A rinite alérgica (RA) é uma das doenças inflamatórias crônicas mais prevalentes no mundo, afetando cerca de 400 milhões de pessoas e gerando impacto significativo na qualidade de vida e nos custos em saúde. O aumento das doenças alérgicas tem sido associado às hipóteses da higiene, da biodiversidade e da microbiota desaparecida, que sugerem que a menor exposição microbiana em períodos críticos do desenvolvimento imunológico favorece a suscetibilidade a essas condições.
Embora o microbioma intestinal tenha sido amplamente estudado nesse contexto, evidências apontaram que o os microbiomas nasal e oral também participam da regulação da resposta imune das vias aéreas.
Diante desse cenário, Li e colaboradores (2026) revisaram as evidências sobre a interação entre exposições ambientais, microbioma e desenvolvimento da RA, discutindo os possíveis mecanismos envolvidos e potenciais aplicações terapêuticas direcionadas ao microbioma na prevenção e no manejo da doença.
| Fatores ambientais como moduladores extrínsecos |
Diversos fatores ambientais influenciam o desenvolvimento da RA por meio de alterações da barreira epitelial, da resposta imunológica e da composição do microbioma. Entre eles, a poluição atmosférica ocupa papel central. A exposição ao material particulado fino (PM₂.₅) e às partículas de exaustão de diesel (DEP) compromete a integridade da mucosa nasal, aumenta a permeabilidade epitelial, estimula a produção de espécies reativas de oxigênio e favorece respostas imunológicas do tipo Th2.
As mudanças climáticas também contribuem para a carga da doença ao prolongarem as estações polínicas e aumentarem a produção de pólen. Além disso, fatores domiciliares como umidade, mofo e exposição a ácaros foram consistentemente associados a maior risco de RA, inclusive quando presentes nos primeiros anos de vida.
Por outro lado, evidências sugeriram que exposição a ambientes rurais e fazendas durante a infância e o aleitamento materno prolongado exercem efeito protetor, possivelmente por favorecerem o desenvolvimento de um microbioma mais diversificado e tolerogênico.
Entre os fatores modificáveis, destacou-se a exposição precoce a antibióticos, associada a alterações da colonização intestinal e redução de bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs), como Bifidobacterium, Faecalibacterium prausnitzii e Roseburia. Essas alterações foram associadas à redução da tolerância imunológica e ao predomínio de respostas Th2, mecanismos centrais na sensibilização alérgica.
| O papel do microbioma nasal |
O microbioma nasal saudável apresenta baixa diversidade, com predomínio de Actinobacteria, Firmicutes e Proteobacteria. Entre os gêneros mais abundantes estão Corynebacterium, Staphylococcus, Dolosigranulum, Moraxella e Streptococcus, importantes para a homeostase das vias aéreas.
Entre os microrganismos comensais, Dolosigranulum pigrum destaca-se como potencial probiótico nasal devido à sua capacidade de atuar em conjunto com espécies de Corynebacterium na inibição de patógenos respiratórios, como Staphylococcus aureus e Streptococcus pneumoniae, favorecendo a estabilidade do ecossistema nasal.
Na RA, observam-se alterações consistentes na composição da microbiota nasal, caracterizadas por aumento de Staphylococcus aureus e Moraxella catarrhalis e redução de bactérias potencialmente protetoras, como Dolosigranulum pigrum e Corynebacterium. A colonização por S. aureus, especialmente por cepas produtoras de superantígenos, foi associada a maior intensidade dos sintomas e amplificação de respostas Th2.
Evidências também sugeriram que M. catarrhalis pode induzir dano epitelial e produção de citocinas inflamatórias, enquanto a perda de comensais protetores reduz a resistência à colonização por patógenos respiratórios, favorecendo a inflamação alérgica.
Além disso, a disbiose nasal e a disfunção da barreira epitelial mantêm uma relação bidirecional. Alterações das junções celulares aumentam a permeabilidade da mucosa e estimulam a liberação das alarminas TSLP, IL-25 e IL-33, promovendo respostas Th2. Em contrapartida, a inflamação decorrente desse processo agrava a disbiose e o dano epitelial, perpetuando a doença.
| O papel do microbioma oral no eixo oral-nasal-pulmonar |
Além das alterações do microbioma nasal, evidências indicaram que pacientes com RA também apresentam modificações no microbioma oral, reforçando o conceito de uma via aérea única.
