A rinossinusite crônica com pólipos nasais (RSCPN) afeta 2% a 4% da população e apresenta grande desafio no manejo clínico devido à alta refratariedade e recorrência. O tratamento padrão inclui corticosteroides orais, eficazes porém limitados por efeitos adversos sistêmicos, e sprays nasais, que possuem melhor perfil de segurança, mas pouca eficácia em casos com pólipos volumosos devido à baixa penetração na mucosa inflamada.
A cirurgia endoscópica funcional dos seios paranasais (CEFSP) é indicada quando os sintomas persistem apesar da terapia medicamentosa para remover pólipos, restaurar a ventilação sinonasal e aumentar a deposição de medicamentos tópicos. Após o procedimento, a irrigação nasal com corticosteroides diluídos em solução salina é uma terapia adjuvante consolidada por oferecer maior volume, melhor distribuição e maior biodisponibilidade local do que sprays.
Estudos sugeriram que pacientes ainda não operados, mas refratários ao uso de sprays, também poderiam se beneficiar da irrigação nasal com corticosteroides, devido à maior cobertura do medicamento sem elevar os riscos sistêmicos. No entanto, essa intervenção ainda é pouco estudada.
Diante disso, o estudo de Sant'Ana e colaboradores (2026) comparou o efeito da budesonida vs. irrigação nasal com solução salina em pacientes com RSCPN cirurgia sinusal prévia, avaliando a melhora dos sintomas a curto prazo.
O estudo duplo-cego foi conduzido em pacientes com RSCPN tipo 2 difusa randomizados para receber irrigação nasal com 1 mg de budesonida ou soro fisiológico, duas vezes ao dia, por quatro semanas.
O desfecho primário foi a mudança no Sino-Nasal Outcome Test de 22 itens (SNOT-22), enquanto os secundários incluíram a Escala Visual Analógica (VAS), o Nasal Polyp Score (NPS) e o teste olfatório de Connecticut (CCCRC).
Foram randomizados 52 participantes e 43 completaram o acompanhamento, 26 no grupo budesonida e 17 no grupo placebo, sem uso relatado de corticosteroides de resgate. Após quatro semanas, o desfecho primário (SNOT-22) mostrou melhora média de −33,2 pontos no grupo budesonida e −15,1 pontos no placebo, favorecendo significativamente a budesonida.
Uma melhora clinicamente significativa foi observada em 73,1% dos pacientes tratados com budesonida, em comparação com 30,8% no placebo. Entre os desfechos secundários, a VAS também mostrou maior benefício com budesonida, com melhora média de −3,53 pontos contra −1,29 no placebo, além de maior proporção de pacientes atingindo a Minimal Clinically Important Difference (MCID), 76,9% vs. 50,0%.
O NPS apresentou redução média de −0,67 no grupo budesonida e −0,06 no placebo, com diferença de 0,73 pontos e maior taxa de melhora clínica. O teste CCCRC não mostrou diferença estatística entre grupos, apesar de maior proporção de melhora clínica no grupo budesonida (42,3% vs. 23,1%).
A pontuação de Lund–Mackay foi maior no grupo budesonida do que no placebo, com valores de 15,7 e 12,8, respectivamente, sugerindo maior gravidade inicial da doença no grupo intervenção, embora sem diferença significativa.
Em relação à segurança, a frequência de eventos adversos foi similar entre os grupos, sendo cefaleia o evento mais comum no grupo budesonida e ocorrendo apenas um episódio autolimitado de epistaxe, sem necessidade de interrupção do tratamento.
Em resumo, a irrigação nasal com budesonida é uma terapia eficaz e bem tolerada para pacientes com rinossinusite crônica com pólipos nasais que não passaram por cirurgia, melhorando a qualidade de vida e reduzindo o tamanho dos pólipos. Os resultados do estudo apoiaram seu uso como uma opção prática e baseada em evidências tanto no manejo inicial quanto em pacientes para os quais a cirurgia não é imediatamente viável.