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/ Publicado el 5 de abril de 2026

Transmissão vertical

Infecção pelo vírus Oropouche na gestação

Evidências emergentes, epidemiologia, manifestações clínicas, diagnóstico e impactos maternos‑fetais.

Autor/a: Braga, A. et al.

Fuente: he Journal of Maternal-Fetal & Neonatal Medicine, 39(1).

A infecção pelo vírus Oropouche (OROV) tem se tornado cada vez mais relevante no Brasil, causando surtos principalmente no Norte e Nordeste. Sua apresentação clínica é caracterizada por uma doença febril aguda que mimetiza clinicamente outras arboviroses endêmicas, o que contribui para um cenário de subdiagnóstico e lacunas na vigilância epidemiológica.

Em gestantes, evidências sugeriram possível associação da infecção por OROV com aborto espontâneo, natimortalidade e anomalias congênitas, levantando a suspeita de transmissão vertical.

Epidemiologia

Estimativas indicaram um total de 9,4 milhões de infecções pelo OROV na América Latina e o Caribe, entre 19960 e 2025. O Brasil correspondeu pela maioria dos casos, com aproximadamente 5,5 milhões.  Embora a região amazônica seja historicamente endêmica, a incidência atual tem sido particularmente alta em estados como Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraíba e Ceará, afetando predominantemente adultos na faixa etária de 20 a 49 anos.

Em relação à transmissão vertical, foram confirmados cinco casos no Brasil até 2025. Destes, quatro resultaram em óbito fetal e um em anomalias congênitas. Há, adicionalmente, mais de 30 desfechos gestacionais adversos sob investigação, incluindo relatos de anomalias do sistema nervoso central após infecção materna.

Transmissão e manifestações clínicas

A febre do Oropouche é transmitida principalmente pelo maruim Culicoides paraensis, comum em áreas úmidas e ribeirinhas, mas o mosquito Culex quinquefasciatus também pode atuar na transmissão, sobretudo em ambientes urbanos, onde o ser humano se torna o principal reservatório. A infecção geralmente se manifesta após 1 a 10 dias de incubação.

 Os sintomas mais comuns incluem febre alta e súbita, cefaleia intensa, mialgia, artralgia migratória, náuseas, vômitos, dor abdominal e diarreia. Manifestações como dor retro-orbital, prurido e exantema podem ocorrer, mas de forma menos específica. Quadros respiratórios leves (tosse, congestão, odinofagia) podem levar à confusão com síndromes gripais.

A doença costuma ser autolimitada, com duração de 2 a 7 dias, porém até 60% das pacientes podem apresentar recorrência dos sintomas (febre, dor de cabeça e articulares) após resolução inicial. Embora a maioria evolua bem, gestantes fazem parte de um grupo que requer maior atenção devido ao risco potencial de complicações. Casos de transmissão vertical incluem desfechos como morte fetal, comprometimento neurológico e anomalias congênitas, sugerindo neurotropismo e possível teratogenicidade, em padrão semelhante ao observado com Zika vírus.

Relatos de casos graves em gestantes incluem piora clínica associada a respostas inflamatórias sistêmicas, coagulopatia e disfunção de múltiplos órgãos, embora sejam eventos raros. Diante disso, é essencial que o OROV seja considerado no diagnóstico diferencial de febre aguda na gestação, especialmente em cenários de cocirculação de arboviroses. Ademais, essas pacientes devem ser monitoradas com vigilância obstétrica intensificada.

Fisiopatologia

Modelos animais mostraram que o OROV apresenta neurotropismo, podendo causar lesão hepática e acometimento do sistema nervoso central, com altas cargas virais detectadas no cérebro. A resposta imune humana parece ser variável: alguns indivíduos produzem anticorpos IgM e IgG precocemente no curso da doença, enquanto outros soroconvertem mais tardiamente. Além disso, há forte ativação de interferons tipo I, o que pode limitar a replicação viral, mas também dificultar a detecção durante a gestação. Estudos in vitro sugeriram tropismo por linfócitos T CD4 e células dendríticas, indicando possível impacto imunológico relevante na gravidez.

Diagnóstico, notificação compulsória e vigilância epidemiológica

O diagnóstico se dá através de testes laboratoriais: a reação em cadeia da polimerase com transcrição reversa (RT‑PCR) é o método de escolha nos primeiros 7 dias; após esse período, a sorologia (IgM e soroconversão) torna-se mais útil. Em pacientes com manifestações neurológicas, recomenda-se análise do líquido cefalorraquidiano (LCR) por RT‑PCR para investigação de infecção do SNC.

