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Publicado el 24 de agosto de 2026

Saúde óssea

Comprometimento musculoesquelético na doença celíaca

Revisão das evidências sobre as manifestações musculoesqueléticas da doença celíaca, com foco no comprometimento ósseo, muscular e articular, além de seus mecanismos fisiopatológicos, implicações clínicas e estratégias de manejo em adultos e crianças.

Autor/a: Migliorini, F. et al.

Fuente: Eur J Med Res. 2026 Musculoskeletal consequences of coeliac disease.

Introdução

A doença celíaca é uma desordem sistêmica imunomediada desencadeada pela ingestão de glúten em indivíduos geneticamente predispostos, principalmente aqueles portadores dos haplótipos HLA-DQ2 ou HLA-DQ8. Embora tradicionalmente associada a sintomas gastrointestinais, seu espectro clínico inclui diversas manifestações extraintestinais, com destaque para o comprometimento musculoesquelético.

Artralgia, mialgia e dor óssea acometem cerca de 20% a 30% dos adultos com doença celíaca, enquanto a redução da densidade mineral óssea está presente em até 75% dos pacientes. No entanto, essas manifestações ainda são frequentemente subdiagnosticadas e submonitoradas na prática clínica.

Diante disso, a revisão de Migliorini e colaboradores (2026) reuniu as evidências atuais sobre o comprometimento ósseo, muscular e articular associado à doença celíaca, abordando seus mecanismos biológicos, apresentações clínicas e a resposta à dieta isenta de glúten, com o objetivo de apoiar a tomada de decisões clínicas e futuras pesquisas na área.

Mecanismos fisiopatológicos associados

O acometimento musculoesquelético na doença celíaca resulta de múltiplos mecanismos, incluindo má absorção de nutrientes, ativação imunológica, inflamação sistêmica crônica, fatores genéticos e alterações da microbiota intestinal. A atrofia das vilosidades intestinais compromete a absorção de cálcio, vitamina D, magnésio, fosfato e aminoácidos essenciais, favorecendo hiperparatireoidismo secundário, desmineralização óssea e perda de massa muscular. Paralelamente, a exposição ao glúten desencadeia a produção de autoanticorpos e citocinas pró-inflamatórias, como IL-6 e TNF-α, que estimulam a reabsorção óssea, inibem a formação óssea e promovem proteólise muscular.

Alterações da microbiota intestinal também podem influenciar o metabolismo ósseo e muscular por meio da modulação da resposta imune, da produção de ácidos graxos de cadeia curta e de mudanças na permeabilidade intestinal. Além disso, o estresse oxidativo causado pela inflamação pode contribuir para fadiga, mialgias e alterações do metabolismo musculoesquelético.

Embora evidências apontem para a participação de mecanismos imunológicos e da microbiota intestinal nesses desfechos, muitas dessas associações ainda se baseiam em estudos observacionais e requerem confirmação em pesquisas prospectivas.

Saúde óssea e osteoporose

Do ponto de vista clínico, osteopenia, osteoporose e redução da densidade mineral óssea estão entre as alterações mais frequentes, podendo acometer mais da metade dos indivíduos ao diagnóstico, mesmo na ausência de sintomas gastrointestinais. Esse comprometimento está associado a maior risco de fraturas por fragilidade, que podem representar a manifestação inicial da doença em alguns pacientes.

A avaliação da densidade mineral óssea por absorciometria por dupla emissão de raios X (DXA) é recomendada, especialmente na presença de fatores de risco, como idade avançada, menopausa e sintomas prolongados. A dieta isenta de glúten constitui a principal estratégia terapêutica e pode promover recuperação parcial da massa óssea, principalmente nos primeiros 12 a 24 meses após o diagnóstico. Nos casos mais graves, suplementação de cálcio e vitamina D e, em situações selecionadas, agentes antirreabsortivos podem ser necessários.

