A doença cardíaca reumática (DCR) é provocada por danos nas válvulas e músculos cardíacos decorrentes da inflamação causada pela febre reumática (FR), sendo uma das principais causas de morte e incapacidade em crianças e jovens adultos.
No estudo de Karthikeyan et al., (2024) relataram dados essenciais sobre mortalidade e morbidade da doença em 24 países de baixa e média renda (LMICs), abrangendo quase 14 mil pacientes. A idade média desses foi de 43,2 (16,9) anos. Como indivíduos com menos de 18 anos não foram incluídos, a idade média real seria ainda menor. Sabe-se que tanto a ocorrência inicial de FR quanto a progressão da DCR podem ser mais rápidas em áreas endêmicas. Esses fatos lembram a idade crítica em que a DCR afeta os indivíduos, tornando-os economicamente improdutivos e empobrecendo-os ainda mais. A maioria dos participantes deste estudo tinha doença valvar moderada ou grave, apesar de menos de 5% terem sido submetidos a cirurgia ou valvuloplastia, quase certamente devido à falta de cobertura de saúde e aos altos custos de desembolso.
O estudo sugeriu que intervenções valvares oportunas estão associadas à redução da mortalidade. O desafio é garantir o acesso não apenas a terapias avançadas, mas também à profilaxia antibiótica em uma situação em que a epidemiologia natural da doença afeta desproporcionalmente as partes menos abastecidas da população. Por exemplo, pode-se providenciar substituição valvar subsidiada ou gratuita para pacientes economicamente desfavorecidos. No entanto, como garantir o acompanhamento regular e a adesão à anticoagulação, dado o desafio de acessar até mesmo cuidados de saúde simples regularmente, especialmente em áreas rurais? As taxas de mortalidade em 30 dias após admissão por insuficiência cardíaca e cirurgia valvular neste estudo provavelmente refletem tanto a apresentação tardia no curso natural da doença quanto o acompanhamento subótimo.
Portanto, este estudo esclareceu que estratégias para abordar as desigualdades que alimentam a DCR precisam ir além da provisão de cuidados terciários acessíveis, e caminhar para soluções socioeconômicas inclusivas e desenvolvimento que abordem todos os aspectos que impactam negativamente o acesso aos cuidados de saúde.
Embora Karthikeyan e seus colaboradores argumentem principalmente por uma ampliação dos serviços de cuidados terciários para reduzir a mortalidade por DCR, é necessário lembrar que a substituição valvar mecânica em pacientes jovens constitui, de certa forma, uma doença em si, dada a necessidade de uso vitalício de varfarina, monitoramento regular e possíveis complicações associadas, como sangramento e trombose. Isso é especialmente problemático em mulheres em idade reprodutiva, onde a gravidez com uma válvula mecânica pode resultar em morbidade tanto materna quanto fetal. Portanto, o conceito de triagem para doença subclínica e provisionamento de profilaxia antibiótica para retardar a progressão da doença merece mais esforços e atenção.
Finalmente, há uma necessidade de apoiar pesquisas-chave relevantes para a DCR, como a reparação cirúrgica da válvula reumática, que tem demonstrado ser viável com resultados razoáveis. Outro possível direcionamento futuro seria enviar pacientes de países de baixa renda para infraestruturas relativamente melhores para cirurgias valvares. A longo prazo, desenvolver instalações locais e expertise é crucial para garantir autossuficiência e sucesso duradouro na batalha contra a DCR.