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Publicado el 31 de marzo de 2025

Atualização para a prática clínica

Hipertensão de precisão

Integração entre genômica e medicina personalizada para controle da pressão arterial

Autor/a: Dzau, V. & Hodgkinson, C

Fuente: Hypertension, V. 81, N. 4, 2023. Precision Hypertension

A hipertensão arterial é um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares e uma das principais causas de morte prematura em todo o mundo, afetando aproximadamente 1 bilhão de pessoas. Embora os benefícios da redução da pressão arterial (PA) sejam amplamente reconhecidos, o controle eficaz da condição permanece um desafio global, com menos de um quinto dos pacientes conseguindo manter a PA dentro dos níveis recomendados. Entre os principais obstáculos estão a baixa adesão aos regimes terapêuticos, muitas vezes complexos, e os efeitos adversos associados ao uso contínuo de medicamentos anti-hipertensivos.

Além disso, os tratamentos convencionais não levam plenamente em consideração a diversidade dos perfis clínicos da população hipertensa, uma vez que os fármacos disponíveis atuam apenas sobre um dos múltiplos mecanismos envolvidos na regulação da PA. Nesse contexto, surge a proposta de uma abordagem baseada na medicina de precisão, que considera as características individuais de cada paciente para personalizar a terapia, aumentando sua eficácia e previsibilidade. Diante dessa perspectiva, Dzau e Hodgkinson (2023) realizaram uma revisão com o objetivo de discutir os avanços rumo a um modelo de tratamento mais preciso e personalizado da hipertensão arterial.

O que se entende por hipertensão de precisão?

A hipertensão de precisão é uma abordagem para a prevenção e o tratamento da PA alta, que leva em consideração as características genéticas e o ambiente único de cada paciente. Essa estratégia reconhece que indivíduos hipertensos podem responder de maneira distinta ao mesmo tratamento devido a variações genéticas, fatores ambientais e outras características individuais. Para isso, utiliza ferramentas avançadas, como análise genômica, perfil molecular, dados clínicos, fatores ambientais (incluindo estilo de vida) e big data. O objetivo é reunir e processar grandes volumes de informações sobre a saúde do paciente, permitindo diagnósticos mais precisos, predição de riscos e desenvolvimento de terapias mais eficazes e com menos efeitos colaterais.

> Abordagem genética

Acredita-se que, na hipertensão humana, embora algumas condições raras sejam monogênicas, a maioria dos casos apresenta um padrão multigênico, ou sejam, envolve múltiplos genes com pequenos efeitos combinados a fatores ambientais. Isso torna a intervenção genética um desafio mais complexo.

Uma das abordagens mais utilizadas para estudar a base genética de doenças é o estudo de associação genômica ampla (Genome-Wide Association Study – GWAS), que busca identificar polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs) associados a doenças. No contexto da medicina de precisão, o ideal seria mapear a “impressão digital” exclusiva de SNPs de cada indivíduo, permitindo a personalização da terapia. No entanto, a GWAS já identificou aproximadamente 1.500 SNPs com efeitos relativamente fracos na pressão arterial, sugerindo que a maioria dos casos de hipertensão é influenciada por múltiplos genes e sua interação com fatores ambientais.

Importância da big data na hipertensão de precisão

O uso do Big Data tem se tornado cada vez mais relevante devido aos avanços na genômica e na digitalização dos registros de saúde. A coleta massiva de dados clínicos, sociais, econômicos e comportamentais, combinada com dispositivos eletrônicos e wearables, permite uma análise mais profunda da resposta individual a fatores ambientais e doenças. Essa revolução de dados possibilita a integração de diferentes conjuntos de informações por meio de inteligência artificial (IA), permitindo a criação de tratamentos personalizados para cada paciente. Além disso, essa abordagem pode levar à descoberta de novos alvos terapêuticos para a prevenção e tratamento da hipertensão, bem como ao desenvolvimento de modelos preditivos mais eficazes para orientar os médicos.

No contexto da pesquisa clínica, o Big Data é essencial para a criação de coortes de precisão, especialmente em ensaios clínicos de hipertensão. Estudos tradicionais, como o ACCORD e o SPRINT, demonstraram que resultados podem variar devido à diversidade das populações estudadas e às limitações dos ensaios randomizados (RCTs). Enquanto o primeiro não encontrou benefício significativo da terapia intensiva, o segundo relatou uma redução considerável no risco cardiovascular. Essas discrepâncias evidenciam a necessidade de utilizar dados do mundo real, além dos ensaios controlados, para aprimorar o conhecimento sobre a hipertensão e possibilitar intervenções mais eficazes e personalizadas.

> IA e modelos preditivos

A inteligência artificial e os modelos preditivos estão revolucionando a medicina de precisão, integrando dados ômicos, registros eletrônicos de saúde e dispositivos eletrônicos para personalizar tratamentos. Já há aplicações diretas no gerenciamento de hipertensão, como o chatbot da Geisinger Health, que fornece resultados de sequenciamento genético, reduzindo a necessidade de conselheiros genéticos. Além disso, existem smartwatches aprovados pela FDA conseguem detectar fibrilação atrial e ritmos cardíacos irregulares.

A IA também está sendo aplicada ao diagnóstico e gerenciamento da hipertensão, utilizando medições caseiras para prever a condição, diagnosticar hipertensão secundária e avaliar terapias. Embora alguns estudos demonstrem maior poder preditivo da tecnologia em relação à análise estatística tradicional, outros indicaram resultados semelhantes. Além disso, a IA está sendo usada para melhorar ensaios clínicos, desde a seleção de pacientes até a reavaliação de estudos passados, como os ensaios SPRINT e ACCORD.

Terapias de precisão

A terapia genética tem se mostrado uma abordagem promissora para o tratamento da hipertensão, com destaque para a interferência de RNA (RNAi) e a edição genética. A RNAi utiliza pequenos RNAs de interferência (siRNAs) para suprimir a expressão genética, como no caso do zilebesiran, que reduz a síntese de angiotensinogênio (AGT) no fígado e já demonstrou eficácia na redução prolongada da pressão arterial em estudos clínicos iniciais. No entanto, sua aplicação ainda enfrenta desafios, como a necessidade de estudos de segurança e a interação com outros medicamentos.

A edição genética, por meio de tecnologias como CRISPR-Cas9, possibilita a modificação permanente do DNA, tornando-a uma solução potencial para a hipertensão monogênica, causada por mutações em genes específicos. Pesquisas experimentais demonstraram que a edição do gene AGT no fígado reduziu significativamente a pressão arterial em modelos animais, com efeitos prolongados por mais de um ano. Essa abordagem ofereceu uma vantagem em relação a terapias temporárias, como o zilebesiran, reduzindo a necessidade de tratamento contínuo. No entanto, questões éticas, segurança e o risco de efeitos colaterais imprevistos ainda precisam ser analisados antes da aplicação clínica em larga escala.


A medicina de precisão na hipertensão ainda está em desenvolvimento. Inicialmente, a genética foi vista como chave para diagnóstico e tratamento, mas sua aplicação na hipertensão primária é limitada. No entanto, avanços como RNAi, terapia genética e edição genética prometem tratamentos mais eficazes e duradouros, identificando genes essenciais e permitindo intervenções direcionadas para um controle mais permanente da pressão arterial.