O câncer de endométrio é a sétima neoplasia mais comum entre mulheres. Embora o diagnóstico tradicionalmente dependa do exame histopatológico, a histeroscopia (HSC) oferece visualização em tempo real de alterações macroscópicas endometriais. Como um procedimento minimamente invasivo, ela permite a inspeção direta da cavidade uterina. Consequentemente, tanto a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia quanto as diretrizes da European Society of Gynaecological Oncology/ European Society of Human Reproduction and Embryology/ European Society for Gynaecological Endoscopy (ESGO/ESHRE/ESGE) endossaram esse procedimento como o método preferido. Apesar disso, persistem preocupações sobre a segurança oncológica da histeroscopia, especificamente, se a pressão do fluido durante o procedimento pode causar disseminação peritoneal de células malignas e se a citologia peritoneal positiva (CPP) aumenta o risco metastático ou afeta adversamente a progressão da doença.
Por isso, Pivazyan e colaboradores (2025) realizaram uma revisão sistemática com objetivo de avaliar a segurança da histeroscopia na investigação diagnóstica do câncer de endométrio, com foco em seu impacto potencial nos achados da citologia peritoneal e nos resultados oncológicos subsequentes.
Para isso, eles realizaram uma revisão sistemática e meta-análise e utilizaram o PubMed, a Cochrane Library, o ClinicalTrials.gov, o Google Scholar e o MEDLINE como banco de dados. Eles elegeram estudos que incluíram mulheres com câncer de endométrio confirmado que foram submetidas à histeroscopia e que foram publicados até abril de 2025. O resultado primário foi citologia peritoneal positiva (CPP) enquanto os secundários foram sobrevivência livre de doença (DFS) e sobrevivência global (OS).
No total, 23 estudos com 8.141 participantes foram incluídos na revisão sistemático. Destes, dois eram ensaios clínicos randomizados e o restante eram estudos de coorte retrospectivos. Das pacientes, 3.076 foram submetidas à HSC e 5.065 foram submetidas à biópsia endometrial, dilatação e curetagem ou amostragem por Pipelle sem histeroscopia e formaram o grupo controle.
Para a síntese quantitativa da incidência de CPP, 22 estudos foram incluídos. Nesses, ocorreram 293 eventos no grupo HSC versus 812 no grupo controle. Embora a estimativa tenha sugerido um aumento potencial na CPP após a histeroscopia, isso não atingiu significância estatística. Ao analisar apenas os estudos prospectivos, não foi observada uma diferença estatisticamente significativa da CPP entre os grupos. Sendo assim, a histeroscopia não aumentou significativamente o risco de citologia peritoneal positiva em pacientes com câncer de endométrio.
Ademais, os autores realizaram uma análise de subgrupo de estudos nos quais a pressão intrauterina durante a histeroscopia excedeu 100 mmHg. A análise agrupada revelou um aumento significativo nas taxas de CPP entre pacientes submetidas a histeroscopia versus controles. Sendo assim, pressões intrauterinas acima de 100 mmHg podem aumentar a probabilidade de detectar citologia peritoneal positiva, apoiando a hipótese de que a pressão excessiva do fluido pode promover a disseminação trans tubária de células malignas para a cavidade peritoneal.
Outra análise de subgrupo foi realizada em estudos que relataram explicitamente manter a pressão intrauterina em ou abaixo de 100 mmHg durante a histeroscopia. Os resultados não mostraram diferença estatisticamente significativa nas taxas de CPP entre os grupos, sendo assim, os achados sugeriram que quando a pressão intrauterina é adequadamente controlada (≤100 mmHg), a histeroscopia não aumenta significativamente o risco de CPP.
Para a análise da DFS, doze estudos foram incluídos. Os resultados não demonstraram diferenças significativas entre os grupos, sugerindo que a histeroscopia não afetou adversamente o risco de recorrência em pacientes com câncer de endométrio. Para a OF, nova estudos indicaram que não houve diferença significativa nos resultados de sobrevida entre os grupos.
Em conclusão, Pivazyan e colaboradores (2025) ofereceram evidências de que a histeroscopia não afeta adversamente os principais resultados oncológicos em pacientes com câncer de endométrio. Embora houvesse uma tendência não significativa para aumento da citologia peritoneal positiva, nenhuma diminuição correspondente na sobrevida livre de doença ou sobrevida global foi observada.
Dado sua alta precisão diagnóstica e perfil de segurança favorável, a histeroscopia continua sendo uma ferramenta valiosa na avaliação pré-operatória do câncer de endométrio, particularmente quando realizada com pressão intrauterina controlada e acompanhamento cirúrgico oportuno. Embora mais estudos prospectivos sejam necessários para elucidar o significado biológico da citologia peritoneal positiva, as evidências atuais não justificam evitar o procedimento apenas por motivos de segurança oncológica.