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/ Published on December 29, 2025

Helicobacter pylori

Efeitos da infecção por H. pylori na saúde gastrointestinal

Revisão analisou como a infecção por H. pylori influencia a microbiota intestinal, a resposta imune e o risco de câncer colorretal.

Author: Engelsberger, V. et al.

Fuente: Front Cell Infect Microbiol. 2024 Jan 26;14:1339750. Effects of Helicobacter pylori infection on intestinal microbiota, immunity and colorectal cancer risk

Introdução

Helicobacter pylori é uma bactéria gram-negativa, microaerofílica e espiralada que coloniza a mucosa gástrica de cerca de 43% da população mundial, geralmente adquirida na infância por transmissão oral-oral ou fecal-oral e persistindo por toda a vida.

Associada à gastrite crônica e às úlceras gastrointestinais, a infecção por essa bactéria é o principal fator de risco para câncer gástrico, responsável por até 90% dos casos, além de estar relacionada ao linfoma MALT, sendo classificada como carcinógeno do grupo I pela IARC.  Embora 80% dos infectados sejam assintomáticos, todos apresentam inflamação crônica, podendo evoluir para complicações graves, motivo pelo qual a erradicação é recomendada para todos os pacientes.

A patogenicidade do H. pylori depende de fatores de virulência como CagA, uma oncoproteína que altera vias de sinalização celular e promove carcinogênese; VacA, que induz apoptose e inibe células T; e γGT, que danifica células epiteliais e contribui para tolerância imunológica. Esses mecanismos, aliados à motilidade, produção de urease e adesinas, garantem colonização, persistência e evasão imunológica, tornando a bactéria um alvo prioritário para prevenção e tratamento de doenças gástricas.

H. pylori e manifestações extragástricas

Embora a infecção ocorra principalmente no estômago, estudos indicaram associação com diversas outras doenças e efeitos sistêmicos, incluindo distúrbios neurológicos, cardiovasculares, hematológicos e metabólicos, além de maior risco para alguns cânceres digestivos, como cólon, pâncreas e carcinoma hepatocelular.

Em contrapartida, há evidências de que H. pylori exerce efeitos protetores contra doenças inflamatórias crônicas, como asma e doença inflamatória intestinal (DII). Esse efeito parece estar relacionado à capacidade da bactéria de modular a resposta imune, induzindo células dendríticas tolerogênicas e aumentando a população de células T reguladoras (Treg), que secretam citocinas anti-inflamatórias e podem atuar de forma sistêmica.

Apesar dessa e de outras teorias, a relação entre H. pylori e doenças extragástricas ainda é pouco compreendida e apresenta resultados heterogêneos, possivelmente devido a diferenças metodológicas e características populacionais. Não há evidências robustas de colonização ativa fora do estômago, sugerindo que os efeitos sistêmicos decorram da imunomodulação sistêmica e alterações na microbiota.

H. pylori e risco de câncer colorretal

Diversos estudos e meta-análises indicaram que a infecção por Helicobacter pylori está associada a um aumento significativo do risco de câncer colorretal (CCR) e pólipos adenomatosos. A maioria das pesquisas apontaram um odds ratio (OR) entre 1,4 e 2,0, sugerindo que indivíduos infectados têm quase o dobro de chance de desenvolver CCR. Essa associação também se estendeu a adenomas avançados e pólipos hiperplásicos.

Além da presença da bactéria, fatores de virulência específicos, como CagA e VacA, também apresentam associação, possivelmente influenciando processos inflamatórios e carcinogênicos no intestino, embora os mecanismos moleculares ainda não estejam totalmente esclarecidos. Pesquisas também apontaram maior expressão de gastrina e do marcador proliferativo Ki67 em tumores colônicos infectados por cepas CagA-positivas.

Interação entre H. pylori e imunidade intestinal

A infecção por H. pylori desencadeia resposta pró-inflamatória local e sistêmica, envolvendo células imunes inatas e adaptativas. Embora utilize fatores de virulência para escapar da imunidade e manter-se crônica, essa ativação não se limita ao estômago, podendo induzir inflamação sistêmica, alterar respostas de células T CD4+ e CD8+ e favorecer carcinogênese intestinal. Esse “crosstalk” entre trato digestivo superior e inferior é apontado como possível elo entre H. pylori e maior risco de câncer colorretal.

Alterações na microbiota intestinal e câncer colorretal

Alterações na composição e função da microbiota intestinal estão associadas ao desenvolvimento e progressão do CRC. Espécies como Fusobacterium nucleatum, Bacteroides fragilis enterotoxigênico e Escherichia coli pks+ são frequentemente encontradas em tecidos colônicos e fezes de pacientes com CRC, podendo induzir inflamação crônica e danos ao DNA. Em contrapartida, bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), como butirato, propionato e acetato, exercem efeitos protetores, promovendo equilíbrio imunológico e integridade da barreira mucosa.