Entre os microrganismos potencialmente envolvidos destaca-se Porphyromonas gingivalis, patógeno periodontal capaz de induzir citocinas pró-inflamatórias, ativar vias mediadas por TLR e NF-κB e aumentar a secreção de muco. Outro microrganismo de interesse é Fusobacterium nucleatum, associado à indução de citocinas inflamatórias e à degradação da matriz extracelular.
Em contrapartida, bactérias comensais como Streptococcus salivarius K12 exercem efeitos protetores ao modular a resposta imune, inibir a ativação da via NF-κB e produzir bacteriocinas contra patógenos respiratórios. Além disso, a microbiota oral participa da regulação da via nitrato-nitrito-óxido nítrico, influenciando a homeostase vascular e inflamatória das mucosas.
Os autores ressaltaram que as mucosas oral, nasal e pulmonar integram o Sistema Imune Comum das Mucosas (CMIS), permitindo que alterações do microbioma oral influenciem a imunidade respiratória. Em pacientes com RA, observa-se aumento de gêneros pró-inflamatórios, como Prevotella e Veillonella, e redução de espécies imunomoduladoras, como Streptococcus salivarius, sugerindo que o microbioma oral pode contribuir para a fisiopatologia da doença e representar um potencial alvo terapêutico.
| Mecanismos imunológicos e neuroimunes da disbiose na RA |
A disbiose pode contribuir para a inflamação alérgica por meio de metabólitos microbianos, ativação da imunidade inata e modulação da resposta imune adaptativa.
Entre os principais metabólitos envolvidos estão os ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs), como butirato, propionato e acetato, produzidos pela microbiota intestinal. Esses compostos promovem tolerância imunológica, estimulam células T reguladoras (Treg) e reduzem a inflamação das vias aéreas. Em pacientes com RA, observa-se redução de bactérias produtoras de AGCCs, favorecendo respostas alérgicas.
Além disso, metabólitos derivados do triptofano ativam o receptor de hidrocarboneto de arila (AhR), importante para a integridade epitelial e a homeostase imunológica. Em contraste, toxinas produzidas por Staphylococcus aureus podem ativar mastócitos e intensificar a inflamação.
A disbiose também ativa vias da imunidade inata por meio dos TLRs e do inflamassoma NLRP3, favorece a polarização para o perfil Th2, altera o equilíbrio entre Treg e Th17 e estimula células linfoides inatas do tipo 2 (ILC2) por meio das alarminas TSLP, IL-25 e IL-33.
As interações neuroimunes também desempenham papel relevante. A ativação de terminações nervosas sensoriais promove a liberação de neuropeptídeos, como substância P e CGRP, amplificando vasodilatação, edema, secreção mucosa e hiper-reatividade nasal.
| Aplicações clínicas e perspectivas terapêuticas |
Alterações do microbioma nasal e oral podem futuramente atuar como biomarcadores de diagnóstico, estratificação de risco e resposta terapêutica na RA. Perfis microbiológicos caracterizados pelo aumento de Staphylococcus aureus, Moraxella e Haemophilus, além de alterações metabólicas específicas, mostraram potencial para identificar diferentes fenótipos da doença.
O microbioma também surge como alvo terapêutico. Estratégias em investigação incluem probióticos, prebióticos, pós-bióticos, lisados bacterianos e transplante de microbiota fecal (FMT), com o objetivo de restaurar o equilíbrio microbiano e modular a resposta imune. Além disso, bactérias geneticamente modificadas capazes de produzir moléculas imunomoduladoras, como IL-10, vêm apresentando resultados promissores em modelos experimentais.
A integração de dados do expossoma, microbioma, metaboloma, sistema imune e genoma, associada a ferramentas de inteligência artificial, poderá viabilizar estratégias de medicina de precisão na RA, permitindo a identificação de endotipos específicos e uma seleção mais individualizada dos tratamentos.
A RA resulta da interação entre fatores ambientais, disbiose do microbioma e desregulação imunológica. Pacientes com a doença apresentam redução de bactérias potencialmente protetoras, como Corynebacterium e Dolosigranulum pigrum, e aumento de microrganismos pró-inflamatórios, especialmente Staphylococcus aureus, favorecendo disfunção da barreira epitelial e resposta Th2. Embora o microbioma represente um alvo promissor para biomarcadores e novas estratégias terapêuticas, estudos adicionais ainda são necessários para sua incorporação à prática clínica.
