| Introdução |
Atualmente, treze tipos de neoplasias malignas foram identificados como cânceres associados à obesidade (CAO). Evidências científicas indicaram que o excesso de gordura corporal não apenas aumenta o risco de desenvolvimento desses tumores, mas também está relacionado a um pior prognóstico nos pacientes acometidos. Além disso, a obesidade contribui significativamente para a resistência à insulina e o desenvolvimento do diabetes tipo 2 (DT2), fatores que podem amplificar ainda mais o risco e a progressão dos CAOs.
Os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon 1 (GLP-1RAs) representam uma classe de fármacos amplamente utilizada no tratamento do DT2 e na indução da perda de peso. Devido à sua eficácia metabólica e aos potenciais efeitos pleiotrópicos, surgiu a hipótese de que esses medicamentos poderiam também influenciar no desenvolvimento de CAOs.
Nesse contexto, um estudo conduzido por Wang e colaboradores (2024) avaliou pacientes com DT2 que receberam prescrição de GLP-1RAs em comparação ao uso de insulinas ou metformina, investigando sua associação com o risco de cada um dos treze CAOs. Os tipos de tumores analisados incluíram: esôfago, mama, colorretal, endométrio, vesícula biliar, estômago, rim, ovário, pâncreas e tireoide.
| Métodos |
Eles realizaram um estudo de coorte retrospectivo conduzido a partir de um extenso banco de dados multicêntrico nacional, composto por registros eletrônicos de saúde de 113 milhões de pacientes nos Estados Unidos. A população analisada incluiu 1.651.452 pacientes com diabetes tipo 2, sem diagnóstico prévio de cânceres associados à obesidade, que receberam prescrição de agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon 1, insulina ou metformina entre os anos de 2005 e 2018.
| Resultados |
Na população analisada, o uso de agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon 1, em comparação com a insulina, foi associado a uma redução significativa do risco em 10 dos 13 CAOs, incluindo o de vesícula biliar (HR: 0,35; IC 95%: 0,15-0,83), meningioma (HR: 0,37; IC 95%: 0,18-0,74), de pâncreas (HR: 0,41; IC 95%: 0,33-0,50), carcinoma hepatocelular (HR: 0,47; IC 95%: 0,36-0,61), de ovário (HR: 0,52; IC 95%: 0,03-0,74), colorretal (HR: 0,54; IC 95%: 0,46-0,64), mieloma múltiplo (HR: 0,59; IC 95%: 0,44-0,77), de esôfago (HR: 0,60; IC 95%: 0,42-0,86), endometrial (HR: 0,74; IC 95%: 0,60-0,91) e de rim (HR: 0,76; IC 95%: 0,64-0,91).
Embora a redução do risco de câncer de estômago também tenha sido observada (HR: 0,73; IC 95%: 0,51-1,03), essa associação não foi estatisticamente significativa. No entanto, os GLP-1RAs não demonstraram impacto na redução do risco de câncer de mama pós-menopausa ou de tireoide. Além disso, quando comparados à metformina, os GLP-1RAs não foram associados à redução do risco de nenhum tipo de câncer, mas foram relacionados a um aumento do risco de câncer renal (HR: 1,54; IC 95%: 1,27-1,87).
| Conclusão |
No estudo conduzido por Wang e colaboradores (2024), os GLP-1RAs foram associados a um menor risco de determinados cânceres associados à obesidade em comparação com insulina ou metformina em pacientes com diabetes tipo 2. Esses achados forneceram evidências preliminares sobre o potencial dos GLP-1RAs na prevenção do câncer em populações de alto risco, além de reforçarem a necessidade de novos estudos pré-clínicos e clínicos para aprofundar a compreensão sobre seu papel na prevenção de CAOs específicos.