Um adolescente de treze anos tem uma discussão com um dos pais. No passado, ele poderia ter se recolhido em seu quarto para se acalmar. Talvez escrevesse algumas linhas em um diário ou ligasse para um amigo para desabafar. Hoje, em vez disso, pode abrir um chatbot de inteligência artificial (IA) no celular.
Nesse caso, a tecnologia o escuta e valida seus sentimentos. Inclusive, pode até dar razão por ele estar com raiva. Mas o que acontece depois? O adolescente larga o celular para ter uma conversa difícil com seus pais ou o chatbot se torna um substituto para enfrentar e resolver o conflito com outra pessoa?
Essa questão está se tornando cada vez mais relevante à medida que os jovens recorrem à IA não apenas para obter ajuda com tarefas escolares, mas também para buscar aconselhamento sobre seus relacionamentos e sua própria saúde mental. Em um novo estudo com quase 40 mil estudantes do Canadá, publicado no JAMA Pediatrics, mais de 1 em cada 5 participantes relatou usar IA generativa para os chamados propósitos afetivos, incluindo apoio emocional ou aconselhamento.
Entre esses estudantes, que estavam entre o 4º ano do ensino fundamental e o último ano do ensino médio, com idade média próxima aos 13 anos, cerca de 58% apresentaram pontuações de problemas emocionais acima do limite clínico, em comparação com 29% daqueles que não relataram esse tipo de uso da IA.
Ainda assim, os resultados não demonstram que o uso de IA cause problemas emocionais. Em vez disso, os pesquisadores sugeriram que os jovens que já enfrentavam dificuldades emocionais podem ser mais inclinados a recorrer à IA.
Daphne Korczak, coautora do estudo, afirmou que o cenário do adolescente e de seus pais ilustra uma preocupação emergente que os profissionais de saúde podem precisar considerar: a IA está ajudando crianças e adolescentes a lidar com experiências difíceis ou está substituindo oportunidades de buscar apoio em outras pessoas?
É importante que os médicos de família, pediatras, professores e pais estejam cientes disso. É essencial que perguntem não apenas se os adolescentes estão usando a IA, mas por quê e de que forma.
| O apelo dos chatbots de IA |
Os resultados desse estudo realizado não foram um caso isolado. Embora tenha utilizado faixas etárias e metodologias ligeiramente diferentes, uma pesquisa representativa dos Estados Unidos com adolescentes e jovens adultos, publicada três meses antes na JAMA Pediatrics, apresentou resultados “notavelmente semelhantes”.
No estudo, cerca de 20% dos participantes relataram utilizar chatbots de IA para obter aconselhamento em saúde mental, e aqueles que o faziam tinham maior probabilidade de apresentar histórico de busca por ajuda profissional. Segundo ele, esse achado foi corroborado pelo estudo de Ontário, no qual estudantes que utilizavam IA para finalidades afetivas relatavam mais frequentemente sentimentos de solidão e a percepção de não serem importantes para os outros.
Por outro lado, outros estudos contam histórias bastante distintas. Um desenvolvedor de IA concluiu que apenas 0,07% dos usuários, em uma determinada semana, apresentavam possíveis sinais de emergências em saúde mental. Já a organização Common Sense Media relatou que 72% dos adolescentes já utilizaram chatbots de IA como “companheiros” ou amigos digitais. Isso pode demonstrar que a pesquisa sobre inteligência artificial e saúde mental está concentrada nos casos extremos de uso.
Situações intensas, como ideação suicida ou o desejo de machucar outras pessoas em episódios como ataques em escolas, representam os exemplos mais extremos de falha de um chatbot de IA. Por exemplo, recentemente, um adolescente de 16 anos morreu por suicídio após conversas com o ChatGPT da OpenAI. Segundo o pai do jovem, o chatbot não apenas o desencorajou a procurar ajuda dos pais, mas também se ofereceu para escrever sua carta de despedida. Além disso, em fevereiro, nos Estados Unidos, ocorreu um tiroteio em massa, no qual o adolescente responsável supostamente utilizava o ChatGPT como um confidente de confiança.
Embora esses exemplos sejam importantes, eles representam apenas uma pequena parte do cenário. Como são interações modestas, porém acumuladas, os impactos da IA poderão demorar semanas, meses ou anos e são muito sutis para serem quantificados.