Em gestantes, a investigação deve começar com uma avaliação epidemiológica detalhada, incluindo viagem ou residência em áreas endêmicas. Para o diagnóstico, elas devem ser submetidas a painéis RT-PCR multiplex, que incluam OROV, Dengue, Zika, Chikungunya e Mayaro. Quando houver suspeita de transmissão vertical, a investigação deve se estender à análise do líquido amniótico (via amniocentesis), placenta, cordão umbilical e amostras do neonato, como sangue e LCR. deve-se realizar a triagem concomitante para patógenos do grupo STORCH (sífilis, toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus e herpes) para garantir uma avaliação etiológica precisa de possíveis anomalias congênitas ou perdas fetais

Em recém-nascidos com anomalias congênitas, devem ser coletadas amostras de sangue ou soro tanto da mãe quanto do neonato, além de fragmentos de placenta e do cordão umbilical. Nos casos de óbito fetal, recomenda-se a realização de necropsia com coleta de múltiplos tecidos para RT‑PCR e análise histopatológica, a fim de confirmar infecção e esclarecer a etiologia do desfecho.

Desde 2023, a febre do Oropouche tornou-se de notificação compulsória imediata no Brasil, devido à rápida expansão e ao risco epidêmico. A notificação é obrigatória para toda gestante com suspeita ou confirmação de infecção, bem como para fetos ou recém-nascidos com malformações do sistema nervoso central sem causa definida, e óbitos fetais associados a possível infecção materna por arbovírus.

Desfechos adversos na gestação

Em gestantes, respostas inflamatórias podem desencadear parto prematuro, síndromes hipertensivas, disfunção hepática ou renal, e, raramente, encefalite ou meningoencefalite. A transmissão vertical parece ocorrer por via hematogênica transplacentária, sendo detectado RNA viral em placenta, líquido amniótico e tecidos fetais. Entre os desfechos fetais relatados estão aborto, RCIU, morte fetal, microcefalia, malformações de SNC e óbito neonatal.

Infecções no primeiro trimestre parecem ter maior risco, mas lesões fetais também foram descritas em infecções tardias. A síndrome congênita associada ao Oropouche pode apresentar um fenótipo próprio, parcialmente semelhante ao Zika, mas com características distintas de neuroimagem.

Um aspecto distintivo da infecção congênita por OROV é o seu acentuado neurotropismo, resultando em uma ampla gama de malformações do SNC. Os achados incluem microcefalia, ventriculomegalia, atrofia cerebral, agenesia ou disgenesia do corpo caloso, cistos porencefálicos e anomalias da fossa posterior. Além das alterações neurológicas, foram descritos achados extracranianos, como artrogripose e defeitos oculares (microftalmia e atrofia coriorretiniana).

Prevenção

Na ausência de vacina ou tratamento antiviral específico, a prevenção depende de medidas de redução da exposição aos vetores, como uso de roupas compridas, telas de proteção em portas e janelas, ar-condicionado, ventiladores e repelentes aprovados. A circulação do C. paraensis é maior ao amanhecer e entardecer, sendo recomendado evitar atividades externas nesses períodos, especialmente em áreas rurais e agrícolas.

Gestantes devem reconsiderar viagens não essenciais a regiões com alerta de circulação viral e adotar rigorosamente medidas de proteção quando a viagem for inevitável. Casos suspeitos devem adiar doação de sangue por quatro semanas, e, por precaução, recomenda-se uso de preservativos ou abstinência por seis semanas após a infecção, embora a transmissão sexual não esteja comprovada. O controle ambiental, como remoção de resíduos orgânicos em áreas domiciliares, é fundamental para reduzir criadouros do vetor. Vacinas experimentais estão em desenvolvimento, mas ainda não estão disponíveis para uso público.

Conclusão

A infecção pelo OROV emerge como uma ameaça relevante à saúde materna e fetal, com evidências crescentes de transmissão vertical, morte fetal e anomalias congênitas. A sobreposição clínica com outras arboviroses dificulta o diagnóstico e a vigilância, e, na ausência de testes rápidos, vacinas ou antivirais, a prevenção e o aumento da suspeição clínica tornam-se essenciais, especialmente em populações vulneráveis. É fundamental incorporar o OROV aos protocolos de vigilância pré-natal, aos diagnósticos diferenciais de infecções congênitas e às agendas de pesquisa, além de ampliar capacidades laboratoriais e registros regionais para orientar práticas clínicas baseadas em evidências e reduzir o impacto da infecção na gestação.


Fonte: Full article: Oropouche virus infection in pregnancy: emerging evidence on vertical transmission and perinatal outcomes