| Introdução |
A gota, que se desenvolve na presença de concentrações elevadas de urato, é a forma mais comum de artrite inflamatória. A sua prevalência é específica por sexo e varia entre as regiões globais, com uma relação de homens para mulheres que varia de 2:1 a 4:1 na Europa e na América do Norte e uma proporção substancialmente mais alta de aproximadamente 8:1 na Ásia.
Uma elevação sustentada nos níveis de urato sérico é o principal fator associado ao desenvolvimento da gota. Embora a susceptibilidade genética desempenhe um papel importante, fatores de estilo de vida também estão envolvidos na patogênese. Especificamente, o consumo de álcool tem sido associada a níveis elevados de urato sérico e, assim, pode eventualmente causar gota por meio da hiperuricemia.
Com objetivo de obter estimativas de risco mais precisas, Lyu e colaboradores (2024) realizaram análises específicas por sexo para investigar as associações do consumo total e específico de álcool com o risco de gota a longo prazo.
| Métodos |
Os autores realizaram um estudo de coorte prospectivo incluiu 401.128 participantes do UK Biobank com idades entre 37 e 73 anos que estavam livres de gota na linha de base (2006-2010).
As informações sobre o consumo de álcool na linha de base foram obtidas usando um sistema de tela sensível ao toque assistido por computador. Os participantes foram questionados sobre seu status de consumo de álcool, classificando-se como nunca, anterior ou atual. O último grupo foi solicitado a responder a perguntas adicionais sobre quanto de cada bebida alcoólica (vinho tinto, champanhe ou vinho branco, cerveja ou cidra, destilados e vinho fortificado) consumiam em média por semana (ou por mês para aqueles que bebiam menos de uma vez por semana). O consumo semanal foi categorizado em 4 grupos (<1, 1-2, 3-4 e ≥5 vezes por semana). O específico foi categorizado em 5 grupos (0, ≤1, 2-3, 4-6 e ≥7 copos de vinho tinto, copos de champanhe ou vinho branco, pint de cerveja ou cidra, doses de destilados ou copos de vinho fortificado por semana).
Os participantes com gota na linha de base foram identificados com base em dados autorreferidos, incluindo um histórico da doença e uso de terapia redutora de urato (alopurinol, probenecida e/ou sulfinpirazona) ou colchicina, além de um diagnóstico hospitalar. A gota incidente durante o acompanhamento foi determinada a partir de diagnósticos hospitalares registrados em prontuários de internação primária ou secundária, utilizando a Classificação Internacional de Doenças.
Informações sobre fatores sociodemográficos, histórico médico e uso de medicamentos (incluindo uso de diuréticos) e comportamentos de estilo de vida (por exemplo, tabagismo, atividade física usual e hábitos alimentares no último ano) foram coletadas na linha de base. A raça e a etnia foram avaliadas devido à possibilidade de diferentes origens raciais e étnicas estarem associadas à incidência de gota.
| Resultados |
Foram incluídos179.828 homens e 221.300 mulheres. Entre os participantes do sexo masculino, 2,9% eram abstêmios, 3,6% eram ex-consumidores, e 93,6% eram consumidores atuais. Entre as participantes do sexo feminino, 5,9% eram abstêmias, 3,6% eram ex-consumidores, e 90,5% eram consumidores atuais. Os consumidores de álcool atuais eram mais propensos a serem brancos, menos propensos a nunca terem fumado ou a terem dislipidemia ou diabetes, maior status socioeconômico e maior IMC.
Entre os participantes da análise exploratória, foram identificados 8639 casos incidentes de gota (6561 em homens e 2078 em mulheres) ao longo de um tempo mediano de acompanhamento de 12,7 anos (IQR, 12,1-13,5 anos). O número de casos incidentes de gota foi de 5278 (4096 no sexo masculino e 1182 e no feminino) na análise principal.
Os consumidores atuais apresentaram um risco maior de gota do que os abstêmios entre os homens, mas não entre as mulheres. O maior consumo total de álcool foi associado a um risco maior de gota em ambos os sexos, sendo mais forte entre os homens do que entre as mulheres.
Por fim, as associações entre diferentes bebidas alcoólicas e a gota incidente entre homens e mulheres foram investigadas. Na análise principal, o consumo de champanhe, vinho branco, destilados, cerveja e cidra, e foi associado a um risco maior de gota em ambos os sexos, sendo os dois últimos os que apresentaram a associação mais forte. A relação com destilados por 1 dose por dia pareceu ser mais forte entre as mulheres. Uma taça de vinho tinto por dia foi associada a um risco modestamente maior de gota entre os homens, mas não entre as mulheres.
| Conclusão |
Sendo assim, o consumo de várias bebidas alcoólicas específicas foi associado a um risco maior de gota em ambos os sexos. A diferença observada entre eles pode ser decorrente das diferenças nos tipos de álcool consumidos, em vez de diferenças biológicas.