue, mesmo na ausência de condições imunossupressoras.
No caso descrito, além de candidíase oral, foi observada hiperplasia das papilas fungiformes, caracterizando papilite lingual transitória (TLP). Essa condição inflamatória abrupta manifesta-se por papilas edematosas e eritematosas, frequentemente acompanhadas de dor intensa e sensibilidade ao calor. Embora a etiologia da TLP permaneça incerta, fatores como infecções virais, estresse emocional e irritação local são apontados como possíveis desencadeantes. Este caso destacou a associação inédita entre DF e TLP, sugerindo que infecções virais, como a dengue, possam atuar como fatores precipitantes.
| Considerações finais |
Em casos de manifestações orais, como no relato anterior, é essencial realizar uma avaliação abrangente dos achados orais em pacientes com infecção por dengue, considerando a escassez desses relatos na literatura. É fundamental que dentistas e otorrinolaringologistas estejam atentos às diversas apresentações orais associadas à dengue, a fim de garantir um diagnóstico preciso e um tratamento eficaz para condições como candidíase oral ou outras alterações orais que possam surgir. Por fim, mais estudos são necessários para compreender essas interações e ampliar o conhecimento sobre as manifestações orais na dengue.