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Publicado el 1 de julio de 2026

Saúde cardiovascular e ritmo circadiano

Irregularidade no horário de deitar dobra o risco de eventos cardíacos em adultos com sono curto

Nauha et al., (2026) demonstraram que a irregularidade no horário de deitar e no ponto médio do sono está associada a um risco duas vezes maior de eventos cardíacos adversos maiores.

Autor/a: Nauha, L., Niemelä, M., Azadifar, S. et al.

Fuente: BMC Cardiovasc Disorders, V. 26, N. 299, 2026 Sleep timing irregularity in midlife: association with incident major adverse cardiac events and cardiovascular disease mortality over a 10-year follow-up

O ritmo circadiano interno desempenha um papel fundamental na biologia humana, sendo responsável por regular processos essenciais como o sono, o metabolismo e a função cardiovascular. Estudos indicaram que interrupções no alinhamento circadiano foram associadas a prejuízos na saúde cardiometabólica, incluindo alterações na pressão arterial, níveis lipídicos e diabetes tipo 2.

Embora a prática de atividade física e a manutenção de uma duração adequada de sono sejam pilares reconhecidos para a redução do risco de doenças cardiovasculares (DCV) e mortalidade, a saúde do sono deve ser compreendida como um conceito multidimensional. Segundo a American Heart Association, além da duração e qualidade, fatores como a regularidade, o timing, a continuidade, a satisfação e a arquitetura do sono são elementos essenciais para a integridade da função cardiovascular. Por exemplo, um estudo evidenciou que variações acentuadas na duração do sono foram ligadas a um maior risco de infarto do miocárdio e acidente vascular encefálico, independentemente de predisposições genéticas.

Atualmente, a crescente disponibilidade de dispositivos vestíveis (wearables) abriu novas possibilidades para a avaliação dos comportamentos de sono no cotidiano, permitindo o desenvolvimento de métricas de regularidade, como o índice de regularidade do sono e o desvio padrão (DP) do tempo de sono. Contudo, muitas dessas métricas são índices compostos que não isolam componentes comportamentais específicos. Para preencher essa lacuna e Nauha et al., (2026) investigaram se as medidas de regularidade do tempo de sono seriam capazes de predizer a incidência de eventos cardíacos adversos maiores (MACEs) e a mortalidade por DCV em uma população de meia-idade.

Para isso, os autores utilizaram dados da Coorte de Nascimento do Norte da Finlândia de 1966. Para a coleta de dados, os participantes foram submetidos a exames clínicos, responderam a questionários detalhados e utilizaram acelerômetros de pulso (Polar Active) continuamente por 14 dias para o monitoramento objetivo da atividade física e dos padrões de sono. A regularidade do sono foi operacionalizada através do desvio padrão (DP) de sete dias consecutivos para três métricas principais: o horário de deitar, o horário de acordar e o ponto médio do sono. Com base nessa variabilidade, os indivíduos foram classificados em tercis de regularidade: regulares, moderadamente regulares e irregulares.

O desfecho clínico primário foi a incidência de MACE, que englobou infarto agudo do miocárdio, angina instável, acidente vascular encefálico (AVE), hospitalização por insuficiência cardíaca ou óbito por causas cardiovasculares. O período de acompanhamento estendeu-se até dezembro de 2023, utilizando registros nacionais de saúde da Finlândia para garantir a precisão dos dados de morbidade e mortalidade. Na análise estatística, foram aplicados modelos de riscos proporcionais de Cox para calcular as razões de risco (HR), ajustando-os por covariáveis como sexo, status de emprego, índice de massa corporal (IMC), pressão arterial sistólica, hemoglobina glicada, colesterol LDL e nível total de atividade física.

Devido à constatação de que a duração do sono influenciava a proporcionalidade dos riscos, os pesquisadores optaram por estratificar as análises pela mediana da duração do sono do grupo, definida em 7 horas e 56 minutos. Foram também realizadas análises de sensibilidade para conferir robustez aos resultados, as quais incluíram a exclusão de trabalhadores em turnos e de eventos ocorridos nos primeiros dois anos de seguimento, visando minimizar possíveis vieses de causalidade reversa.

A amostra final do estudo compreendeu 3.231 participantes (39,5% homens) de meia-idade, acompanhados por um período mediano de 130,1 meses (aproximadamente 10,8 anos). Durante esse intervalo, foram registrados 128 MACEs, o que representa uma incidência cumulativa de 4,0% na coorte analisada. Os participantes que apresentaram desfechos cardiovasculares negativos exibiram, na linha de base, perfis de risco mais elevados, caracterizados por maiores medianas de IMC (28,2 kg/m²), pressão arterial sistólica (131,0 mmHg), hemoglobina glicada (5,6 mmol/mol) e níveis de colesterol LDL (3,7 mmol/L), em comparação com o controle. Curiosamente, não foram observadas diferenças estatisticamente significativas nas médias de horário de deitar, acordar ou duração do sono entre os dois grupos.

A análise principal revelou que a irregularidade do sono foi um preditor significativo de risco cardiovascular, mas essa associação foi observada exclusivamente no subgrupo com duração de sono abaixo da mediana (≤ 7 horas e 56 minutos). Nesse estrato, indivíduos com horários de deitar irregulares apresentaram um risco 2,01 vezes maior de MACE em comparação com aqueles com horários regulares. De forma semelhante, a irregularidade no ponto médio do sono foi associada a um risco 2,00 vezes superior. Em contrapartida, a variabilidade no horário de acordar não demonstrou associação significativa com a incidência de eventos cardíacos em nenhum dos estratos de duração do sono.

Os resultados mantiveram-se robustos mesmo após análises de sensibilidade. Ao excluir os trabalhadores em turnos, a associação negativa entre a irregularidade no horário de deitar e a saúde cardiovascular tornou-se ainda mais pronunciada entre os que dormiam menos que a mediana. Além disso, a exclusão de eventos ocorridos nos primeiros dois anos de acompanhamento não alterou os achados principais, minimizando a probabilidade de causalidade reversa. Entre os participantes com duração de sono acima da mediana (> 7 horas e 56 minutos), nenhuma métrica de irregularidade de timing do sono foi associada de forma significativa ao risco de MACE ou mortalidade cardiovascular.

Em conclusão, a variabilidade no horário de deitar e no ponto médio do sono foram preditores significativos de risco cardiovascular, particularmente em indivíduos com duração de sono inferior à mediana da amostra (aproximadamente 8 horas). Nesses casos, a irregularidade foi associada a um risco aproximadamente duas vezes maior de MACE, independentemente de outros fatores de risco, enquanto a variabilidade no horário de acordar não demonstrou impacto significativo nos desfechos clínicos. Notavelmente, a associação entre irregularidade e risco de MACE não foi observada em participantes que dormiam mais de 8 horas, o que sugere que uma duração de sono adequada pode atuar como um fator protetor, aumentando a resiliência fisiológica contra os efeitos deletérios da instabilidade circadiana. Portanto, para a prática clínica e promoção da saúde, os resultados ressaltraam que a manutenção de rotinas de sono consistentes, com ênfase especial na regularidade do horário de deitar, deve ser considerada uma meta terapêutica relevante para a redução do risco cardiovascular em adultos de meia-idade.