A infecção pelo vírus Oropouche (OROV) tem se tornado cada vez mais relevante no Brasil, causando surtos principalmente no Norte e Nordeste. Sua apresentação clínica é caracterizada por uma doença febril aguda que mimetiza clinicamente outras arboviroses endêmicas, o que contribui para um cenário de subdiagnóstico e lacunas na vigilância epidemiológica.
Em gestantes, evidências sugeriram possível associação da infecção por OROV com aborto espontâneo, natimortalidade e anomalias congênitas, levantando a suspeita de transmissão vertical.
| Epidemiologia |
Estimativas indicaram um total de 9,4 milhões de infecções pelo OROV na América Latina e o Caribe, entre 19960 e 2025. O Brasil correspondeu pela maioria dos casos, com aproximadamente 5,5 milhões. Embora a região amazônica seja historicamente endêmica, a incidência atual tem sido particularmente alta em estados como Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraíba e Ceará, afetando predominantemente adultos na faixa etária de 20 a 49 anos.
Em relação à transmissão vertical, foram confirmados cinco casos no Brasil até 2025. Destes, quatro resultaram em óbito fetal e um em anomalias congênitas. Há, adicionalmente, mais de 30 desfechos gestacionais adversos sob investigação, incluindo relatos de anomalias do sistema nervoso central após infecção materna.
| Transmissão e manifestações clínicas |
A febre do Oropouche é transmitida principalmente pelo maruim Culicoides paraensis, comum em áreas úmidas e ribeirinhas, mas o mosquito Culex quinquefasciatus também pode atuar na transmissão, sobretudo em ambientes urbanos, onde o ser humano se torna o principal reservatório. A infecção geralmente se manifesta após 1 a 10 dias de incubação.
Os sintomas mais comuns incluem febre alta e súbita, cefaleia intensa, mialgia, artralgia migratória, náuseas, vômitos, dor abdominal e diarreia. Manifestações como dor retro-orbital, prurido e exantema podem ocorrer, mas de forma menos específica. Quadros respiratórios leves (tosse, congestão, odinofagia) podem levar à confusão com síndromes gripais.
A doença costuma ser autolimitada, com duração de 2 a 7 dias, porém até 60% das pacientes podem apresentar recorrência dos sintomas (febre, dor de cabeça e articulares) após resolução inicial. Embora a maioria evolua bem, gestantes fazem parte de um grupo que requer maior atenção devido ao risco potencial de complicações. Casos de transmissão vertical incluem desfechos como morte fetal, comprometimento neurológico e anomalias congênitas, sugerindo neurotropismo e possível teratogenicidade, em padrão semelhante ao observado com Zika vírus.
Relatos de casos graves em gestantes incluem piora clínica associada a respostas inflamatórias sistêmicas, coagulopatia e disfunção de múltiplos órgãos, embora sejam eventos raros. Diante disso, é essencial que o OROV seja considerado no diagnóstico diferencial de febre aguda na gestação, especialmente em cenários de cocirculação de arboviroses. Ademais, essas pacientes devem ser monitoradas com vigilância obstétrica intensificada.
| Fisiopatologia |
Modelos animais mostraram que o OROV apresenta neurotropismo, podendo causar lesão hepática e acometimento do sistema nervoso central, com altas cargas virais detectadas no cérebro. A resposta imune humana parece ser variável: alguns indivíduos produzem anticorpos IgM e IgG precocemente no curso da doença, enquanto outros soroconvertem mais tardiamente. Além disso, há forte ativação de interferons tipo I, o que pode limitar a replicação viral, mas também dificultar a detecção durante a gestação. Estudos in vitro sugeriram tropismo por linfócitos T CD4 e células dendríticas, indicando possível impacto imunológico relevante na gravidez.
| Diagnóstico, notificação compulsória e vigilância epidemiológica |
O diagnóstico se dá através de testes laboratoriais: a reação em cadeia da polimerase com transcrição reversa (RT‑PCR) é o método de escolha nos primeiros 7 dias; após esse período, a sorologia (IgM e soroconversão) torna-se mais útil. Em pacientes com manifestações neurológicas, recomenda-se análise do líquido cefalorraquidiano (LCR) por RT‑PCR para investigação de infecção do SNC.