Publicado el 24 de agosto de 2026
Inflamação alérgica
Eixo microbioma nasal-oral na rinite alérgica
Uma análise integrada de como exposições ambientais e alterações do microbioma modulam a barreira epitelial, a resposta imune e a inflamação alérgica nas vias aéreas.
Autor/a: Li ,Y. et al.
Fuente: Front. Allergy 7:1799085 (2026) The nasal-oral microbiome axis in allergic rhinitis: environmental triggers, microbial dysbiosis, and immune dysregulation.
A rinite alérgica (RA) é uma das doenças inflamatórias crônicas mais prevalentes no mundo, afetando cerca de 400 milhões de pessoas e gerando impacto significativo na qualidade de vida e nos custos em saúde. O aumento das doenças alérgicas tem sido associado às hipóteses da higiene, da biodiversidade e da microbiota desaparecida, que sugerem que a menor exposição microbiana em períodos críticos do desenvolvimento imunológico favorece a suscetibilidade a essas condições.
Embora o microbioma intestinal tenha sido amplamente estudado nesse contexto, evidências apontaram que o os microbiomas nasal e oral também participam da regulação da resposta imune das vias aéreas.
Diante desse cenário, Li e colaboradores (2026) revisaram as evidências sobre a interação entre exposições ambientais, microbioma e desenvolvimento da RA, discutindo os possíveis mecanismos envolvidos e potenciais aplicações terapêuticas direcionadas ao microbioma na prevenção e no manejo da doença.
Diversos fatores ambientais influenciam o desenvolvimento da RA por meio de alterações da barreira epitelial, da resposta imunológica e da composição do microbioma. Entre eles, a poluição atmosférica ocupa papel central. A exposição ao material particulado fino (PM₂.₅) e às partículas de exaustão de diesel (DEP) compromete a integridade da mucosa nasal, aumenta a permeabilidade epitelial, estimula a produção de espécies reativas de oxigênio e favorece respostas imunológicas do tipo Th2.
As mudanças climáticas também contribuem para a carga da doença ao prolongarem as estações polínicas e aumentarem a produção de pólen. Além disso, fatores domiciliares como umidade, mofo e exposição a ácaros foram consistentemente associados a maior risco de RA, inclusive quando presentes nos primeiros anos de vida.
Por outro lado, evidências sugeriram que exposição a ambientes rurais e fazendas durante a infância e o aleitamento materno prolongado exercem efeito protetor, possivelmente por favorecerem o desenvolvimento de um microbioma mais diversificado e tolerogênico.
Entre os fatores modificáveis, destacou-se a exposição precoce a antibióticos, associada a alterações da colonização intestinal e redução de bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs), como Bifidobacterium, Faecalibacterium prausnitzii e Roseburia. Essas alterações foram associadas à redução da tolerância imunológica e ao predomínio de respostas Th2, mecanismos centrais na sensibilização alérgica.
O microbioma nasal saudável apresenta baixa diversidade, com predomínio de Actinobacteria, Firmicutes e Proteobacteria. Entre os gêneros mais abundantes estão Corynebacterium, Staphylococcus, Dolosigranulum, Moraxella e Streptococcus, importantes para a homeostase das vias aéreas.
Entre os microrganismos comensais, Dolosigranulum pigrum destaca-se como potencial probiótico nasal devido à sua capacidade de atuar em conjunto com espécies de Corynebacterium na inibição de patógenos respiratórios, como Staphylococcus aureus e Streptococcus pneumoniae, favorecendo a estabilidade do ecossistema nasal.
Na RA, observam-se alterações consistentes na composição da microbiota nasal, caracterizadas por aumento de Staphylococcus aureus e Moraxella catarrhalis e redução de bactérias potencialmente protetoras, como Dolosigranulum pigrum e Corynebacterium. A colonização por S. aureus, especialmente por cepas produtoras de superantígenos, foi associada a maior intensidade dos sintomas e amplificação de respostas Th2.
Evidências também sugeriram que M. catarrhalis pode induzir dano epitelial e produção de citocinas inflamatórias, enquanto a perda de comensais protetores reduz a resistência à colonização por patógenos respiratórios, favorecendo a inflamação alérgica.
Além disso, a disbiose nasal e a disfunção da barreira epitelial mantêm uma relação bidirecional. Alterações das junções celulares aumentam a permeabilidade da mucosa e estimulam a liberação das alarminas TSLP, IL-25 e IL-33, promovendo respostas Th2. Em contrapartida, a inflamação decorrente desse processo agrava a disbiose e o dano epitelial, perpetuando a doença.
