A infecção anogenital pelo papilomavírus humano (HPV) é atualmente a doença sexualmente transmissível mais comum. Embora as mulheres sejam mais afetadas pelos efeitos virais, os homens também estão suscetíveis a esses.
Enquanto aguardam a vacinação, homens cujas parceiras do sexo feminino apresentam lesão cervical devem ser rastreados clínica ou virologicamente para reduzir o risco de recorrência/persistência da lesão cervical e o desenvolvimento de uma lesão de alto grau nos homens.
Em casais onde a mulher tem infecção cervical por HPV, a prevalência no homem depende se o rastreamento é clínico ou virológico. A peniscopia detecta lesões clínicas em 20–60% dos casos enquanto os esfregaços genitais com genotipagem em 2–80%.
Como a infecção por HPV pode se resolver espontaneamente sem intervenção, a genotipagem positiva não indica a necessidade de tratamento imediato do paciente ou de seus parceiros sexuais. No entanto, as lesões assintomáticas são consideradas uma importante fonte de transmissão contínua para parceiras do sexo feminino, e podem aumentar o risco de lesão intraepitelial de baixo e alto grau (LSIL e HSIL, respectivamente), com potencial para evoluir a câncer cervical.
Com objetivo de fornecer uma visão geral da sociedade para propor o rastreamento do HPV em homens, Aynaud e colaboradores (2025) investigaram a concordância entre lesões histológicas do vírus em homens e LSIL/HSIL cervical em suas parceiras do sexo feminino.
Entre fevereiro de 2022 e dezembro de 2023, 196 mulheres foram diagnosticadas com 125 LSIL cervical histologicamente confirmadas e 71 HSIL no Centro de Colposcopia Operatória. Todos os parceiros masculinos foram submetidos à peniscopia, combinado com meatoscopia para procurar lesões do meato uretral. Lesões induzidas por HPV foram diagnosticadas pelos critérios clínicos de lesões maculopapulares acetobrancas, pigmentadas, leucoplásticas ou mesmo eritroplásticas e verrucosas. Quando suspeitas, as amostras foram levadas à biopsia para histologia.
A idade média das mulheres e dos homens foi de 33,4 e 35,6 anos, respectivamente. As lesões identificadas por HPV por peniscopia foram histologicamente comprovadas em 33% dos casos. As lesões eram completamente assintomáticas, únicas ou não muito extensas, acetobrancas, pigmentadas ou fracamente eritroplásticas. Em 6% dos homens sem lesões identificadas, dermatose genital (líquen escleroso, lesões psoriasiformes ou liquenoides, balanite inespecífica) foi diagnosticada clinicamente sem biópsia.
Os autores observaram que prevalência de lesão intraepitelial peniana aumentou em 8% se a parceira tivesse HSIL cervical. Além disso, os parceiros masculinos de mulheres com HSIL cervical tinham duas vezes mais probabilidade de ter uma lesão peniana pelo vírus do que os de mulheres com LSIL cervical.
Ademais, os homens tinham duas vezes mais probabilidade de ter ou desenvolver HSIL no pênis quando suas parceiras tinham HSIL no colo do útero. Essa infecção cruzada entre parceiros frequentemente leva à infecção persistente do vírus e aumenta a probabilidade de desenvolver lesões de alto grau cervicais e penianas. O rastreamento clínico no parceiro masculino é importante no contexto da prevenção do risco de recorrência de lesões cervicais pelo vírus.
Em conclusão, um homem cuja parceira tem HSIL cervical tem duas vezes mais probabilidade de ter HSIL peniano do que se sua parceira tivesse LSIL cervical. Esses resultados destacaram a importância do rastreamento de lesões por HPV em homens, bem como em mulheres, para reduzir a transmissão e as complicações associadas a esta infecção viral.