O Congresso da Sociedade Respiratória Europeia (ERS) de 2024, realizado em Viena, reuniu especialistas internacionais para discutir os principais desafios e avanços na medicina respiratória. No campo das infecções respiratórias, os destaques incluíram novas abordagens para aspergilose pulmonar, tuberculose (TB) e fibrose cística (FC).
| Aspergilose pulmonar crônica |
Essa infecção fúngica foi tema de um simpósio que abordou sua alta incidência e mortalidade, atribuídas às dificuldades no diagnóstico e tratamento.
A doença abrange desde a colonização respiratória até formas invasivas e alérgicas, com fatores de risco como imunidade comprometida, doenças pulmonares estruturais e hiperresponsividade. Além disso, métodos diagnósticos também foram detalhados, incluindo microscopia, testes de antígeno e anticorpos, cultura e PCR. Novas ferramentas diagnósticas prometem melhorar a sensibilidade e precisão, embora mutações de resistência, infecções por genótipos mistos, tolerância e formação de biofilme ainda dificultem o manejo.
Mudanças climáticas e práticas agrícolas têm aumentado a patogenicidade do Aspergillus, exigindo novos antifúngicos (fosmanogepix, olorofim, opelconazol) e imunoterapias (interferon-γ recombinante e anticorpos anti-Aspergillus) promissoras.
Por fim, destacou-se a carga crescente da aspergilose em pacientes com doença pulmonar pós-TB, que afeta até 18% dos casos com sequelas, exigindo acompanhamento interdisciplinar e monitoramento funcional e radiológico.
| Tuberculose (TB) |
Outro simpósio relevante abordou os avanços em esquemas curtos para TB sensível e resistente a medicamentos. Para o primeiro caso, um novo esquema de 4 meses com isoniazida, rifapentina, pirazinamida e moxifloxacino, para adultos e crianças acima de 12 anos, mostrou eficácia semelhante ao tratamento tradicional de 6 meses, sendo já incorporado às diretrizes internacionais.
No caso da TB multirresistente, esquemas de 6 e 9 meses com bedaquilina, pretomanida e linezolida demonstraram bons resultados, com menos efeitos adversos. Estudos reforçaram a eficácia, embora efeitos colaterais e a exclusão de populações específicas limitem a generalização dos dados.
Além disso, um esquema de 9 meses com bedaquilina, delamanida e linezolida, associado a levofloxacino e/ou clofazimina, foi endossado, ampliando o acesso a grupos antes excluídos, como gestantes e pessoas com HIV.
| Fibrose cística (FC) |
A sessão “FC além da FC: avanços recentes e novas perspectivas” explorou avanços revolucionários na gestão FC, especialmente na era dos moduladores do regulador da condutância transmembrana da fibrose cística (CFTR). A terapia tripla com elexacaftor–tezacaftor–ivacaftor (ETI) melhorou significativamente a função pulmonar em pessoas com FC, inclusive em casos avançados.
Um estudo francês mostrou um aumento do ppFEV1 de 30% para 45% em 1 mês com ETI, com benefícios sustentados por 2 anos, e redução na necessidade de transplante pulmonar. O programa francês de uso compassivo revelou que pelo menos 60% dos pacientes sem a variante F508del respondem ao ETI, destacando a necessidade de ampliar sua indicação terapêutica.
Por outro lado, cerca de 25% dos adultos com FC avançada mantêm função pulmonar comprometida, exigindo monitoramento contínuo. Também foram discutidos novos desafios da população com FC envelhecida, como complicações cardiovasculares e oncológicas, além da importância do aconselhamento genético.
Em escala global, foram destacadas as desigualdades no cuidado da FC, com necessidade urgente de melhorar diagnóstico, acesso a medicamentos e infraestrutura em países de baixa e média renda. Também foi abordada a disfunção adquirida do CFTR em doenças como doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e bronquiectasia, com evidências de que moduladores do CFTR podem ter potencial terapêutico além da FC.
| Conclusão |
O Congresso ERS 2024 destacou avanços significativos no manejo de doenças pulmonares infecciosas, ao mesmo tempo em que apontou desafios persistentes, como o aumento da resistência fúngica, a necessidade de tratamentos mais personalizados para TB e as desigualdades globais no cuidado da FC. As sessões reforçaram a importância da pesquisa contínua, da inovação e do acesso equitativo ao cuidado para melhorar os desfechos dos pacientes em todo o mundo.