| Introdução |
A artrite reumatoide (AR) é a doença inflamatória articurlar crônica mais prevalente, caracterizada pela destruição gradual das articulações e pelo aumento do risco de comorbidades, principalmente doenças cardiovasculares. Alguns pacientes desenvolvem manifestações extra-articulares (ExRA), afetando outros tecidos e sistemas orgânicos, distintos das comorbidades que ocorrem nos mesmos sistemas. Além da maior mortalidade devido a comorbidades cardiovasculares ou pulmonares, as ExRA podem explicar as taxas de mortalidade excessivas.
Estima-se que entre 17,8% e 40,9% dos pacientes com AR apresentem ExRA, embora estudos acreditem que tenha sido observada uma diminuição nos últimos anos.
Fatores de risco para o desenvolvimento de ExRA incluem tabagismo, incapacidade precoce, erosões articulares, positividade para anticorpos como ANA e FR, e a presença do epítopo HLA-SE.
O tratamento precoce da AR visa alcançar remissão, o que poderia reduzir a incidência de ExRA, mas faltam estudos sobre a prevalência dessas manifestações com as terapias modernas. Por isso, Ljung e colaboradores (2024) realizaram um estudo com objetivo fornecer conhecimentos atualizados sobre a incidência de ExRA em uma coorte de pacientes consecutivos com AR precoce, avaliar os potenciais preditores para o desenvolvimento das manifestações e determinar se houve uma diminuição na incidência das ExRA como resultado dos regimes de tratamento modernos.
| Métodos |
Incluiu-se pacientes (n = 1468; 69% do sexo feminino, idade média (DP) de 57,3 (16,3) anos) consecutivamente na data do diagnóstico, entre 1º de janeiro de 1996 e 31 de dezembro de 2016, e avaliados prospectivamente. Em dezembro de 2016, o desenvolvimento de ExRA foi avaliado por meio de um questionário aos pacientes e revisão dos prontuários médicos. A incidência cumulativa e as taxas de incidência foram comparadas entre períodos de 5 anos e entre pacientes incluídos antes e após 1º de janeiro de 2001. Modelos de regressão de riscos proporcionais de Cox foram utilizados para identificar preditores das manifestações, e modelos com ExRA como variáveis dependentes do tempo para estimar a mortalidade.
| Resultados |
Após um seguimento médio (DP) de 9,3 (4,9) anos, 238 casos (23,3%) apresentaram ExRA e 151 (14,7%) tiveram essas sem nódulos reumatoides. A maioria das manifestações extra-articulares se desenvolveu dentro de 5 anos após o diagnóstico. Os nódulos reumatoides (10,5%) e a ceratoconjuntivite seca (7,1%) foram as manifestações mais frequentes, seguidas pela fibrose pulmonar (6,1%).
A incidência de ExRA entre os pacientes diagnosticados mais recentemente foi semelhante à incidência entre os pacientes diagnosticados antes de 2001. A idade de início da doença, a seropositividade, o tabagismo e o tratamento biológico precoce foram associados ao desenvolvimento de ExRA. Após 15 anos, 20% dos pacientes haviam experimentado manifestações extra-articulares. Essas foram associadas a uma maior mortalidade, com HR de 3,029 (IC 95%: 2,177–4,213).
| Conclusão |
Na coorte, mais de um em cada cinco pacientes desenvolveu ExRA, com a maior taxa de incidência nos primeiros 5 anos após o diagnóstico. Fatores relacionados à gravidade da doença, como FR, anticorpo anti-peptídeo citrulinado cíclico, hábitos de tabagismo e idade, foram fatores de risco para o desenvolvimento de ExRA, assim como o tratamento precoce com biológicos. As taxas de incidência foram semelhantes ao longo dos anos. Os resultados do estudo indicaram que as manifestações extra-articulares ainda são importantes causas de morbidade e mortalidade na AR, e o risco de desenvolvimento dessas deve ser considerado desde o momento do diagnóstico em pacientes com fatores prognósticos negativos.