Em gestantes, a investigação deve começar com uma avaliação epidemiológica detalhada, incluindo viagem ou residência em áreas endêmicas. Para o diagnóstico, elas devem ser submetidas a painéis RT-PCR multiplex, que incluam OROV, Dengue, Zika, Chikungunya e Mayaro. Quando houver suspeita de transmissão vertical, a investigação deve se estender à análise do líquido amniótico (via amniocentesis), placenta, cordão umbilical e amostras do neonato, como sangue e LCR. deve-se realizar a triagem concomitante para patógenos do grupo STORCH (sífilis, toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus e herpes) para garantir uma avaliação etiológica precisa de possíveis anomalias congênitas ou perdas fetais
Em recém-nascidos com anomalias congênitas, devem ser coletadas amostras de sangue ou soro tanto da mãe quanto do neonato, além de fragmentos de placenta e do cordão umbilical. Nos casos de óbito fetal, recomenda-se a realização de necropsia com coleta de múltiplos tecidos para RT‑PCR e análise histopatológica, a fim de confirmar infecção e esclarecer a etiologia do desfecho.
Desde 2023, a febre do Oropouche tornou-se de notificação compulsória imediata no Brasil, devido à rápida expansão e ao risco epidêmico. A notificação é obrigatória para toda gestante com suspeita ou confirmação de infecção, bem como para fetos ou recém-nascidos com malformações do sistema nervoso central sem causa definida, e óbitos fetais associados a possível infecção materna por arbovírus.
| Desfechos adversos na gestação |
Em gestantes, respostas inflamatórias podem desencadear parto prematuro, síndromes hipertensivas, disfunção hepática ou renal, e, raramente, encefalite ou meningoencefalite. A transmissão vertical parece ocorrer por via hematogênica transplacentária, sendo detectado RNA viral em placenta, líquido amniótico e tecidos fetais. Entre os desfechos fetais relatados estão aborto, RCIU, morte fetal, microcefalia, malformações de SNC e óbito neonatal.
Infecções no primeiro trimestre parecem ter maior risco, mas lesões fetais também foram descritas em infecções tardias. A síndrome congênita associada ao Oropouche pode apresentar um fenótipo próprio, parcialmente semelhante ao Zika, mas com características distintas de neuroimagem.
Um aspecto distintivo da infecção congênita por OROV é o seu acentuado neurotropismo, resultando em uma ampla gama de malformações do SNC. Os achados incluem microcefalia, ventriculomegalia, atrofia cerebral, agenesia ou disgenesia do corpo caloso, cistos porencefálicos e anomalias da fossa posterior. Além das alterações neurológicas, foram descritos achados extracranianos, como artrogripose e defeitos oculares (microftalmia e atrofia coriorretiniana).
| Prevenção |
Na ausência de vacina ou tratamento antiviral específico, a prevenção depende de medidas de redução da exposição aos vetores, como uso de roupas compridas, telas de proteção em portas e janelas, ar-condicionado, ventiladores e repelentes aprovados. A circulação do C. paraensis é maior ao amanhecer e entardecer, sendo recomendado evitar atividades externas nesses períodos, especialmente em áreas rurais e agrícolas.
Gestantes devem reconsiderar viagens não essenciais a regiões com alerta de circulação viral e adotar rigorosamente medidas de proteção quando a viagem for inevitável. Casos suspeitos devem adiar doação de sangue por quatro semanas, e, por precaução, recomenda-se uso de preservativos ou abstinência por seis semanas após a infecção, embora a transmissão sexual não esteja comprovada. O controle ambiental, como remoção de resíduos orgânicos em áreas domiciliares, é fundamental para reduzir criadouros do vetor. Vacinas experimentais estão em desenvolvimento, mas ainda não estão disponíveis para uso público.
| Conclusão |
A infecção pelo OROV emerge como uma ameaça relevante à saúde materna e fetal, com evidências crescentes de transmissão vertical, morte fetal e anomalias congênitas. A sobreposição clínica com outras arboviroses dificulta o diagnóstico e a vigilância, e, na ausência de testes rápidos, vacinas ou antivirais, a prevenção e o aumento da suspeição clínica tornam-se essenciais, especialmente em populações vulneráveis. É fundamental incorporar o OROV aos protocolos de vigilância pré-natal, aos diagnósticos diferenciais de infecções congênitas e às agendas de pesquisa, além de ampliar capacidades laboratoriais e registros regionais para orientar práticas clínicas baseadas em evidências e reduzir o impacto da infecção na gestação.