Comprometimento muscular e sarcopenia

Redução da massa muscular e sarcopenia podem ocorrer mesmo em pacientes com índice de massa corporal normal, sugerindo que o impacto sobre o tecido muscular pode ser subestimado na prática clínica. A sarcopenia precoce, caracterizada pela perda de massa e força muscular, tem sido descrita principalmente em pacientes não tratados e parece estar relacionada à duração da doença, à adesão à dieta isenta de glúten e à idade ao diagnóstico.

Clinicamente, os pacientes podem apresentar fraqueza muscular, fadiga, redução da resistência física e pior desempenho funcional, sintomas frequentemente atribuídos ao envelhecimento, sedentarismo ou outras condições. Avaliações objetivas, como testes de força de preensão manual, velocidade de marcha e teste de levantar da cadeira, podem auxiliar na identificação dessas alterações.

A recuperação da massa e da função muscular depende do controle adequado da doença e da correção das deficiências nutricionais. Além disso, programas de exercício resistido e reabilitação física têm demonstrado benefícios funcionais, embora a recuperação nem sempre seja completa, sobretudo em pacientes idosos ou com doença de longa duração.

Manifestações articulares e artropatias autoimunes

Artralgias migratórias e artrite não erosiva podem surgir antes dos sintomas gastrointestinais da doença, dificultando o diagnóstico e levando à suspeita de artropatias inflamatórias soronegativas. O acometimento pode envolver articulações periféricas e axiais, manifestando-se por dor, rigidez e edema de baixo grau.

Estudos observacionais sugeriram que indivíduos com doença celíaca apresentam maior risco de desenvolver doenças reumáticas autoimunes, incluindo artrite reumatoide, artrite psoriásica, lúpus eritematoso sistêmico e espondilite anquilosante.

O diagnóstico pode ser desafiador, uma vez que muitos pacientes apresentam sintomas inespecíficos, exames laboratoriais negativos para marcadores reumatológicos e alterações discretas ou ausentes nos exames de imagem. Nesses casos, a investigação para doença celíaca deve ser considerada, especialmente na presença de fadiga, anemia ou outras condições autoimunes associadas.

A dieta isenta de glúten permanece a principal estratégia terapêutica e pode levar à melhora parcial ou completa dos sintomas articulares, sobretudo nos pacientes com artralgias isoladas ou sinais inflamatórios iniciais. Indivíduos com doenças reumáticas autoimunes estabelecidas podem necessitar de tratamento específico adicional.

Crescimento e desenvolvimento em pacientes pediátricos

Em crianças e adolescentes, a doença celíaca pode comprometer o crescimento linear, a maturação esquelética e o desenvolvimento puberal. Alterações como redução da densidade mineral óssea e da massa magra podem estar presentes desde o diagnóstico, com potencial impacto sobre o desempenho físico e alterações musculoesqueléticas a longo prazo.

O diagnóstico e o manejo precoces favorecem o alcance de estatura e massa óssea adequadas, enquanto o diagnóstico tardio está associado à persistência de déficits de crescimento e alterações esqueléticas. Nessa população, o acompanhamento multidisciplinar, com monitoramento nutricional, endocrinológico e da saúde óssea, é fundamental para o desenvolvimento musculoesquelético adequado.

Conclusão

A doença celíaca deve ser considerada uma enfermidade sistêmica com implicações clínicas significativas para o sistema musculoesquelético, contribuindo para morbidade em longo prazo, redução da capacidade funcional e piora da qualidade de vida. O diagnóstico precoce, a avaliação clínica abrangente e o monitoramento contínuo são fundamentais para prevenir complicações e preservar a funcionalidade dos pacientes.

 Embora o comprometimento musculoesquelético associado à doença celíaca esteja cada vez mais bem caracterizado, muitas evidências ainda derivam de estudos observacionais, reforçando a necessidade de pesquisas prospectivas para aprimorar a compreensão dos mecanismos envolvidos e orientar estratégias mais eficazes de prevenção e manejo.