A COVID Longa é reconhecida como uma condição pós-viral de grande impacto, com estimativas sugerindo que afeta mais de 65 milhões de pessoas em todo o mundo. Em outubro de 2021, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu uma definição clínica para a condição, caracterizando-a por sintomas que surgem em até três meses após a infecção inicial pelo SARS-CoV-2, com duração mínima de dois meses e que não podem ser explicados por diagnósticos alternativos. Clinicamente, a doença se manifesta de forma multissistêmica, envolvendo os sistemas respiratório, neurológico e cardiovascular, entre outros, apresentando padrões de sintomas complexos e altamente individualizados. Essa complexidade, somada ao conhecimento limitado sobre seus mecanismos fisiopatológicos e à escassez de testes diagnósticos específicos, contribui para uma persistente ambiguidade nos critérios diagnósticos atuais.
Evidências indicaram que as diferentes manifestações da COVID longa não ocorrem de forma aleatória, mas estão associadas a características demográficas e clínicas específicas, como idade e presença de comorbidades. Observa-se que os padrões de coocorrência e a gravidade dos sintomas variam significativamente entre diferentes grupos populacionais. Nesse contexto, a identificação de subtipos torna-se fundamental para esclarecer a heterogeneidade fenotípica da condição.
Apesar de diversas tentativas, até o momento, não havia uma revisão abrangente que sintetizasse as diferentes abordagens de classificação. Além disso, permanece incerta a extensão em que fatores relacionados ao hospedeiro, ao vírus e às características demográficas estão consistentemente associados a fenótipos específicos. Diante dessa lacuna, Wang et al., (2026) realizaram uma revisão sistemática de artigos que abordaram subtipos da COVID Longa.
Os autores realizaram uma busca sistemática em bases de dados de relevância científica, incluindo PubMed, Embase, Web of Science e Google Scholar, abrangendo desde o início de cada base até janeiro de 2025, com uma atualização posterior realizada em outubro de 2025.
Foram incluídos estudos que reportavam explicitamente subtipos ou agrupamentos de sintomas ou pacientes, independentemente da técnica utilizada. Foram excluídos resumos de congressos sem dados suficientes, duplicatas e estudos que misturavam dados da COVID longa com outras condições, como a Síndrome de Fadiga Crônica.
Os resultados desta revisão sistemática, que incluiu 64 estudos abrangendo mais de 2,43 milhões de participantes de vinte países, revelaram um panorama detalhado da heterogeneidade da COVID Longa. A análise identificou quatro abordagens principais para a classificação de pacientes ou sintomas: a coocorrência de sintomas (utilizada em 46,9% dos estudos), o sistema orgânico afetado (25,0%), a estratificação por gravidade (14,1%) e o uso de indicadores clínicos específicos (4,7%).
No que diz respeito à coocorrência de sintomas, a fadiga emergiu como o descritor mais frequente, atuando muitas vezes como um sintoma central que se manifesta isoladamente ou em conjunto com dor articular, sintomas cognitivos e dispneia. As análises revelaram associações recorrentes entre as condições, destacando-se as díades de disfunção olfativa-gustativa, ansiedade-depressão e dor articular-dor muscular. A partir dessas, foram delineados agrupamentos distintos, como um grupo focado em declínio físico crônico (fadiga e dispneia), um grupo neuropsiquiátrico (insônia e depressão) e um grupo de vias aéreas superiores semelhante a infecções agudas.
A metanálise quantificou a prevalência desses agrupamentos entre os pacientes com COVID Longa nos estudos selecionados. O respiratório apresentou a maior porcentagem combinada, afetando 47% dos pacientes, seguido pelo neurológico (31%) e gastrointestinal (28%). Outros clusters relevantes incluíram distúrbios olfativos/gustativos (41%) e a fadiga como um cluster independente (37%).
Por fim, a análise indicou que a formação desses fenótipos foi significativamente influenciada por fatores demográficos e clínicos. Observou-se que o sexo feminino foi associado a um maior risco de sintomas neuropsiquiátricos e fadiga, enquanto o masculino e indivíduos de idade avançada apresentam maior propensão a sintomas respiratórios e manifestações cardiorrenais. Além disso, variantes do vírus demonstraram padrões distintos, com a variante Alpha ligada a sintomas olfativos e a Delta a sintomas de otorrinolaringologia. Fatores como obesidade, comorbidades preexistentes (como DPOC) e privação socioeconômica também foram correlacionados a uma maior carga de sintomas e a subtipos cardiopulmonares mais graves.
Em suma, Wang et al., (2026) estabeleceram quatro abordagens principais para categorizar os pacientes: a coocorrência de sintomas, o sistema orgânico afetado, a estratificação por gravidade e o uso de indicadores clínicos específicos. Entre essas, a fadiga e os agrupamentos de sintomas neurológicos e respiratórios emergiram como os fenótipos centrais e mais prevalentes. Além disso, as evidências demonstram que a formação desses subtipos não foi aleatória, sendo significativamente influenciada por determinantes individuais, como sexo, idade, presença de comorbidades e a variante específica do SARS-CoV-2. Essa complexidade sugeriu que os subtipos não foram mutuamente exclusivos, mas sobrepostos, refletindo mecanismos fisiopatológicos compartilhados, como a disfunção autonômica e a inflamação persistente
Os pesquisadores recomendaram que os profissionais de saúde classifiquem inicialmente os pacientes pela coocorrência de sintomas e mapeiem esses fenótipos para sistemas orgânicos específicos, facilitando o encaminhamento para especialistas. A estratégia de cuidado deve ser baseada na gravidade: casos leves podem ser geridos na atenção primária, enquanto os graves ou complexos exigem o suporte de equipes multidisciplinares em centros de cuidados terciários, integrando reabilitação física, suporte psicológico e farmacoterapia de precisão.