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/ Published on February 2, 2026

Células-tronco mesenquimais

Avanços da terapia celular na rinite alérgica

Novas estratégias, desafios e perspectivas para o uso de células-tronco mesenquimais (MSCs) e seus derivados no manejo clínico da rinite alérgica.

Introdução

rinite alérgica (RA) é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas que afeta até 40% da população mundial, causando sintomas como espirros, obstrução nasal e impacto significativo na qualidade de vida. Apesar das terapias convencionais (farmacológicas, imunoterapia e cirurgia) parte dos pacientes permanecem refratários, destacando a necessidade de abordagens inovadoras.

 A RA resulta de uma resposta imune do tipo 2 desregulada, com ativação de células dendríticas, diferenciação de linfócitos Th2 e produção de citocinas, que promovem síntese de IgE, recrutamento de eosinófilos e ativação de mastócitos, levando à inflamação e disfunção da barreira epitelial. Nesse contexto, as células-tronco mesenquimais (MSCs) surgem como uma estratégia promissora devido à sua baixa imunogenicidade e potente efeito imunomodulador para restaurar a tolerância imunológica e controlar a resposta alérgica.

Embora os resultados em modelos animais sejam positivos, ainda não existem ensaios clínicos em humanos, por isso, o estudo de Ye e colaboradores (2025) visou compreender melhor esses mecanismos para viabilizar futuras aplicações terapêuticas.

Mecanismo das MSCs no tratamento da RA

As células-tronco mesenquimais exercem efeito imunomodulador fundamental na RA, corrigindo o desequilíbrio entre subpopulações de linfócitos T e regulando a resposta inflamatória. Estudos pré-clínicos demonstraram que essas células são capazes de reduzir IgE, eosinofilia e inflamação nasal por mecanismos como restauração do equilíbrio Th1/Th2, promoção da expansão de células T reguladoras (Treg), indução da conversão de macrófagos pró-inflamatórios M1 para o fenótipo anti-inflamatório M2 e recuperação da integridade da barreira epitelial.

A imunomodulação ocorre por três vias principais: contato celular direto, liberação de fatores solúveis e secreção de vesículas extracelulares (exossomos). Outro mecanismo relevante é a modulação de macrófagos, onde MSCs aumentam a produção de TSG-6, promovendo a transição de M1 para M2, reduzindo inflamação e dano tecidual.

Mecanismos de imunomodulação por liberação de fatores solúveis

MSCs liberam mediadores como TGF-β, IL-10, PGE2, IDO, HGF, NO, TSG-6, IL-6, LIF, HLA-G5 e IL1RA que reduzem inflamação, restauram a barreira epitelial e equilibram a resposta Th1/Th2. Esses fatores suprimem a ativação de linfócitos T e regulam vias inflamatórias, contribuindo para controle da hiperatividade Th2 típica da rinite alérgica.

Via TGF-β/Smad

O TGF-β ativa a via Smad, induzindo a expressão de FOXP3 e promovendo diferenciação de células T naïve em Tregs, fundamentais para tolerância imunológica. Além disso, inibe células T efetoras e reduz citocinas pró-inflamatórias (IL-4, IL-5), restaurando o equilíbrio Th1/Th2 e controlando respostas alérgicas.

Via de sinalização prostaglandina E2 (PGE2)

Ao se ligar aos receptores EP2 e EP4 em células imunes, a PGE2 ativa a adenilato ciclase, aumentando os níveis de cAMP e ativando a proteína quinase A (PKA). Esse mecanismo inibe fatores de transcrição pró-inflamatórios, como NF-κB, reduzindo citocinas inflamatórias e favorecendo citocinas anti-inflamatórias. Além disso, a PGE2 promove a polarização de macrófagos para o perfil M2 (anti-inflamatório), inibe a diferenciação de monócitos em células dendríticas e diminui a expressão de moléculas coestimuladoras (CD40, CD80, CD86), reduzindo a capacidade de apresentação de antígenos e atenuando respostas Th2.

Via IDO/Quinurenina

A indoleamina 2,3-dioxigenase (IDO), secretada por MSCs, degrada triptofano em quinurenina, reduzindo a disponibilidade desse aminoácido essencial para a proliferação de linfócitos T. Além disso, a quinurenina ativa o receptor AhR, favorecendo a diferenciação de Tregs e suprimindo respostas Th17 e Th2. A IDO também induz células dendríticas tolerogênicas, com menor expressão de moléculas coestimuladoras e maior produção de citocinas anti-inflamatórias.

Mecanismos de imunorregulação mediados por exossomos

Os exossomos liberados por essas regulam células envolvidas na resposta alérgica, como ILC2, DCs, Tregs e Th2, inibindo a ativação de vias inflamatórias e promovendo tolerância imunológica. Além disso, essas vesículas secretadas são ricas em miRNAs imunorreguladores, como o miR-21-5p, que reduz a migração de células dendríticas, e o miR-146a-5p, que inibe a ativação das ILC2 e a diferenciação de células Th2. Esse último atua suprimindo a expressão de SERPINB2, proteína que favorece a via GATA3 e a produção de citocinas Th2 (IL-4, IL-5, IL-13), contribuindo para reduzir a inflamação alérgica.