Ainda assim, usar IA para esse tipo de finalidade, como pedir orientação sobre um conflito com os pais, tentar compreender uma emoção ou buscar tranquilização diante de um problema, pode ser especialmente atraente para crianças e adolescentes. Afinal, a IA está disponível 24 horas por dia, não exige agendamento, costuma ser gratuita e oferece uma característica que pode ser essencial para jovens em sofrimento: o anonimato. As pessoas podem se sentir mais à vontade para conversar com um chatbot sobre algo que teriam vergonha de contar aos pais ou a um profissional de saúde.
Essa acessibilidade pode ser ainda mais importante diante da escassez de profissionais de saúde mental em serviços pediátricos. Existem enormes lacunas no sistema tradicional de saúde mental e é perfeitamente possível que a IA já esteja ajudando a preenchê-las de maneiras confiáveis e valiosas.
De fato, alguns estudos demonstraram que a IA pode fornecer apoio adequado em saúde mental. Ferramentas online como Therabot e Woebot, que utilizam princípios da terapia cognitivo-comportamental, podem reduzir sintomas de depressão e ansiedade. Além disso, pesquisas indicRAam que até mesmo breves conversas por texto com chatbots de IA podem diminuir esses escores de sofrimento emocional.
Um estudo apontou que o uso da IA por crianças para finalidades afetivas pode inclusive ser menos prejudicial do que outras aplicações, como o auxílio em tarefas escolares. As evidências mostram que utilizar tecnologia para auxílio em tarefas escolares leva à terceirização dos processos cognitivos. Isso é problemático para o desempenho acadêmico no longo prazo, mas ainda não sabemos se é igualmente problemático para a saúde mental.
| Benefício, risco ou ambos? |
O problema dos chatbots de IA é que nunca está totalmente claro qual versão deles o usuário encontrará. Em um caso, o chatbot pode reconhecer sinais precoces de psicose e incentivar uma criança a buscar ajuda. Em outro, um adolescente pode dizer que não quer ir à escola porque está se sentindo ansioso, e o chatbot pode sugerir que ele fique em casa. Esse conselho “soa compassivo”, mas um clínico não diria isso a uma criança, porque, no caso da ansiedade, a evitação pode reforçar o problema.
Essa incerteza faz parte do que torna tão complexa a presença da IA na vida emocional dos jovens. Em seu ensaio recente, o cofundador da Microsoft, Bill Gates, levantou uma preocupação existencial: companheiros virtuais que estão sempre disponíveis e são projetados para concordar com o usuário podem privar as crianças das frustrações cotidianas e dos desafios interpessoais pelos quais desenvolvem habilidades sociais. Ele comparou esse tipo de chatbot a uma “grande estufa protegida”, um ambiente em que as crianças podem ficar resguardadas das experiências que as ajudam a aprender a lidar com o mundo. Em uma entrevista posterior, Gates expressou preocupação com um futuro em que uma criança possa crescer tendo “quatro ou cinco melhores amigos, todos eles robôs e nenhum deles humano”.
Pode parecer algo distante da realidade, mas, basta pensar nos problemas comuns da adolescência: se um jovem está tentando entender por que se sente de determinada forma, o que vestir para uma festa ou como lidar com uma interação desconfortável, ele pode recorrer diretamente à IA. Em vez de pensar: “Vou conversar sobre isso com outras pessoas ou refletir por conta própria”, ele pode simplesmente pensar: “Vou perguntar ao ChatGPT e receber um conselho”. Isso substitui o processo de lidar com essas questões de maneiras que talvez contribuíssem para um maior amadurecimento ou para uma formação mais sólida da própria identidade ao longo do tempo.
No entanto, o uso da tecnologia pode trazer benefícios significativos com riscos relativamente modestos. Nesses casos, o chatbot ajuda a identificar se as experiências relatadas merecem atenção adicional e direciona o usuário para recursos confiáveis, como um terapeuta ou um adulto de confiança. Essa porta de entrada para o cuidado humano pode ser a aplicação mais útil da IA na saúde mental.
Publicado el 28 de octubre de 2026
Mais de 1 em cada 5 crianças relata usar IA para apoio emocional. Isso é uma boa ou uma má notícia?
