Candida auris é um fungo emergente com alta capacidade em colonizar tanto a pele humana quanto superfícies abióticas, incluindo dispositivos médicos. Sua identificação errônea, compreensão limitada, resistência a antifúngicos e significativa morbidade e mortalidade representam desafios críticos para a prestação de cuidados eficazes aos pacientes.
Estudos com modelos ex vivo de pele suína e humana, além de modelos de camundongos, demonstraram a capacidade de C. auris de manter a colonização ao longo do tempo e formar biofilmes multicamadas quando exposto ao suor humano, além de residir dentro dos folículos capilares e penetrar camadas profundas da pele, tornando sua detecção clínica ainda mais desafiadora.
Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o C. auris como um patógeno crítico, ressaltando a necessidade urgente de priorizar pesquisas para aprimorar o diagnóstico, tratamento e prognóstico dos pacientes afetados.
| Fatores de risco e manifestações clínicas |
Os principais fatores de risco para colonização e infecções invasivas por C. auris incluem:
· Idade avançada;
· Presença de dispositivos médicos permanentes (cateteres venosos ou urinários centrais);
· Condições coexistentes (diabetes mellitus e doença renal crônica ou neoplásica);
· Nutrição parental total;
· Ventilação mecânica;
· Hemodiálise;
· Estados imunocomprometidos;
· Tratamento recente com antibióticos ou agentes antifúngicos, e entre outros.
Pacientes podem ser colonizados sem apresentar sinais ou sintomas clínicos, sendo a pele, principalmente nas narinas, axilas e virilha, o local mais comum de colonização. Quando a infecção se torna invasiva, manifesta-se principalmente como candidemia, com ou sem sepse associada, e pode ser fatal, com taxas brutas de mortalidade variando entre 30% e 60%.
| Diagnóstico |
O padrão ouro para diagnóstico de C. auris envolve testes baseados em cultura de espécimes clínicos ou de triagem, sendo fundamental o isolamento da espécie para avaliação da suscetibilidade antifúngica. A identificação precisa é realizada por espectrometria de massas de ionização por dessorção a laser assistida por matriz–tempo de voo (MALDI-TOF). Métodos moleculares como a sequenciação da região D1–D2 do DNA ribossômico 28S (rDNA) ou das regiões espaçadoras transcritas internas do rDNA também são altamente confiáveis. Ensaios de reação em cadeia da polimerase (PCR) em tempo real apresentam sensibilidade elevada, sendo capazes de detectar pequenas quantidades de C. auris em amostras clínicas, com limites de detecção tão baixos quanto 1 a 10 unidades formadoras de colônias. Métodos como o PCR quantitativo TaqMan (qPCR), qPCR SYBR Green e o ensaio de ressonância magnética T2 são promissores para triagem de pacientes colonizados, com resultados disponíveis em poucas horas.
| Tratamento |
As recomendações atuais do Centers for Disease Control and Prevention dos Estados Unidos (CDC) desencorajam o uso de antifúngicos em pacientes colonizados por Candida auris sem evidências de infecção clínica. No entanto, em casos de candidemia por essa bactéria, o tratamento antifúngico deve ser iniciado imediatamente.
Para infecções por C. auris em adultos e crianças a partir de dois meses de idade, o tratamento recomendado são as equinocandinas. Em pacientes pediátricos, caspofungina e micafungina são as opções preferidas, devido à escassez de dados farmacocinéticos e farmacodinâmicos sobre anidulafungina nessa faixa etária. Em neonatos e bebês com menos de dois meses, o desoxicolato de anfotericina B é a primeira escolha, podendo ser substituído por uma formulação lipídica caso não haja resposta clínica.
O acompanhamento rigoroso dos pacientes é essencial para garantir a resolução da infecção invasiva, visto que pode ocorrer resistência primária às equinocandinas. Além disso, a hemocultura de acompanhamento deve ser realizada para confirmar a eliminação da candidemia, e qualquer nova cepa isolada precisa ser submetida a testes repetidos de suscetibilidade.
Adicionalmente, azólicos, como fluconazol, voriconazol ou posaconazol, devem ser considerados apenas como terapia de manutenção após uma resposta clínica satisfatória ao tratamento inicial com equinocandina, e somente para pacientes infectados com cepas suscetíveis.
> Resistência fúngica
A resistência de C. auris a antifúngicos está associada aos clados I, III e IV, que são os principais responsáveis por infecções invasivas multirresistentes em nível global. A resistência ao fluconazol, por exemplo, está frequentemente relacionada a mutações no gene ERG11, que codifica a lanosterol 14α-desmetilase, alvo do medicamento. Aproximadamente 90% das cepas desses clados apresentam resistência ao fluconazol, enquanto o clado II mostra menor resistência. Além disso, cerca de 30% dos isolados dos clados I e IV demonstram resistência à anfotericina B.
O rápido surgimento e disseminação global de C. auris multirresistente reforçam a necessidade urgente de intensificar medidas de controle contra esse patógeno oportunista. Isso pode impulsionar a descoberta de novos alvos terapêuticos, o desenvolvimento de antifúngicos inovadores, terapias imunológicas adjuvantes e até vacinas. Aprimorar testes diagnósticos não baseados em cultura, como qPCR, pode facilitar a identificação precoce e precisa da colonização e infecção por C. auris. Por fim, definir estratégias eficazes para diagnóstico, prevenção e tratamento dessas infecções é essencial para conter sua disseminação e melhorar os desfechos clínicos.