Estudos sobre o tratamento da RA com MSCs de diferentes fontes

> Células-tronco mesenquimais derivadas do tecido adiposo (ASCs)

Estudos em modelos murinos mostraram que sua administração reduz sintomas alérgicos, restaura a mucosa nasal, diminui IgE específica e quimiocinas inflamatórias, além de promover equilíbrio Th1/Th2, com transição de Th2 para Th1. Além disso, vesículas extracelulares derivadas de ASCs apresentaram eficácia superior, aliviando sintomas, reduzindo infiltração inflamatória e regulando citocinas

> Células-tronco mesenquimais derivadas de tonsilas (T-MSCs)

Essas células apresentam alta capacidade proliferativa e expressão de proteínas imunomoduladoras. Estudos em modelos murinos demonstraram que a administração intravenosa de T-MSCs reduz sintomas alérgicos, infiltração eosinofílica, IgE total e específica, além de suprimir citocinas Th2 e quimiocinas inflamatórias (IL-25, IL-33, CCL11, CCL24), corrigindo o desequilíbrio Th1/Th2. O meio condicionado de T-MSCs também mostrou efeito imunomodulador parcial, inibindo a ativação de células T por vias como MAPK e NFAT1.

> Células-tronco mesenquimais derivadas do cordão umbilical humano (hUC-MSCs)

Algumas vantagens das hUC-MSCs são fácil obtenção, baixa imunogenicidade e alta capacidade de autorrenovação. Estudos em modelos murinos mostraram que sua administração reduz sintomas da rinite alérgica, infiltração inflamatória e níveis séricos de IL-4, TNF-α, IgE e histamina, além de aumentar IFN-γ, promovendo equilíbrio Th1/Th2. Também foi observada menor infiltração de macrófagos na mucosa nasal, sugerindo que os efeitos das hUC-MSCs envolvem modulação da secreção de citocinas associadas aos macrófagos.

> Células-tronco mesenquimais derivadas da medula óssea (BM-MSCs)

As BM-MSCs apresentam forte capacidade imunomoduladora e baixa imunogenicidade, permitindo uso alogênico seguro. Em modelos murinos de rinite alérgica, sua administração reduziu sintomas, infiltração eosinofílica, IgE específica e citocinas Th2 (IL-4, IL-5, IL-13), enquanto aumentou IFN-γ, corrigindo o desequilíbrio Th1/Th2. O meio condicionado também mostrou eficácia, regulando a homeostase de células T via inibição da sinalização STAT6, sugerindo potencial terapêutico tanto por ação celular quanto parácrina, inclusive por instilação nasal.

Considerações de segurança para terapia com MSCs na RA

Estudos indicaram baixa tumorigenicidade, mas é essencial monitorar estabilidade genômica (cariotipo, telômeros) e realizar testes regulatórios exigidos por FDA e EMA. MSCs alogênicas podem induzir anticorpos anti-HLA em até 10% dos casos, sendo preferíveis ASCs autólogas ou hUC-MSCs compatíveis. A administração intranasal pode causar irritação transitória, mitigável com hidrogel. Estudos de biodistribuição mostraram migração para pulmões e fígado, exigindo monitoramento funcional prolongado. Protocolos pré-clínicos devem incluir histopatologia nasal e testes olfatórios para garantir segurança.

Variabilidade e otimização da dosagem

Os regimes de dosagem de MSCs para rinite alérgica variam entre 1 × 10⁶ e 2 × 10⁷ células por administração em modelos pré-clínicos. Doses baixas (1–5 × 10⁶) reduzem IgE em até 60%, mas exigem repetição, enquanto doses altas (1–2 × 10⁷) oferecem maior alívio, porém com risco de efeitos adversos como febre e alteração de enzimas hepáticas. Estudos sugeriram uma janela terapêutica de 5–10 × 10⁶ células/kg, equilibrando eficácia e segurança. Ensaios clínicos devem adotar dosagem baseada no peso (1–2 × 10⁶ células/kg), monitorar citocinas (IL-6, TNF-α) e seguir escalonamento progressivo em fases, com otimização por modelos PK-PD e foco na retenção nasal.

Tendências futuras e direções no tratamento da RA

Novas abordagens incluem: exossomos derivados de MSCs, que oferecem estabilidade, administração local e múltiplos mecanismos (imunomodulação, restauração da barreira mucosa e regulação da microbiota); MSCs encapsuladas em hidrogéis, que aumentam a retenção na mucosa, protegem contra estresse oxidativo e liberam mediadores anti-inflamatórios de forma sustentada; e organoides nasais, que permitem modelagem da doença, triagem terapêutica e personalização do tratamento.

Conclusão

As MSCs representam uma estratégia promissora para pacientes que não respondem à terapia convencional, pois atuam além do controle sintomático, modulando respostas imunes, equilibrando Th1/Th2 e reduzindo inflamação. Ensaios indicaram boa tolerabilidade, mas desafios como padronização, variabilidade do doador, segurança a longo prazo e exigências regulatórias ainda limitam a aplicação clínica. Futuras pesquisas devem focar em otimização de entrega, definição de doses eficazes, impacto do microbioma e seleção de subgrupos de pacientes. Com isso, MSCs e seus derivados podem transformar o manejo da rinite alérgica, oferecendo terapias mais eficazes e duradouras.