Novo estudo com quase 40 mil estudantes do Canadá, publicado no JAMA Pediatrics, mais de 1 em cada 5 participantes relatou usar IA generativa para os chamados propósitos afetivos, incluindo apoio emocional ou aconselhamento.
Autor/a: Schweitzer K.
Fuente: JAMA. 2026;336(16):1393–1395. doi:10.1001/jama.2026.19502 More Than 1 in 5 Children Report Using AI for Emotional Support—Is It Good News or Bad?
Um adolescente de treze anos tem uma discussão com um dos pais. No passado, ele poderia ter se recolhido em seu quarto para se acalmar. Talvez escrevesse algumas linhas em um diário ou ligasse para um amigo para desabafar. Hoje, em vez disso, pode abrir um chatbot de inteligência artificial (IA) no celular.
Nesse caso, a tecnologia o escuta e valida seus sentimentos. Inclusive, pode até dar razão por ele estar com raiva. Mas o que acontece depois? O adolescente larga o celular para ter uma conversa difícil com seus pais ou o chatbot se torna um substituto para enfrentar e resolver o conflito com outra pessoa?
Essa questão está se tornando cada vez mais relevante à medida que os jovens recorrem à IA não apenas para obter ajuda com tarefas escolares, mas também para buscar aconselhamento sobre seus relacionamentos e sua própria saúde mental. Em um novo estudo com quase 40 mil estudantes do Canadá, publicado no JAMA Pediatrics, mais de 1 em cada 5 participantes relatou usar IA generativa para os chamados propósitos afetivos, incluindo apoio emocional ou aconselhamento.
Entre esses estudantes, que estavam entre o 4º ano do ensino fundamental e o último ano do ensino médio, com idade média próxima aos 13 anos, cerca de 58% apresentaram pontuações de problemas emocionais acima do limite clínico, em comparação com 29% daqueles que não relataram esse tipo de uso da IA.
Ainda assim, os resultados não demonstram que o uso de IA cause problemas emocionais. Em vez disso, os pesquisadores sugeriram que os jovens que já enfrentavam dificuldades emocionais podem ser mais inclinados a recorrer à IA.
Daphne Korczak, coautora do estudo, afirmou que o cenário do adolescente e de seus pais ilustra uma preocupação emergente que os profissionais de saúde podem precisar considerar: a IA está ajudando crianças e adolescentes a lidar com experiências difíceis ou está substituindo oportunidades de buscar apoio em outras pessoas?
É importante que os médicos de família, pediatras, professores e pais estejam cientes disso. É essencial que perguntem não apenas se os adolescentes estão usando a IA, mas por quê e de que forma.
Os resultados desse estudo realizado não foram um caso isolado. Embora tenha utilizado faixas etárias e metodologias ligeiramente diferentes, uma pesquisa representativa dos Estados Unidos com adolescentes e jovens adultos, publicada três meses antes na JAMA Pediatrics, apresentou resultados “notavelmente semelhantes”.
No estudo, cerca de 20% dos participantes relataram utilizar chatbots de IA para obter aconselhamento em saúde mental, e aqueles que o faziam tinham maior probabilidade de apresentar histórico de busca por ajuda profissional. Segundo ele, esse achado foi corroborado pelo estudo de Ontário, no qual estudantes que utilizavam IA para finalidades afetivas relatavam mais frequentemente sentimentos de solidão e a percepção de não serem importantes para os outros.
Por outro lado, outros estudos contam histórias bastante distintas. Um desenvolvedor de IA concluiu que apenas 0,07% dos usuários, em uma determinada semana, apresentavam possíveis sinais de emergências em saúde mental. Já a organização Common Sense Media relatou que 72% dos adolescentes já utilizaram chatbots de IA como “companheiros” ou amigos digitais. Isso pode demonstrar que a pesquisa sobre inteligência artificial e saúde mental está concentrada nos casos extremos de uso.
Situações intensas, como ideação suicida ou o desejo de machucar outras pessoas em episódios como ataques em escolas, representam os exemplos mais extremos de falha de um chatbot de IA. Por exemplo, recentemente, um adolescente de 16 anos morreu por suicídio após conversas com o ChatGPT da OpenAI. Segundo o pai do jovem, o chatbot não apenas o desencorajou a procurar ajuda dos pais, mas também se ofereceu para escrever sua carta de despedida. Além disso, em fevereiro, nos Estados Unidos, ocorreu um tiroteio em massa, no qual o adolescente responsável supostamente utilizava o ChatGPT como um confidente de confiança.
