A rinite alérgica (RA) apresenta-se como uma patologia de elevada prevalência na América Latina. Embora não ofereça risco iminente de morte, a doença exerce um impacto significativo e muitas vezes debilitante na qualidade de vida dos pacientes, afetando o sono e a produtividade tanto no ambiente escolar quanto no profissional.
Apesar do acúmulo de evidências sobre o impacto da doença e da existência de diversas diretrizes internacionais que buscam padronizar o seu tratamento, a RA ainda é frequentemente subestimada e subvalorizada. Diante desse panorama, questiona-se se as falhas no manejo decorrem da falta de recursos terapêuticos ou de lacunas no conhecimento dos médicos que assistem esses pacientes. Com base nisso, o estudo Conductas, Actitudes y Prácticas de la Sociedad Latinoamericana de Alergia e Inmunología (CAPRA-SLAAI) foi desenvolvido com o objetivo de avaliar o nível de conhecimento, as atitudes e as práticas de prescrição de alergistas e imunologistas latino-americanos no manejo da RA.
A população do estudo consistiu em médicos especialistas em alergia e imunologia clínica de diversos países da América Latina, todos filiados à Sociedad Latinoamericana de Alergia, Asma e Inmunología (SLAAI). O instrumento de coleta foi um questionário adaptado da versão em inglês do ARIA One Airways Questionnaire, o qual foi traduzido para o espanhol e para o português e validado para uso através do Método Delphi. Esse processo de validação envolveu a participação de 10 especialistas de diferentes países latino-americanos, garantindo que as questões selecionadas para o formulário final tivessem um consenso de aprovação superior a 70% entre eles.
O questionário foi implementado de forma digital através da plataforma Google Forms e distribuído aos membros da SLAAI via e-mail e sociedades locais. Estruturalmente, ele foi dividido em três blocos:
· o primeiro voltado para dados demográficos e profissionais, como: idade, tempo de especialidade, tipo de instituição de atuação e volume semanal de pacientes);
· o segundo focado no conhecimento sobre a RA e as diretrizes ARIA;
· e o terceiro dedicado às atitudes e práticas diagnósticas e terapêuticas.
Os critérios de inclusão estabelecidos foram a especialização em alergia e imunologia clínica, a filiação a uma das sociedades associadas à SLAAI, a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido digital e o preenchimento adequado das seções obrigatórias do questionário.
Os resultados foram baseados na análise de 784 questionários respondidos por especialistas de 24 países afiliados à SLAAI, com uma predominância marcante de participantes do Brasil (49,7%) e do México (25,8%). A média de idade dos respondentes foi de 50,1 anos, com a maioria atuando em serviços privados, embora o Brasil tenha apresentado uma participação significativamente maior de especialistas vinculados a hospitais universitários em comparação aos demais países.
No que diz respeito ao conhecimento técnico, a familiaridade com as diretrizes ARIA foi quase universal em toda a amostra. Contudo, observou-se uma baixa adoção de ferramentas digitais, pois apenas 41% dos especialistas conheciam o aplicativo MASK-air® e menos de 12% o utilizavam na prática diária. Entre os países, os especialistas brasileiros demonstraram níveis de conhecimento (32%) e uso (8,5%) menores do que os seus pares latino-americanos.
Em relação ao perfil clínico dos pacientes, não foram encontradas diferenças significativas na percepção dos sintomas clássicos (coriza, espirros e obstrução nasal) entre os grupos. No entanto, os especialistas brasileiros relataram uma frequência significativamente maior de sintomas extranasais, como prurido ocular, cefaleia e tosse, além de perceberem um impacto mais acentuado da doença na qualidade de vida, especificamente no sono e na prática de exercícios.
No campo diagnóstico, o estudo revelou contrastes importantes: enquanto no Brasil houve uma maior dependência de exames sorológicos (IgE total e específica) e da realização de rinoscopia anterior, nos demais países prevaleceu o uso de testes cutâneos (prick test) e de exames de imagem dos seios paranasais.
A abordagem terapêutica farmacológica mostrou-se alinhada às diretrizes globais, com o uso consistente de anti-histamínicos de segunda geração e corticosteroides intranasais por quase todos os profissionais. Entretanto, as preferências por compostos específicos variaram conforme a região: os médicos brasileiros prescrevem mais desloratadina, fexofenadina e bilastina, enquanto nos outros países predominam a cetirizina, levocetirizina e rupatadina. Padrão semelhante ocorreu com os corticoides tópicos, onde o Brasil demonstrou preferência por mometasona, budesonida e ciclesonida.
No tocante à imunoterapia alérgeno-específica, tanto a via subcutânea quanto a sublingual foram mais frequentes fora do Brasil, apesar de os especialistas brasileiros utilizarem extratos padronizados com maior regularidade. Além disso, os médicos desse país utilizaram um número menor de extratos por paciente e reportaram menos sensibilidade a pólens e fungos em comparação aos vizinhos latino-americanos.
Em conclusão, o estudo evidenciou que, embora as diretrizes internacionais sejam amplamente conhecidas, ainda existem contrastes regionais significativos no manejo da rinite alérgica na América Latina. Os achados ressaltaram a necessidade urgente de reduzir as disparidades e promover uma maior padronização das estratégias diagnósticas e terapêuticas na região. Entre as ações prioritárias, destacaram-se a importância de ampliar o conhecimento e o uso de ferramentas digitais, como o aplicativo MASK-air®, além de integrar a inteligência artificial para construir caminhos de cuidado mais personalizados e centrados no paciente.