A insuficiência cardíaca (IC) é definida como uma condição crônica e progressiva na qual o miocárdio apresenta disfunção, tornando-se incapaz de suprir as demandas metabólicas do organismo. Clinicamente, os pacientes afetados apresentam sintomas como fadiga, dispneia, intolerância à atividade física e uma redução expressiva na qualidade de vida.
Atualmente, a IC é uma das principais causas de morbidade e mortalidade nos Estados Unidos. O impacto da doença é particularmente severo na população hispânica, que representa o segundo maior grupo racial ou étnico dos EUA. Para esse, a IC não é apenas a principal causa de morte, mas também está associada a custos extremamente elevados para o sistema de saúde. Entretanto, a literatura aponta que a insuficiência cardíaca é significativamente subdiagnosticada entre esse grupo, o que resulta em uma caracterização incompleta dos perfis de risco cardiovascular específicos para essa etnia. Diante disso, a identificação precoce e a mitigação de fatores de risco são medidas críticas para melhorar os desfechos clínicos e o bem-estar dessa população.
Para aprofundar esse conhecimento, Shen e colaboradores (2025) utilizaram dados do programa de pesquisa All of Us de 73.945 participantes que se identificaram como hispânicos ou latinos. O propósito central de investigação foi analisar os fatores de risco multidimensionais para a IC e determinar a prevalência da doença dentro dessa amostra.
O estudo adotou delineamento transversal e de base populacional. A amostra final consistiu em 5.281 adultos hispânicos que possuíam registros eletrônicos de saúde (EHR) e que completaram uma série de questionários padronizados sobre aspectos sociodemográficos, estilo de vida, saúde mental e acesso a cuidados médicos.
A identificação da insuficiência cardíaca (IC) e das comorbidades (como hipertensão e diabetes) foi realizada de forma robusta, integrando tanto os diagnósticos clínicos extraídos dos prontuários eletrônicos quanto os dados autorrelatados pelos participantes em pesquisas de histórico médico pessoal
A amostra final foi composta majoritariamente por mulheres (72,5%), com idade média de 47,5 anos. A prevalência geral de insuficiência cardíaca na coorte foi de 3,6%, mas observou-se uma disparidade significativa entre os sexos: a prevalência em homens foi de 5,7%, mais do que o dobro da registrada em mulheres, que foi de 2,7%.
Ao comparar os participantes com e sem a doença, o grupo com IC apresentou uma idade significativamente mais avançada e uma maior proporção de indivíduos não casados ou que não viviam com parceiros. Além disso, fatores socioeconômicos foram relevantes, com os pacientes portadores de IC apresentando menores níveis de escolaridade (abaixo da graduação) e renda anual inferior a US$ 50.000 em comparação ao grupo sem a patologia.
A prevalência de fatores de risco cardiovasculares clássicos foi notavelmente alta em toda a amostra, com mais de 40% dos participantes apresentando hiperlipidemia, hipertensão ou obesidade. No entanto, entre os indivíduos que tinham o diagnóstico IC, esses números foram drasticamente superiores: mais de 89,4% eram hipertensos, 82,4% tinham hiperlipidemia e 67,6% eram obesos.
Outras comorbidades também mostraram forte associação com a doença, como o diabetes mellitus tipo 2 (DM2), presente em 59% dos pacientes com IC, e o histórico de infarto agudo do miocárdio, identificado em 39,4% desse grupo. Em termos de estilo de vida, o tabagismo foi significativamente mais comum entre os portadores de IC (37,4%).
No âmbito dos determinantes sociais e ambientais, cerca de 69,1% da amostra falava um idioma diferente do inglês em casa. Quanto ao acesso ao sistema de saúde, embora a maioria possuísse cobertura médica e tivesse consultado um profissional no último ano, 20% dos pacientes com IC não haviam visitado um especialista (como um cardiologista) nos 12 meses anteriores ao estudo. Curiosamente, na análise univariada inicial, o relato de estresse frequente foi menos comum entre os pacientes com IC (60,1%).
Após o ajuste para potenciais fatores de confusão através de um modelo de regressão logística multivariada, cinco variáveis consolidaram-se como fatores de risco independentes e estatisticamente significativos para a insuficiência cardíaca na população hispânica:
• Infarto prévio: Foi o preditor mais forte, com indivíduos apresentando uma chance 11 vezes maior de desenvolver IC.
• Hipertensão arterial: Associada a um risco quase 6 vezes maior.
• Obesidade: Elevou o risco em mais de duas vezes.
• DM2: Demonstrou ser um fator de risco relevante.
• Idade: Cada ano adicional de vida aumentou a probabilidade de IC em 3%.
Embora a hiperlipidemia e o idioma falado em casa tenham aparecido em análises iniciais, eles perderam significância estatística no modelo final ajustado. Houve também uma tendência marginal sugerindo que as mulheres teriam uma menor probabilidade de desenvolver IC em comparação aos homens, embora esse dado tenha ficado próximo ao limite da significância estatística.
Em suma, Shen e colaboradores (2025) ratificaram que os fatores de risco cardiovasculares tradicionais, incluindo idade, hipertensão, infarto agudo do miocárdio, DM2 (diabetes mellitus tipo 2) e obesidade, foram significativos entre adultos hispânicos. A identificação precoce desse grupo ajudaria a garantir a entrega de intervenções oportunas para reduzir o impacto negativo desses fatores e, possivelmente, retardar ou modificar a trajetória de desenvolvimento de IC.