Embora esses exemplos sejam importantes, eles representam apenas uma pequena parte do cenário. Como são interações modestas, porém acumuladas, os impactos da IA poderão demorar semanas, meses ou anos e são muito sutis para serem quantificados.
Ainda assim, usar IA para esse tipo de finalidade, como pedir orientação sobre um conflito com os pais, tentar compreender uma emoção ou buscar tranquilização diante de um problema, pode ser especialmente atraente para crianças e adolescentes. Afinal, a IA está disponível 24 horas por dia, não exige agendamento, costuma ser gratuita e oferece uma característica que pode ser essencial para jovens em sofrimento: o anonimato. As pessoas podem se sentir mais à vontade para conversar com um chatbot sobre algo que teriam vergonha de contar aos pais ou a um profissional de saúde.
Essa acessibilidade pode ser ainda mais importante diante da escassez de profissionais de saúde mental em serviços pediátricos. Existem enormes lacunas no sistema tradicional de saúde mental e é perfeitamente possível que a IA já esteja ajudando a preenchê-las de maneiras confiáveis e valiosas.
De fato, alguns estudos demonstraram que a IA pode fornecer apoio adequado em saúde mental. Ferramentas online como Therabot e Woebot, que utilizam princípios da terapia cognitivo-comportamental, podem reduzir sintomas de depressão e ansiedade. Além disso, pesquisas indicRAam que até mesmo breves conversas por texto com chatbots de IA podem diminuir esses escores de sofrimento emocional.
Um estudo apontou que o uso da IA por crianças para finalidades afetivas pode inclusive ser menos prejudicial do que outras aplicações, como o auxílio em tarefas escolares. As evidências mostram que utilizar tecnologia para auxílio em tarefas escolares leva à terceirização dos processos cognitivos. Isso é problemático para o desempenho acadêmico no longo prazo, mas ainda não sabemos se é igualmente problemático para a saúde mental.
O problema dos chatbots de IA é que nunca está totalmente claro qual versão deles o usuário encontrará. Em um caso, o chatbot pode reconhecer sinais precoces de psicose e incentivar uma criança a buscar ajuda. Em outro, um adolescente pode dizer que não quer ir à escola porque está se sentindo ansioso, e o chatbot pode sugerir que ele fique em casa. Esse conselho “soa compassivo”, mas um clínico não diria isso a uma criança, porque, no caso da ansiedade, a evitação pode reforçar o problema.
Essa incerteza faz parte do que torna tão complexa a presença da IA na vida emocional dos jovens. Em seu ensaio recente, o cofundador da Microsoft, Bill Gates, levantou uma preocupação existencial: companheiros virtuais que estão sempre disponíveis e são projetados para concordar com o usuário podem privar as crianças das frustrações cotidianas e dos desafios interpessoais pelos quais desenvolvem habilidades sociais. Ele comparou esse tipo de chatbot a uma “grande estufa protegida”, um ambiente em que as crianças podem ficar resguardadas das experiências que as ajudam a aprender a lidar com o mundo. Em uma entrevista posterior, Gates expressou preocupação com um futuro em que uma criança possa crescer tendo “quatro ou cinco melhores amigos, todos eles robôs e nenhum deles humano”.
Pode parecer algo distante da realidade, mas, basta pensar nos problemas comuns da adolescência: se um jovem está tentando entender por que se sente de determinada forma, o que vestir para uma festa ou como lidar com uma interação desconfortável, ele pode recorrer diretamente à IA. Em vez de pensar: “Vou conversar sobre isso com outras pessoas ou refletir por conta própria”, ele pode simplesmente pensar: “Vou perguntar ao ChatGPT e receber um conselho”. Isso substitui o processo de lidar com essas questões de maneiras que talvez contribuíssem para um maior amadurecimento ou para uma formação mais sólida da própria identidade ao longo do tempo.
No entanto, o uso da tecnologia pode trazer benefícios significativos com riscos relativamente modestos. Nesses casos, o chatbot ajuda a identificar se as experiências relatadas merecem atenção adicional e direciona o usuário para recursos confiáveis, como um terapeuta ou um adulto de confiança. Essa porta de entrada para o cuidado humano pode ser a aplicação mais útil da IA na saúde mental.