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Publicado el 3 de septiembre de 2024

Aumento do número de casos

Febre Oropouche

Número de casos no Brasil e transmissão vertical

Autor/a: Scachetti et al.

Fuente: medRxiv 2024.07.27.24310296; doi: https://doi.org/10.1101/2024.07.27.24310296 Reemergence of Oropouche virus between 2023 and 2024 in Brazil

Introdução

O vírus Oropouche (OROV) é um arbovírus endêmico e negligenciado que causa febre de Oropouche na América Central e do Sul. É caracterizada por uma doença leve e autolimitada, com sintomas não específicos como dor de cabeça, artralgia, mialgia, náusea, vômito, calafrios e fotofobia. No entanto, alguns pacientes podem experimentar complicações mais graves, como manifestações hemorrágicas, meningite ou meningoencefalite.

O OROV é provavelmente transmitido no ciclo enzoótico principalmente por mosquitos Culicoides paraensis entre preguiças-do-norte (Bradypus tridactylus), primatas não-humanos e outros mamíferos silvestres. Em áreas urbanas, o ciclo amplificado em humanos parece ter sido estabelecido em várias ocasiões envolvendo mosquitos e humanos. Não há vacinas licenciadas nem medicamentos antivirais disponíveis para prevenir a infecção ou tratar a febre de Oropouche.

Casos no Brasil

De acordo com o Painel de Arboviroses do Ministério da Saúde, atualizado na última terça-feira (27/08/2024), o número de casos de febre Oropouche no Brasil chegou a 7.848. Originário da doença, o Amazonas segue concentrando o maior número de casos (3.230), seguido de Rondônia (1.710) e Bahia (886). Distrito Federal, Goiás, Paraná e Rio Grande do Norte seguem sendo as únicas unidades federativas que não registraram nenhum infectado.

Neste ano, um surto epidemiológico fez os números ficarem quase dez vezes maior - em 2023, foram apenas 831 casos.

Scachetti e colaboladores (2024) elaboraram um estudo para examinar dados epidemiológicos de 1º de janeiro de 2015 e 29 de junho de 2024 no país. Nesse período foram confirmados 8.284 casos de febre de Oropouche. Desses, 84,2% (6.973 de 8.284) foram relatados entre janeiro e junho de 2024, representando 199 vezes mais do que a mediana anual de 35 casos relatada nesse período.

O norte do Brasil foi a região mais afetada, com 83,2% de todos os casos notificados entre 2015 e 2024. O estado do Amazonas relatou o maior número de casos (44,7%, 3.699) e uma incidência cumulativa de 93,8 casos por 100.000 habitantes de 2015 a 2024. Antes de 2024, os casos afetavam principalmente o norte do país. No entanto, a epidemia de 2024 resultou na disseminação da doença por todo o Brasil, com casos autóctones sendo identificados em todas as cinco regiões brasileiras. Essas novas regiões afetadas incluíram o Nordeste (Bahia, Ceará, Pernambuco e Piauí), o Sudeste (Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro), o Centro-Oeste (Mato Grosso e Mato Grosso do Sul) e o Sul (Santa Catarina). A incidência da doença nas novas áreas afetadas variou de 0,03 a 9,8 casos por 100.000 habitantes.

Figura 1: Dinâmica espaço-temporal da febre de Oropouche entre 2015 e 2024 no Brasil. Os mapas foram coloridos de acordo com a incidência de casos de febre de Oropouche confirmados laboratorialmente por unidade federativa entre janeiro de 2015 e dezembro de 2023 (à esquerda) e de janeiro a junho de 2024 (à direita). AC=Acre. AL=Alagoas. AM=Amazonas. AP=Amapá. BA=Bahia. CE=Ceará. ES=Espírito Santo. DF=Distrito Federal. GO=Goiás. MA=Maranhão. MG=Minas Gerais. MS=Mato Grosso do Sul. MT=Mato Grosso. PA=Pará. PB=Paraíba. PE=Pernambuco. PI=Piauí. PR=Paraná. RJ=Rio de Janeiro. RN=Rio Grande do Norte. RO=Rondônia. RR=Roraima. RS=Rio Grande do Sul. SC=Santa Catarina. SE=Sergipe. SP=São Paulo. TO=Tocantins. Imagem retirada de Scachetti e colaboladores (2024).

Transmissão vertical

Em 2024, foi documentado o primeiro caso de transmissão vertical do OROV no estado de Pernambuco, resultando na morte fetal. Subsequentemente, outro caso foi relatado no Acre, onde um recém-nascido com anomalias congênitas—especificamente microcefalia, ventriculomegalia, agenesia do corpo caloso e malformações articulares—morreu após 47 dias. A mãe do bebê apresentou erupções cutâneas e febre durante o segundo mês de gestação, com avaliações virológicas pós-parto confirmando a infecção por Oropouche.

Dada a recente classificação da febre Oropouche como doença de notificação compulsória no Brasil e o reconhecimento de sua transmissão vertical, a realização de pesquisas adicionais é imperativa. Estudos futuros devem buscar compreender os mecanismos de transmissão do OROV para o feto, identificar o período crucial após a infecção materna para a transmissão vertical e estabelecer quando a infecção tem maior probabilidade de resultar em desfechos adversos na gestação, incluindo mortalidade materna e fetal, parto prematuro e anomalias congênitas.

Na prática clínica, obstetras, ginecologistas e especialistas em medicina fetal devem estar atentos à detecção do vírus em amostras maternas e à identificação de sinais ultrassonográficos de comprometimento fetal. Essas medidas são essenciais para o diagnóstico precoce de infecções congênitas por este arbovírus, facilitando intervenções oportunas que possam mitigar os desfechos graves. Além disso, as estratégias de prevenção e controle devem ir além do ambiente de saúde, incluindo a eliminação de criadouros de mosquitos, a adoção de medidas de proteção pessoal (particularmente entre mulheres grávidas, como o uso de repelentes, roupas protetoras e redes mosquiteiras), e iniciativas de educação em saúde e mobilização comunitária.