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/ Publicado el 4 de marzo de 2025

Estudo com brasileiros

Perda auditiva é associada a declínio cognitivo mais acelerado

Dados do contexto brasileiro, coletados em estudo de longa duração, reforçam relação entre escutar pior e sofrer perdas cognitivas

Uma pesquisa liderada pela USP amplia com dados da população brasileira um corpo de evidências cada vez mais forte sobre a associação da perda auditiva ao declínio cognitivo, alertando que os sistemas de saúde precisam investir na prevenção.

A pesquisa foi feita com dados do Elsa-Brasil, um estudo que acompanha os participantes em diferentes momentos por vários anos. As avaliações incluíram 805 pessoas com idades iniciais de 34 a 74 anos e foram realizadas em três momentos ao longo de oito anos (2008/2010, 2012/14 e 2017/19). Todos passaram por audiometria e também por testes de desempenho cognitivo envolvendo memória, fluência verbal e função executiva, que inclui diversos processos como o raciocínio e solução de problemas. Também foram coletadas informações sobre estado de saúde e variáveis sociodemográficas como idade, sexo, raça e educação.

Após o tratamento estatístico, isolando as variáveis de saúde e estilo de vida, os dados confirmaram que houve declínio cognitivo global mais acentuado relacionado à perda auditiva. Os resultados foram publicados em artigo no Journal of Alzheimer’s Disease, trazendo como primeira autora a fonoaudióloga Alessandra Samelli, professora da Faculdade de Medicina (FM) da USP.

Alessandra destacou como um dos pontos fortes do estudo o fato de ter sido feito o chamado acompanhamento longitudinal. “Esse tipo de acompanhamento ao longo do tempo gera evidências mais robustas.” Também autora do trabalho e professora da FMUSP, a médica Claudia Suemoto ressalta que a pesquisa, além de trazer dados do contexto nacional, realizou testes de audiometria, uma maneira objetiva de medir problemas de audição – ao contrário de estudos anteriores que coletaram o dado por entrevista, ou seja, perguntando à pessoa se ela sente que a audição piorou.

Prevenção da perda

De acordo com Alessandra Samelli, os mecanismos que levam à associação entre perda auditiva e declínio cognitivo ainda precisam ser melhor elucidados, mas os dados existentes são suficientes para incentivar um foco maior na prevenção, principalmente para grupos mais vulneráveis.

“Por exemplo, alguém que trabalhou a vida toda em ambiente com ruído e não usou adequadamente os equipamentos de proteção auditiva, muito provavelmente vai ter uma perda auditiva maior. Uma pessoa com problemas cardiovasculares também tem maiores chances de apresentar perda auditiva, pois estas doenças podem prejudicar o sistema auditivo, podendo resultar em uma queda maior da audição. Ou alguém que ao longo da vida usou muitos medicamentos que são tóxicos ao ouvido”, diz ela, acrescentando entre hábitos nocivos – e que podem ser modificados – utilizar fones de ouvido com som alto – o que às vezes começa ainda na adolescência. “Se você diminui ou impede que esses fatores de risco aconteçam, pode diminuir a probabilidade da pessoa ter o declínio cognitivo”, completa a fonoaudióloga.

Menos “input” e mais isolamento

Uma das hipóteses mais aceitas sobre por que a perda auditiva influencia na perda cognitiva é a diminuição de estímulos ao cérebro. “Você pode pensar no cérebro como um computador que tem suas fontes de entrada, ou input. No computador são o teclado, a câmera, o microfone. E o cérebro tem suas fontes de entrada de estímulos: auditivo, visual, tátil. Então quando você tira uma fonte, principalmente a auditiva, acaba estimulando menos o cérebro e isso é um problema”, diz a médica.

“Primeiro, há menos coisa chegando fazendo com que seu cérebro trabalhe, acione a comunicação entre os neurônios. Temos estudos com ressonância magnética funcional mostrando que a pessoa que ouve menos tem áreas mais dormentes, menos ativas no cérebro, como a da linguagem.”

Além disso, explica Claudia, “secundariamente, a pessoa que ouve menos tende a se isolar, a interagir menos. Consequentemente a pessoa é menos requisitada, ela se expressa menos, porque não é capaz de entender ou funcionar num nível esperado em termos auditivos”.

Perda cognitiva: outros fatores

Especialista em envelhecimento cerebral, Claudia Suemoto conta que os dados do Elsa têm sido úteis para vários estudos que investigam fatores associados ao desenvolvimento das demências.

“Já fizemos vários estudos sobre dieta, relacionando por exemplo, o consumo de ultraprocessados à perda cognitiva e também à depressão. E mostramos ainda em dois trabalhos a associação de problemas cardiovasculares, como aterosclerose, ao declínio cognitivo, além de fazer outras pesquisas com dados do Elsa que não se referem ao aspecto cognitivo.


O artigo Hearing loss and cognitive decline in the Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (ELSA-Brasil) during eight years of follow-up pode ser lido aqui.