Além das alterações do microbioma nasal, evidências indicaram que pacientes com RA também apresentam modificações no microbioma oral, reforçando o conceito de uma via aérea única.
Entre os microrganismos potencialmente envolvidos destaca-se Porphyromonas gingivalis, patógeno periodontal capaz de induzir citocinas pró-inflamatórias, ativar vias mediadas por TLR e NF-κB e aumentar a secreção de muco. Outro microrganismo de interesse é Fusobacterium nucleatum, associado à indução de citocinas inflamatórias e à degradação da matriz extracelular.
Em contrapartida, bactérias comensais como Streptococcus salivarius K12 exercem efeitos protetores ao modular a resposta imune, inibir a ativação da via NF-κB e produzir bacteriocinas contra patógenos respiratórios. Além disso, a microbiota oral participa da regulação da via nitrato-nitrito-óxido nítrico, influenciando a homeostase vascular e inflamatória das mucosas.
Os autores ressaltaram que as mucosas oral, nasal e pulmonar integram o Sistema Imune Comum das Mucosas (CMIS), permitindo que alterações do microbioma oral influenciem a imunidade respiratória. Em pacientes com RA, observa-se aumento de gêneros pró-inflamatórios, como Prevotella e Veillonella, e redução de espécies imunomoduladoras, como Streptococcus salivarius, sugerindo que o microbioma oral pode contribuir para a fisiopatologia da doença e representar um potencial alvo terapêutico.
A disbiose pode contribuir para a inflamação alérgica por meio de metabólitos microbianos, ativação da imunidade inata e modulação da resposta imune adaptativa.
Entre os principais metabólitos envolvidos estão os ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs), como butirato, propionato e acetato, produzidos pela microbiota intestinal. Esses compostos promovem tolerância imunológica, estimulam células T reguladoras (Treg) e reduzem a inflamação das vias aéreas. Em pacientes com RA, observa-se redução de bactérias produtoras de AGCCs, favorecendo respostas alérgicas.
Além disso, metabólitos derivados do triptofano ativam o receptor de hidrocarboneto de arila (AhR), importante para a integridade epitelial e a homeostase imunológica. Em contraste, toxinas produzidas por Staphylococcus aureus podem ativar mastócitos e intensificar a inflamação.
A disbiose também ativa vias da imunidade inata por meio dos TLRs e do inflamassoma NLRP3, favorece a polarização para o perfil Th2, altera o equilíbrio entre Treg e Th17 e estimula células linfoides inatas do tipo 2 (ILC2) por meio das alarminas TSLP, IL-25 e IL-33.
As interações neuroimunes também desempenham papel relevante. A ativação de terminações nervosas sensoriais promove a liberação de neuropeptídeos, como substância P e CGRP, amplificando vasodilatação, edema, secreção mucosa e hiper-reatividade nasal.
Alterações do microbioma nasal e oral podem futuramente atuar como biomarcadores de diagnóstico, estratificação de risco e resposta terapêutica na RA. Perfis microbiológicos caracterizados pelo aumento de Staphylococcus aureus, Moraxella e Haemophilus, além de alterações metabólicas específicas, mostraram potencial para identificar diferentes fenótipos da doença.
O microbioma também surge como alvo terapêutico. Estratégias em investigação incluem probióticos, prebióticos, pós-bióticos, lisados bacterianos e transplante de microbiota fecal (FMT), com o objetivo de restaurar o equilíbrio microbiano e modular a resposta imune. Além disso, bactérias geneticamente modificadas capazes de produzir moléculas imunomoduladoras, como IL-10, vêm apresentando resultados promissores em modelos experimentais.
A integração de dados do expossoma, microbioma, metaboloma, sistema imune e genoma, associada a ferramentas de inteligência artificial, poderá viabilizar estratégias de medicina de precisão na RA, permitindo a identificação de endotipos específicos e uma seleção mais individualizada dos tratamentos.
A RA resulta da interação entre fatores ambientais, disbiose do microbioma e desregulação imunológica. Pacientes com a doença apresentam redução de bactérias potencialmente protetoras, como Corynebacterium e Dolosigranulum pigrum, e aumento de microrganismos pró-inflamatórios, especialmente Staphylococcus aureus, favorecendo disfunção da barreira epitelial e resposta Th2. Embora o microbioma represente um alvo promissor para biomarcadores e novas estratégias terapêuticas, estudos adicionais ainda são necessários para sua incorporação à prática clínica.