Infecção por H. pylori e alterações na microbiota gástrica

Alterações na microbiota gástrica durante a infecção levam à disbiose, favorecendo gastrite, úlceras e câncer gástrico. A progressão do epitélio normal para maligno está associada a mudanças específicas na composição microbiana. Em infecções ativas, H. pylori domina a microbiota e reduz sua diversidade, criando um ambiente propício à carcinogênese.

 Estudos mostraram que pacientes com câncer gástrico apresentam comunidades microbianas distintas e potencialmente genotóxicas. Modelos experimentais reforçaram essa interação ao comprovar que camundongos infectados por H. pylori e colonizados por microbiota comensal desenvolveram mais lesões do que aqueles livres da bactéria.

Infecção por H. pylori e alterações na microbiota intestinal

Além de alterar a microbiota gástrica, a infecção também remodela a microbiota intestinal, favorecendo disbiose e inflamação crônica. Estudos em modelos animais e humanos mostraram aumento de espécies degradadoras de muco, como Akkermansia, Ruminococcus, perda de células caliciformes e comprometimento da barreira intestinal, fatores que contribuem para carcinogênese colônica.

Embora a diversidade bacteriana não diminua, há mudanças relevantes na microbiota humana, como aumento de táxons pró-carcinogênicos (Prevotellaceae, Haemophilus) e redução de produtores benéficos de ácidos graxos de cadeia curta. Outros estudos relataram aumento de táxons ligados à inflamação e risco de CRC, como Succinivibrio, Coriobacteriaceae e Enterococcaceae. Em crianças com gastrite por H. pylori, houve aumento de bactérias gram-negativas produtoras de LPS, sugerindo contribuição para inflamação intestinal de baixo grau.

Efeitos da erradicação antibiótica do H. pylori sobre o risco CRC

A erradicação do H. pylori é amplamente recomendada para prevenção do câncer gástrico, utilizando esquemas como terapia tripla (IBP, claritromicina e amoxicilina) ou quádrupla, adicionando metronidazol, com ou sem bismuto. Estudos confirmaram redução significativa do risco de câncer gástrico, embora haja debate sobre um “ponto sem retorno” em casos avançados de metaplasia.

Quanto ao CRC, evidências sugeriram efeito protetor semelhante. Em Taiwan, pacientes não tratados apresentaram maior incidência de adenomas, e em Hong Kong, a erradicação reduziu o risco de CRC no longo prazo, especialmente para câncer retal. Um grande estudo escandinavo está em andamento para confirmar esses dados.

Modelos experimentais indicaram que a erradicação precoce reverte inflamação intestinal, restaura a barreira epitelial e normaliza a microbiota, prevenindo tumores. No entanto, alterações imunológicas induzidas pelo H. pylori podem não ser totalmente reversíveis, reforçando a necessidade de investigar se mudanças imunes e da microbiota após infecção prolongada podem ser corrigidas para definir estratégias ideais de prevenção.

Efeitos da erradicação do H. pylori sobre a microbiota intestinal

Antibióticos para erradicação podem causar disbiose transitória, com redução da diversidade e alterações em táxons como Bacteroidetes e Actinobacteria, mas a maioria dos estudos mostraram recuperação em semanas ou meses. Em alguns casos, mudanças persistem até 1 ano ou mais, com possível impacto metabólico. No entanto, a erradicação tende a eliminar a disbiose induzida pelo H. pylori, aproximando a microbiota do perfil saudável e melhorando parâmetros metabólicos (insulina, lipídios). Efeitos duradouros são raros, mas dependem do regime, tempo de seguimento e características individuais. Ainda persistem dúvidas sobre reversibilidade completa das alterações imunológicas induzidas pela infecção, reforçando a importância da erradicação precoce.

Conclusão

A infecção por H. pylori é um fator de risco relevante para câncer colorretal, com impacto populacional estimado em até 30% dos casos. Os principais mecanismos envolvem alterações imunológicas e disbiose intestinal, com aumento de bactérias pró-carcinogênicas e redução de espécies benéficas. A erradicação antibiótica pode reduzir esse risco, embora seu efeito protetor ainda seja considerado modesto e dependente do tempo de infecção, resistência antimicrobiana e possíveis alterações irreversíveis na imunidade e microbiota. Fatores de virulência, como CagA, parecem ter papel importante, mas sua relação com CRC precisa ser melhor explicada. No futuro, estudos clínicos prospectivos e em larga escala são essenciais para investigar o efeito da infecção ativa, fatores de virulência e erradicação sobre o risco de câncer colorretal.