Vídeos de pessoas reagindo à escrita de seus prontuários médicos são comuns no popular aplicativo de mídia social TikTok. Em um vídeo, uma pessoa ri na frente de uma captura de tela da frase "Comportamento homossexual de alto risco", com a legenda: "por que meu médico colocou isso no meu prontuário?". Outra pessoa em outro vídeo colocou a mão sobre a boca abaixo do texto "eu lendo os resultados do MyChart- portal que dá acesso ao prontuário médico aos pacientes". A tela atrás foca na frase "abortadora habitual". Criadores de conteúdo, que muitas vezes usam humor para criticar a linguagem dos prontuários médicos, às vezes reconhecem as convenções da terminologia clínica, mas permanecem frustrados. Por exemplo, essa usuária falou: "Sim, eu sei que [abortadora habitual é] o termo médico [para aborto espontâneo recorrente]. No entanto, é de partir o coração ler isso."
Aplicativos como o TikTok fornecem aos pacientes uma plataforma para compartilhar experiências de atendimento médico que os deixaram se sentindo desrespeitados ou julgados. Tais vídeos podem destacar falhas comuns e muitas vezes evitáveis na comunicação clínica. Em uma era de prontuários eletrônicos facilmente acessíveis, eles iluminam a desconexão entre as normas da linguagem clínica e as experiências do público paciente, oferecendo assim lições para tornar o atendimento mais centrado no paciente.
Um tema comum nesses vídeos é o desconforto com as descrições da aparência do paciente. Mesmo quando as descrições da aparência não contêm linguagem negativa, os pacientes podem achá-las estranhas ou irrelevantes. Um usuário relatou que seu prontuário falava "Paciente é uma mulher branca agradável, sem sofrimento agudo. Ela estava usando um moletom da Universidade da Flórida e leggings pretas. Ela tem cabelo loiro comprido".
Esses vídeos às vezes recebem centenas ou milhares de comentários, muitos contendo anedotas semelhantes. Tais comentários destacaram que as experiências com linguagem médica estigmatizante são generalizadas. Em alguns dos milhares de comentários em um vídeo com a legenda "Por que eles sempre têm que redigir as coisas de forma tão dura?" quem comentou relatou que encontraram em seus prontuários diagnósticos que não lhes haviam sido comunicados. Por exemplo, um usuário relatou "Descobri que tenho transtorno de personalidade borderline no meu. Tipo, não deveria estar tratando isso???". Ademais, alguns afirmaram que não haviam sido ouvidos. Um usuário foi ao pronto-socorro relatando dor e exaustão, e no prontuário estava “o paciente está bem e não tem queixas”.
Um crescente corpo de pesquisa explora críticas semelhantes à linguagem usada em prontuários médicos. Uma grande pesquisa descobriu que 10% dos pacientes que leram as anotações de seus médicos se sentiram julgados ou ofendidos pelo conteúdo. Um entrevistado escreveu: "Eu não fiquei ofendido. Foi, na verdade, traição."
Estudos também encontraram padrões de viés em prontuários médicos. Na mesma pesquisa, sentimentos de julgamento ou ofensa foram relatados com mais frequência por entrevistadas do sexo feminino e com mais frequência por pessoas que relataram ter saúde razoável ou ruim ou serem incapazes de trabalhar ou que descreveram sua raça como "outra". Um estudo de prontuários de pessoas com transtorno por uso de substâncias, dor crônica ou diabetes encontrou linguagem mais estigmatizante nos prontuários de pacientes negros não hispânicos do que naqueles de pacientes brancos não hispânicos com as mesmas condições; o aumento da gravidade do diabetes também foi correlacionado com linguagem mais estigmatizante.
Em um estudo de mais de 40.000 anotações, descritores negativos - incluindo termos como "não aderente", "agressivo" e "não cooperante" - foram identificados nos prontuários de 8,2% dos pacientes. Os negros tinham mais do que o dobro da probabilidade de terem tal linguagem em seus prontuários. Outro estudo descobriu que o uso de citações, palavras que implicavam julgamento (por exemplo, "afirma" ou "insiste") e evidências (ou seja, relatos de sintomas do paciente como boatos) era mais comum nos prontuários de pacientes negros do que nos brancos e que o uso de citações era mais comum nos prontuários de pacientes do sexo feminino. Pesquisadores descreveram o uso desse tipo de linguagem como uma forma de injustiça, uma que envolve desconsiderar o autoconhecimento do paciente. Tal linguagem pode afetar o atendimento médico: em um estudo, estagiários de medicina que haviam lido uma anotação contendo linguagem estigmatizante e racializada mantiveram visões mais negativas de um paciente hipotético com doença falciforme e recomendaram um gerenciamento da dor menos agressivo do que seus colegas que haviam lido uma versão mais neutra da anotação.
Uma resposta às críticas à linguagem dos prontuários é que os médicos estão simplesmente se baseando em convenções médicas, e a linguagem comumente usada está sendo mal interpretada pelos pacientes. De fato, muitos vídeos receberam comentários de médicos observando que a linguagem incluída é clinicamente necessária e neutra. Mas é importante que as normas da linguagem sejam reanalisadas. Em uma pesquisa, um entrevistado reconheceu que a formulação encontrada no prontuário era "simplesmente a linguagem que os médicos são ensinados a usar". Mas o entrevistado continuou refletindo sobre a lógica subjacente: "Relatos de pacientes são considerados 'subjetivos' e, portanto, considerados um pouco não confiáveis". Os médicos devem pensar criticamente sobre a política da linguagem clínica em vez de descartá-la como neutra.
O que implicaria levar a sério as críticas feitas no TikTok? Pesquisadores recomendaram mudanças na linguagem clínica que podem reduzir o estigma, como documentar o índice de massa corporal em vez de se referir a um paciente como "obeso" ou descrever a justificativa dos pacientes para recusar atendimento médico em vez de simplesmente documentar que "recusaram" o tratamento. Os temas que aparecem nesses vídeos fornecem orientações adicionais. Os médicos poderiam documentar a aparência apenas quando clinicamente relevante e sem usar eufemismos. Eles poderiam refletir e encontrar alternativas à linguagem que implica descrença, especialmente ao trabalhar com pacientes de comunidades marginalizadas. Em vez de enterrar diagnósticos estigmatizados na documentação, eles poderiam discuti-los com os pacientes. O código da Classificação Internacional de Doenças, 11ª Revisão (CID-11), para "abortador habitual" (GA33), também está vinculado ao mais neutro "perda gestacional recorrente", o que sugere que médicos ou codificadores podem, às vezes, escolher uma linguagem menos estigmatizante sem afetar o significado. E embora fatores burocráticos possam, às vezes, exigir o uso de linguagem estigmatizante, os médicos podem se comunicar abertamente, explicando respeitosamente aos pacientes a linguagem que aparecerá em seus prontuários e o porquê. Tais práticas podem gerar confiança, enquanto o uso inexplicável de linguagem estigmatizante pode prejudicá-la.