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Publicado el 15 de marzo de 2026

Danos capilares

Impactos dos alisantes químicos na haste capilar

Revisão dos últimos 20 anos analisou os efeitos estruturais, químicos e clínicos dos alisantes capilares e seus impactos na saúde da haste e do couro cabeludo.

Autor/a: Hatsbach de Paula, J. N. et al.

Fuente: An Bras Dermatol. 2022;97:193---203 Effects of chemical straighteners on the hair shaft and scalp.

A haste capilar é composta por três camadas —medula, córtex e cutícula — formadas principalmente por queratina, uma proteína rica em cisteína e estruturada por ligações químicas que determinam a resistência e a forma natural dos fios, podendo ser modificadas por processos químicos de alisamento.

Os alisamentos podem ser progressivos, geralmente realizados com substâncias de caráter ácido, que oferecem resultados temporários, ou definitivos, que utilizam compostos alcalinos capazes de alterar de forma permanente a estrutura da fibra tratada. No Brasil, a popularização das “escovas progressivas” envolveu inicialmente o uso de formaldeído e glutaraldeído, substâncias tóxicas não autorizadas pela Anvisa. Além disso, passaram a ser utilizados compostos que liberam formaldeído mediante aquecimento, como metilenoglicol, ácido glioxílico e ácido timonácico.

Os alisantes tradicionalmente regulamentados incluem ácido tioglicólico e seus sais, ésteres de ácido tioglicólico, hidróxido de sódio, lítio ou potássio, hidróxido de cálcio associado a sal de guanidina, sulfitos e bissulfitos inorgânicos, comumente conhecidos como relaxantes. Esses compostos, classificados entre lye (à base de hidróxido de sódio), no-lye, tioglicolato de amônia e bissulfitos, atuam rompendo e reorganizando as ligações internas da queratina para produzir o efeito liso.

Diante desse contexto, a revisão de De Paula e colaboradores (2022) identificou as alterações causadas por esses agentes tanto na haste capilar quanto no couro cabeludo, uma vez que o uso de alisantes químicos pode provocar danos estruturais aos fios, como ressecamento, fragilidade, quebra, perda de elasticidade, além de irritações e queimaduras no couro cabeludo e possíveis riscos toxicológicos.

Foi realizada busca com palavras-chave nas bases de dados Pubmed, Lilacs e Scielo, publicações entre janeiro de 2000 a maio de 2020. Após a aplicação de critérios de inclusão e exclusão, 33 artigos foram selecionados para revisão.

O formaldeído é um sensibilizante reconhecido e pode desencadear dermatite de contato alérgica progressiva, com quadros de eczema no couro cabeludo, face e regiões adjacentes. Houve relatos de apresentações psoriasiformes após procedimentos como a escova progressiva brasileira, com eritema, descamação e pústulas, além de padrões histopatológicos espongióticos e psoriasiformes, indicando mecanismos de dano que ultrapassam irritação primária.

Em relação à haste capilar, tanto o formaldeído quanto o ácido glioxílico promovem redução da resistência mecânica, da massa capilar e da capacidade de retenção hídrica. Estudos demonstraram aumento da irregularidade cuticular após exposição ao formaldeído, especialmente quando associado a fontes térmicas, enquanto o ácido glioxílico se mostrou ainda mais prejudicial. Apesar de alguns efeitos cosméticos imediatos, como brilho e aspecto alinhado, a microscopia eletrônica revelou danos estruturais, depósitos superficiais temporários e alterações como clareamento e queda capilar.

Hidróxido de sódio, hidróxido de cálcio, hidróxido de guanidina e tioglicolato de amônia, também foram associados a múltiplos efeitos adversos, como: frizz acentuado, descamação do couro cabeludo, enfraquecimento progressivo dos fios, discromias, tricoptilose e perda de cabelo. Em populações de uso frequente, queimaduras químicas e alopecia não cicatricial ou cicatricial são complicações comuns. Além disso, ocorrências agudas, como dermatite irritativa severa seguida de infecções bacterianas e abscessos, já foram descritas em indivíduos expostos a hidróxidos.

O risco de alopecia cicatricial, especialmente a Alopecia Cicatricial Central Centrífuga (ACCC), também foi amplamente estudado. Embora alguns trabalhos indiquem maior frequência de uso de alisantes entre pacientes com alopecias cicatriciais, ainda não há comprovação causal direta. Estudos comparativos também mostraram maior exposição prévia a alisantes nesse grupo em relação a indivíduos com alopecia não cicatricial.

Outras evidências sugeriram que o uso precoce desses produtos pode aumentar a chance de progressão para formas mais avançadas de alopecia. Em crianças e adolescentes, o uso de relaxantes associado a penteados com forte tração eleva de forma significativa o risco de alopecia de tração.

Sabe-se que a resposta aos alisantes varia conforme a etnia e a morfologia do fio. Cabelos chineses mostraram maior suscetibilidade ao dano cuticular com tioglicolato, enquanto fios afro podem ser mais resistentes a danos químicos combinados, embora o uso repetido aumente alterações estruturais como tricorrexe nodosa. No entanto, independentemente do tipo de cabelo, a microscopia eletrônica confirma maior desorganização cuticular e dano cumulativo após procedimentos químicos.

A combinação de alisantes com tinturas, descolorações ou calor intenso aumenta substancialmente o dano capilar, levando à perda proteica, alterações do córtex e desprendimento cuticular, especialmente quando procedimentos são feitos em sequência. Em nível molecular, relaxantes podem reduzir o teor de cistina, elevar produtos oxidativos e gerar desidroalanina, indicando comprometimento estrutural da haste. Além disso, marcadores inflamatórios como IL‑1 e PGE2 se elevam após a exposição, sugerindo contribuição para a irritação do couro cabeludo.

Em resumo, as evidências disponíveis mostraram que os alisantes capilares apresentam potencial de causar danos cumulativos à haste e ao couro cabeludo, incluindo alterações estruturais, químicas e inflamatórias. Embora agentes condicionantes possam atenuar parte desses efeitos, sua real influência na segurança e na eficácia dos procedimentos ainda é incerta. A revisão dos últimos 20 anos demonstrou a ocorrência frequente de inflamação clínica e subclínica, fragilidade e fratura dos fios, com perda capilar associada, enquanto os efeitos em longo prazo permanecem pouco esclarecidos. Diante disso, é fundamental que profissionais de saúde da área reconheçam os riscos e benefícios relacionados ao uso de alisantes químicos.