| Introdução |
A anemia ferropriva (ADF) é uma preocupação global de saúde pública, afetando desproporcionalmente grupos vulneráveis, como crianças e gestantes. Durante a gravidez, a suplementação de ferro e ácido fólico é essencial para suprir as necessidades nutricionais da mãe e do feto. A ingestão inadequada desses nutrientes pode acarretar consequências adversas à saúde, como baixo peso ao nascer, aumento na incidência de cesarianas, hemorragias pós-parto, partos prematuros e anemia neonatal.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a ingestão diária de 30 mg a 60 mg de ferro elementar e 400 μg de ácido fólico para prevenir a anemia materna e complicações neonatais. No entanto, a suplementação intermitente de ferro tem emergido como uma estratégia promissora para otimizar a absorção e eficácia dos programas. Essa abordagem baseia-se na teoria do bloqueio da mucosa, que propõe que doses elevadas de ferro podem saturar temporariamente a mucosa intestinal, reduzindo a absorção de doses subsequentes. Assim, ao espaçar as doses para uma ou duas vezes por semana, alinhando-as com o ciclo de renovação da mucosa intestinal, é possível aumentar a absorção de ferro e reduzir a necessidade de doses totais mais elevadas.
Nesse cenário, Banerjee e colaboradores (2024) conduziram uma revisão atualizada de ensaios clínicos randomizados (ECRs) para avaliar a eficácia e a segurança da suplementação oral diária versus intermitente de ferro em gestantes, com o objetivo de prevenir a anemia e melhorar os estoques de ferro materno.
| Métodos |
Para a revisão sistemática e metanálise, os pesquisadores realizaram uma busca abrangente em bases de dados, incluindo PubMed, Google Scholar, Science Direct e Cochrane, abrangendo o período de 1º de janeiro de 1970 a 31 de dezembro de 2023. Foram selecionados estudos que compararam a suplementação diária e intermitente de ferro em mulheres grávidas.
A análise dos dados foi conduzida utilizando os pacotes estatísticos 'meta' e 'metafor' no RStudio, com aplicação do modelo de efeitos aleatórios. Adicionalmente, aspectos metodológicos cruciais foram avaliados, como heterogeneidade, viés de publicação, risco de viés e a certeza da evidência. Esses critérios foram analisados por meio das estatísticas I², gráficos de funil, a ferramenta Cochrane Risk of Bias 2 (ROB2) e a abordagem GRADE (Grades of Recommendation, Assessment, Development and Evaluation), respectivamente.
| Resultados |
Dos 4.615 resultados identificados na pesquisa, 26 estudos (n = 4.365 participantes) atenderam aos critérios de inclusão e foram incluídos na metanálise. Não foi observada diferença significativa entre os níveis médios de hemoglobina no desfecho final entre os grupos que receberam ferro oral diário e intermitente (diferença média padronizada (SMD): 0,51; IC 95%: -0,23 a 1,24; p = 0,18; I² = 97%; evidência de baixa certeza), independentemente do estado anêmico inicial.
No entanto, os níveis finais de ferritina foram significativamente mais elevados no grupo que recebeu suplementação diária de ferro (SMD: 0,85; IC 95%: 0,15–1,54; p = 0,02; I² = 97%; evidência de baixa certeza). Além disso, esse grupo foi associado a um aumento significativo na razão de chances ajustada (OR) para efeitos adversos gastrointestinais, incluindo náusea (OR ajustada: 3,56; IC 95%: 2,23–5,69; p < 0,001; I² = 9%; evidência de certeza moderada), diarreia (OR ajustada: 5,40; IC 95%: 1,90–15,33; p = 0,002; I² = 0%; evidência de baixa certeza) e constipação (OR ajustada: 1,95; IC 95%: 1,21–3,14; p = 0,006; I² = 0%; evidência de certeza moderada).
| Conclusão |
Em conclusão, Banerjee e colaboradores (2024) observaram que a suplementação oral intermitente de ferro, com uma dose média equivalente a 120 mg/dia, apresentou eficácia comparável à suplementação diária de 60 mg/dia no aumento dos níveis de hemoglobina em gestantes, além de reduzir significativamente a incidência de eventos adversos.
O regime intermitente mostrou-se particularmente vantajoso por minimizar os efeitos colaterais associados à suplementação de ferro, tornando-o uma alternativa viável para mulheres que enfrentam dificuldades em aderir ao regime diário. Os autores, portanto, recomendaram a adoção da suplementação intermitente em casos de intolerância ao regime diário, enfatizando seu potencial como uma estratégia segura e eficaz.